NADA  PARA SEMPRE
MAURCIO DE CASTRO
(PELO ESPRITO HERMES)


Este livro  dedicado a duas pessoas especiais:
Leonardo Rsica - escritor e amigo do peito
Denner Evair - a quem considero mais que um filho, um verdadeiro presente divino. Que Deus possa iluminar suas vidas!


PREFCIO


Nada descreve a honra com que recebi o convite para fazer um breve prefcio a este novo livro de Maurcio de Castro, NADA  PARA SEMPRE. J o conheo de outros tempos 
e de outras obras e foi, portanto, com muito entusiasmo que soube que mais um livro seu seria publicado. Desta vez o promissor escritor, atravs do esprito Hermes, 
brinda-nos com um envolvente romance sobre um dos temas mais universais e intrigantes da Histria da Humanidade: o aspecto transitrio e efmero das condies e 
situaes humanas, e sua correlao com o materialismo - quanto mais algo  puramente material, maior sua fragilidade frente aos reveses do tempo. A histria de 
Clotilde - mais tarde Isabela -  um perfeito exemplo desta transitoriedade: da vida miservel de favela  prostituio de luxo, aos confortos de esposa de um bem-sucedido 
poltico; do amor materno e incondicional aos impulsos que a impelem aos atos mais hediondos, tudo parece mutvel e passageiro na existncia dessa personagem que 
um dia jurou vingana contra as humilhaes e violncias que sofreu no incio de sua juventude, antes de se tornar Isabela. Para a jovem Isabela, desnorteada pela 
dor e pela misria e seduzida pelas promessas de dinheiro fcil e abundante de uma suspeita "Madame", o valor de um ser humano na sociedade parece ser ditado unicamente 
pelo que a pessoa tem de material, e assim ela promete a si mesma se tornar rica e poderosa, sem pensar no quanto isso poder lhe custar  alma. Espritos vingativos, 
que a perseguem desde existncias prvias, tornam ainda mais densa a trama. Os valores equivocados de Isabela, infelizmente, parecem ser a regra na sociedade de 
hoje em dia. O aspecto espiritual  negligenciado, e a religio da maioria se converte em uma perigosa iluso: a iluso do dinheiro, e de tudo o que ele pode comprar-manses 
deslumbrantes, carros potentes, roupas de luxo, poder, privilgios e at mesmo a beleza, talentosamente confeccionada pelas mos de cirurgies regiamente pagos. 
Tudo iluso, tudo transitrio... A ascenso que o dinheiro parece proporcionar  falsa e enganosa,  uma ladeira qu temos a impresso de estar subindo, enquanto, 
na verdade, no samos do lugar.  como aquela personagem de fbula, que corre atrs da lua, e em sua ingenuidade cr que se aproxima dela mais e mais, esgotando-se 
em uma obsesso louca e equivocada. Assim so todos os que guiam suas vidas pela ambio das "riquezas" mundanas, sem suspeitar que toda a fortuna, o poder e o prestgio 
alcanados por um homem podem desabar como um castelo de cartas ao menor sopro do destino. Algumas vezes, apenas uma mudana assim pode fazer com que essas pessoas 
percebam o essencial: que a nica riqueza que existe  a da alma, e que a nica ascenso possvel  a espiritual. Somente ento se percebe que os verdadeiros degraus 
para a legtima ascenso - o aperfeioamento espiritual - esto em conceitos como o amor incondicional, a abnegao, a responsabilidade pelos prprios atos, o respeito 
aos outros e a si, a humildade, a fraternidade... Conceitos que nada tem a ver com a dimenso material, especialmente em um mundo como o que vivemos hoje, em que 
tudo muda to rapidamente e onde NADA  PARA SEMPRE. Estou certo de que o leitor, aps ter o prazer de acompanhar cada reviravolta do interessante relato com o qual 
nos presenteiam Hermes e Maurcio de Castro terminar este livro um pouco mais rico, mas em moedas que realmente contam: a sabedoria e a iluminao espiritual.

Boa leitura!

Leonardo Rsica, Escritor.


SUMRIO

PRLOGO
1 - A VISITA
2 - UMA PROPOSTA DAS TREVAS
3 - ENTRE O BEM E O MAL
4 - A PRIMEIRA VTIMA
5 - UMA VIDA DESTRUDA
6 - UMA INIMIGA
7 - ORIENTAES
8 - ADQUIRINDO COMPROMISSOS
9 - A DESCOBERTA DE FLAVIANA
10 - PLANO SRDIDO
11 -  HORA DA VINGANA
12 - DE VOLTA A ANTIGOS HBITOS
13 - NA MANSO DE HIGIENPOLIS
14 - A MORTE SE APROXIMA
15 - ENCONTRANDO A ESPIRITUALIDADE
16 - DE VOLTA AO MUNDO MAIOR
17 - INTRIGA
18 - A NOVA REALIDADE
19 - CONHECENDO A VERDADE
20 - O BEM  MAIS FORTE        
21 - DE VOLTA PARA CASA
22 - RENNCIA
EPLOGO

PRLOGO


Numa tarde chuvosa e fria, uma mulher jovem de miservel aspecto, com o filho pequeno nos braos e uma sacola de sujo tecido nas mos, tenta esconder-se da intemprie 
da chuva por entre as casas em construo daquela rua. Finalmente encontra um teto e deita-se ali com o filhinho de bruos sobre sua barriga. No ntimo sente-se 
aliviada, pois nesse exato momento a chuva aumenta com toda a sua fora. A criana de meses, sem ter sequer um ano completo, alheia a tudo que se passa, olha para 
a me e sorri. Em sua inocncia no avalia a dor pela qual ela passa vendo o filho naquela indigncia. Fazia muito tempo que Clotilde passava o dia a esmolar pelas 
ruas. O barraco em que vivia era pauprrimo. Possua poucos parentes que, em situao igual  dela, no poderiam ajud-la. Difcil mesmo tinha ficado depois da gravidez, 
indesejada, por sinal. Na favela onde morava era praticamente um "co sem dono", e assim ficou fcil ser estuprada por Juvncio. Homem forte e asqueroso, integrante 
de um grupo de marginais, rapidamente pousou sobre ela os olhos e s se aquietou quando a tomou  fora e a violentou sexualmente. Ao descobrir-se grvida, Clotilde 
pensou que estava em pesadelo; procurou o brutamonte, que questionou a paternidade da criana e ainda a espancou. Pensando em aborto, cogitou concretiz-lo. Acertou 
tudo com uma amiga. Esta ia lev-la a uma mulher que fazia uma beberagem fatal, quando uma noite mudou todo o seu plano. Ainda sentia as fortes emoes daquele sonho. 
Lembrou-se de quando adormeceu e sonhou que estava num campo verde e vasto, quase infinito. Sentiu medo por estar em um local deserto, apesar da beleza. Porm, de 
repente, uma doce figura de mulher apareceu num claro:
- Clotilde, que Deus a abenoe e proteja! Assim como lhe disse da ltima vez, cumpro minha promessa. Estou aqui pronta para ouvi-la.
Ela no reconheceu de imediato, mas a cabo de poucos segundos deu um grito:
- Diana! Minha amiga querida! Como tudo isso foi acontecer comigo? - Desabou no cho chorando convulsivamente. - No mereo! Sempre fui to boa!
Diana, esprito lcido e j bastante evoludo, esclareceu:
- Sempre merecemos tudo por que passamos. Na lei divina tudo est certo sempre. J se esqueceu do que estudou conosco?
Ela pareceu se revoltar:
- Aqui volto a me lembrar, porm l esqueo. Ademais, acho o fardo muito pesado, no vou resistir, vou sucumbir mais uma vez!
Diana sorriu:
- Sente-se um pouco nesta grama. No vim aqui para v-la chorar dessa maneira. Ningum est sozinho ou desamparado pelo Pai. Ele jamais nos d provas maiores do 
que possamos suportar e vencer. Estou aqui para ajud-la e comigo h um grupo de amigos que a assistiro na crosta.
- Ento  mesmo a hora de Thierry voltar? No seria mais tarde? Afinal, ainda no estou preparada, e o ato do estupro foi traumatizante.
 O ser angelical elucidou:
- Sim, Thierry vai voltar, assim como prometeu, para estar a seu lado, equilibrando-a nas horas mais difceis do seu reajuste. Mas no  s, ele tambm muito errou 
contigo naquela experincia na Frana. Tanto  que no lograram viver num plano de regenerao e tiveram de vestir novamente a carne da Terra, esse mundo de desafios, 
para assim continuarem o aprendizado.
- Sei disso, mas  difcil me conformar. Por que fui errar daquela maneira?
- S se erra por ignorncia. Se voc soubesse o que iria lhe acontecer naquele momento, jamais agiria da mesma forma, por isso no se condene. Retorne a Terra e 
abrace a responsabilidade que assumiu consigo mesma. Infelizmente teve de ser por meio de um estupro, mas Thierry estaria com voc de uma maneira ou de outra. Volte 
e fique com Deus!
A mulher deu-lhe um abrao terno e desapareceu envolta no mesmo claro que a fez surgir. Clotilde acordou chorando, um pranto dolorido e aliviado ao mesmo tempo. 
Despertando de seu devaneio, ali naquela casa em construo, olhando a chuva impertinente, ela percebeu o quanto fora feliz em sua escolha e como aquele sonho a 
havia ajudado. Se no fosse por ele, talvez Daniel no estivesse ali naquele momento, enchendo sua vida de encanto e alegria. Aquela frase: "Abrace a responsabilidade 
que assumiu consigo mesma" ficou em sua mente, e foi ela quem a fez no dia seguinte desistir do aborto. A chuva parou e ela percebeu que j era tarde e no poderia 
mais esmolar naquele dia. O pouco que conseguira dava para ela, mas e Daniel? O que iria comer naquela noite? Seguiu em direo  favela com essa preocupao em 
mente e, ao subir o morro, uma mulher esbaforida veio ao seu encontro:
- Corre, Clotilde. Comeou um incndio na favela e seu barraco est em chamas. Acho que no sobrou nada! 
- Meu Deus, que horas comeou isso?
- No sei direito, mas o fogo consumiu tudo muito rpido!
Clotilde tentou se apressar, porm, ao chegar perto, percebeu que de sua casa nada sobrara. Entregou Daniel nos braos de Shirley e comeou a chorar copiosamente. 
Seu barraco era sua dignidade. Mesmo feio e feito de madeira, era a maneira de dizer a si mesma que tinha algo de seu. Naquela noite, Clotilde foi pedir abrigo na 
casa da me. L alimentara Daniel com um mingau sem nenhuma substncia nutritiva, e o resto da noite no conseguiu dormir de tanto chorar.

1 - A VISITA
  
O dia amanheceu nublado e as nuvens encobriam os raios solares. Clotilde acordou cedo, providenciou a parca alimentao para o filho e sentou-se em frente do barraco 
de sua me, recomeando a chorar. Tinha pouco mais de vinte anos e j sofria amargamente sem nunca ter feito mal a ningum. Sua infncia triste, em meio aos tiroteios 
e s guerras contra o trfico de drogas na favela, a tinha transformado numa adolescente melanclica e sem expectativas. Desde pequena saa s ruas para pedir esmola 
com a me e sentia no rosto das pessoas todo o desprezo por gente como ela: pobre e com pouco estudo. Se muitos davam de bom grado um pedao de po, um punhado de 
acar ou farinha, outros batiam a porta ou viravam o rosto em desagrado. Como a vida era difcil! Estava assim concatenando as idias quando sua me, Lourdes, uma 
senhora idosa, gorda, de cabelos desgrenhados, saiu  porta e se dirigiu a ela. Sentadas sobre um tronco de rvore sem vida, elas comearam a dialogar:
- E, filha, a vida  ruim e cheia de problemas para todos nos. Quando voc quis morar sozinha, no me intrometi, mas avisei dos perigos que ia passar, vivendo s 
com o Daniel. Seu corpo  belo de formas, e os brutamontes daqui so violentos. Todos os dias eu rezo para que no lhe acontea de novo o que houve com o Juvncio.
- Nem fale me. Nem eu, nem a senhora merecemos a vida que levamos. Depois de ter o Daniel foi que pude perceber o quanto preciso dar a ele uma vida melhor. No 
quero viver neste morro para sempre.
- No sonhe minha filha. Sabe que isso  impossvel. Quem nasce pobre, morre pobre. Siga os conselhos desta me velha que lhe fala. Tudo que queremos, no conseguimos. 
Veja o que aconteceu com seu pai. Morreu de doena ruim na boca, aquela ferida que no cicatrizava e aumentava a cada dia. Ningum veio nos ajudar, nem mesmo Deus 
se valeu por ns. s vezes duvido da sua existncia!
Nesse momento, um grupo de pessoas com sacolas nas mos subia vagarosamente o morro. Eram trs mulheres de meia-idade. Atrs delas, um carrinho de mo vinha empurrado 
por mais dois moos. Aproximaram-se das duas, e uma mulher questionou:
- Foi nesta rea da favela que houve um incndio ontem? Vimos pela televiso, mas no temos certeza da rua. As senhoras podem nos informar?
Clotilde levantou-se:
- O incndio foi na fileira de casas onde eu morava. Do meu barraco no sobrou nada. Mais de vinte casas foram destrudas pelo fogo. Se quiser, posso lhes mostrar.
- Aceitamos, sim. Fazemos parte da assistncia social do Centro Esprita Maria de Nazar e ontem, quando vimos o incndio, nos reunimos, juntamos alguns mantimentos 
e viemos para ajudar. Se as pessoas aceitarem, podemos nos reunir e ler o Evangelho. O que voc acha?
Lgrimas escorriam no rosto de Clotilde:
- Acho que todos vo aceitar. Somos muitos carentes e no estamos em condies de rejeitar nada. Nossos poucos mantimentos se consumiram junto com o fogo; foi terrvel!
- Eu me chamo Neide, e elas so Jane e Claudia. Os rapazes so Mrio e Lucas. Agora, vamos para a rua?
Lourdes, meio desconfiada, seguiu com eles para ver o que iria acontecer. Ao chegar ao local, todos perceberam que a situao era desoladora. Se Clotilde teve a 
casa da me para se abrigar, muitos outros vizinhos com filhos pequenos no tiveram abrigo e foram forados a dormir ali mesmo, pelo cho. Felizmente ningum morrera. 
Clotilde anunciou os visitantes:
- Esse  o pessoal do centro esprita que veio nos ajudar. Viram ontem pela tev o incndio e se apiedaram de ns. Quem aceitar a ajuda deve se aproximar.
Imediatamente todos vieram, uns chorando, outros agradecendo. Lucas perguntou se eles podiam ler um trecho do Evangelho segundo o Espiritismo e coment-lo. Todos 
aceitaram. Abrindo ao acaso, viu-se a seguinte mensagem: "O que  preciso entender por pobres de esprito". Aps l-la integralmente, Jane comeou o comentrio:
- Jesus nos disse que todos os pobres de esprito herdariam o reino dos cus. Vejam bem, ele disse os pobres de esprito, e no os pobres de dinheiro, o que  bem 
diferente.
Pobre de esprito  todo aquele que tem o corao pobre de orgulho, de vaidade e de egosmo. Ao contrrio do que se pensa pobre de esprito no  aquela pessoa sem 
cultura, sem dinheiro ou conhecimento, , sim, todo aquele que procura se empobrecer das iluses do mundo e se enriquecer dos ensinamentos de Deus. E continuou:
- Amigos, no pensem que Deus se alegra em v-los nessa situao infeliz. Ele  sumamente bom e justo; d a cada um de ns segundo nossas obras. Existem outras formas 
de aprendizagem para todos aqueles que vivem a pobreza fsica. Mas, para mudar o estado de coisas,  necessria a reformulao interior. Vocs devem tomar conhecimento 
de que podem e merecem a felicidade e a fartura, de que podem e merecem evoluir sem o sofrimento. Ao tomarem essa conscincia, suas vidas se modificaro. Jesus disse: 
"Todo aquele que cr em mim, ter vida, e vida em abundncia".
Uma mulher com o rosto marcado pelo sofrimento perguntou:
- Como podemos mudar esse estado de coisas, se no temos ajuda? O governo no cumpre seu papel, no temos ningum que se preocupe conosco. No concordo com o que 
a senhora diz. Acho que Deus est omisso e no consegue dar conta de ns.
Jane sorriu:
- Garanto que est equivocada. Nosso progresso no depende do governo ou de quem quer que seja; s depende de ns mesmos. A prosperidade  uma questo pessoal, e 
no uma questo social. Por isso no fazemos esse trabalho por assistencialismo. Vamos em busca de quem realmente precisa e quer se ajudar. Enquanto esperamos que 
os outros cuidem de ns com nosso egosmo, esquecemos que estamos na Terra para aprender a enfrentar a vida com coragem e buscar a melhoria. Todos, se quiserem, 
podero fazer isso. No foi Jesus mesmo que disse que "A f remove montanhas"?
Ouve um silncio geral. Jane prosseguiu:
- No queremos confundir vocs, pois cada um aqui tem sua crena e sua f, e no podemos impor nada a ningum; apenas queremos a felicidade de todos e acreditamos 
em Jesus e nos ensinamentos da espiritualidade. Se algo dito aqui os tocou, aproveitem. Que Deus fique com todos. 
Logo depois os farnis foram distribudos para as vtimas do incndio. Todos agradeceram  ajuda e o grupo avisou que voltaria mais tarde com roupas e outros utenslios. 
Vendo aquela expresso de carinho, Clotilde no conseguiu se conter:
- Como ainda existem pessoas boas no mundo, no , me?
-  verdade, mas so poucos. A maioria das pessoas so ruins e maldosas. Neste mundo onde vivemos s podemos esperar mesmo pelas coisas ruins.
- Credo, me. s vezes acho que as coisas ms que nos acontecem vm da senhora, sempre a agourar!
- No agouro nada, menina, apenas digo a verdade.
Clotilde no discutiu e seguiu com a me para o barraco. Colocou os mantimentos em cima da mesa e, de repente, uma onda de rancor a invadiu:
- Que misria ter de depender da caridade alheia. S aceito por causa de meu filho. Se no fosse por ele, no queria nada disso aqui.
Dona Lourdes se indignou:
- Voc deve  agradecer a Deus essa gente ter vindo aqui hoje. Esquece que depois que seu pai morreu o dinheiro das minhas lavagens de roupa no d para nada? Seus 
irmos pouco ajudam. Reze por esse povo que, mesmo fazendo parte de uma seita perigosa, veio aqui nos ajudar.
Clotilde calou-se e foi preparar o mingau. Um dia ela sairia dali e todos iam ver quem ela era de verdade.
Aps dar comida a Daniel, ela saiu a esmolar novamente. Passou o dia, mas recolheu pouca coisa.  noite, dividindo a cama tosca e malcheirosa com a me, ela adormeceu 
pensando em como deveria fazer para mudar de vida.

2 - UMA PROPOSTA DAS TREVAS 

Novamente, aps raiar o dia, Clotilde saiu pelas ruas de So Paulo caminhando lentamente com o filho a tiracolo. Passou por algumas casas, pediu esmola e foi seguindo. 
No final de uma bonita rua, nos Jardins, ela divisou uma senhora bem vestida sentada em um jardim muito verde e bem cuidado. Lia um livro, que parecia ser a Bblia, 
com muita ateno.
- Senhora, tem uma esmola para me dar, pelo amor de Deus?
A mulher olhou de soslaio para Clotilde e, de longe mesmo, respondeu:
- Passe aqui na sexta-feira. Hoje no  dia de esmola! - Dizendo isso, concertou os culos e voltou a ler.
Pelo esprito de Clotilde passou uma onda de raiva, e ela gritou:
- Ser que a senhora  to ruim a ponto de me negar uma msera esmola? Ento para que ler esse livro e ser religiosa, se a senhora no  capaz de um ato de caridade?
A mulher se levantou enraivecida e revidou:
- E essa agora! Uma pedinte ousando me desafiar. Saiba que de pobres miserveis j estou farta. Saia de minha calada antes que eu mande meu segurana coloc-la 
para fora. No confio em pessoas como voc.
- Quem a senhora  para falar assim? S porque  rica, pensa que  a dona do mundo? Eu a amaldio. Que a senhora termine os seus dias na pior das situaes e que, 
quando morrer v para o inferno!
As palavras de Clotilde, ditas com tanta energia negativa, fizeram vibrar de dio o esprito daquela mulher. Com dio, ela gritou:
- Ronaldo, Ronaldo, venha aqui agora!
De repente, um homem forte e de roupas escuras apareceu.
- Esta miservel ousou desafiar Augusta de Camargo e vai ter o que merece. D uma surra nela.
Clotilde tentou correr, mas o peso do filho e os passos rpidos do homem a fizeram ceder. Ele lhe puxou o filho, colocou-o no cho e a espancou. Depois se retirou 
e entrou pelos portes da suntuosa manso. Jogada no cho, Clotilde no sabia qual era a dor maior: se a moral ou a fsica. O certo  que naquele momento um dio 
surdo por tudo e por todos brotou de seu corao e ela chorou mais de raiva do que de tristeza. Pegando Daniel na calada, saiu se arrastando pela rua. Olhou a casa 
da senhora, que j estava longe e jurou em voz alta:
- Um dia voltarei para me vingar! Maldita seja essa mulher.
A partir de hoje ningum mais vai me maltratar. Eu  que maltratarei, pisarei, prejudicarei e farei mal a todos os que encontrar pela frente.
Olhou para Daniel, que sorria e disse:
- Filhinho, voc ainda ser muito rico, e vou ensin-lo a pisar, magoar e ferir as pessoas. Juro que ningum nunca vai humilhar voc.
Nesse instante, sombras escuras se aproximaram de Clotilde. Uma delas, que parecia a chefe do grupo, disse:
- Nosso trabalho foi perfeito! Essa j est ganha. Bastou um pouco de humilhao para ela ceder aos nossos impulsos e ainda vamos mais longe. Muita ateno: a segunda 
parte do plano e a mais importante est por vir. Vamos l.
Dizendo isso, o grupo de espritos das trevas desapareceu cho adentro.
Clotilde andou sem rumo durante horas e Daniel comeou a chorar. Percebeu que o filho estava com fome e providenciou a alimentao. Felizmente um senhor lhe cedeu 
um pouco de leite. Ao alimentar o filho, ela percebeu que agora era seu estmago que clamava por alimento. Sem ter o que comer, enfraquecida e humilhada, comeou 
a chorar sentada no meio-fio. Aps algum tempo, notou que uma mulher excessivamente arrumada e com roupas de cores berrantes a fitava como que a vasculhar seus mais 
ntimos pensamentos.
- O que a senhora quer? - perguntou Clotilde com raiva.
A mulher de seus sessenta anos, percebendo a fria em sua interlocutora, aquiesceu:
- Estava admirando voc. Uma moa to bonita, de formas to exuberantes, jogada em um cho como indigente. Voc no merece nem pode ficar assim.
Ao ouvir aquelas palavras Clotilde ficou feliz; pelo menos algum a valorizava.
-  isso o que sou: uma indigente, sem dinheiro, sem casa para morar com meu filho e sem comida. Como quer que eu esteja?
A mulher com muito traquejo sentou-se com ela e falou:
- Eu me chamo Aurlia, ou melhor, madame Aurlia, e quero ajud-la. Se aceitar minha proposta poder morar comigo, e ainda levar esse beb!
- Como? No entendi. Morar com a senhora? Mas com que inteno me faz essa proposta? No sou o que a senhora est pensando; no me interesso por mulheres.
Madame Aurlia sorriu:
- No  nada disso, sua bobinha. Vou lhe revelar a verdade: tenho um bordel num bairro afastado daqui, mas que  freqentado por homens da estirpe paulistana. Convivem 
comigo muitas moas que, assim como voc, estavam em situao difcil e l encontraram apoio. Hoje recebem muito dinheiro pelo que fazem. Ao observar seu corpo esbelto 
e seu rosto bonito, pensei logo: essa  a menina que faltava para completar minha coleo de moas e suprir a falta da Julieta, que se casou.
Clotilde estava admirada com tudo o que ouvia e no conteve a pergunta:
- Uma prostituta se casou?
Aps uma gargalhada, madame Aurlia respondeu:
- Isso mesmo.  raro, mas acontece. E com voc pode at acontecer o mesmo. Se aceitar, levo-a a um timo salo de beleza onde vai ficar mais bela e depois a ensino 
tudo sobre a profisso. Porm, tenho de lhe explicar um detalhe: voc tem de me dar garantias de que  maior de idade, e ter de dividir seus lucros comigo. No bordel 
entra muito dinheiro e  justo que eu fique com cinqenta por cento de tudo que voc faturar. Garanto que  muito dinheiro e que voc no vai se arrepender.
Enquanto Clotilde pensava, os espritos das trevas comearam a envolv-la:
- No v que madame Aurlia  a nica capaz de lhe tirar desse sufoco? Ningum at hoje a ajudou. Ao contrrio, todos a humilharam. Depois, como prostituta voc 
pode chegar a ser rica! Vamos logo, aceite!
Cedendo  proposta, ela respondeu:
- A senhora tem razo. Vou seguir seus conselhos. Ainda hoje levei uma surra, fui humilhada e jurei que nunca mais ningum ia me fazer Sofrer. Quero, sim, ser rica, 
e vou conseguir isso usando o sexo e os homens. Chega dessa vida ruim que s me faz sofrer. 
As duas se levantaram e seguiram trocando idias. Quem tivesse vidncia poderia enxergar um grupo de espritos deformados abraando as duas e lhes inspirando idias.
Num canto da rua, Diana e mais dois companheiros estavam atentos:
- Nunca pensei que ela fosse ceder to fcil  influncia das trevas.
- Infelizmente ela cedeu, e no pudemos interferir. Mais uma vez o livre-arbtrio nos impede a ao. As criaturas so livres para agir tanto como so para pensar.
Diana concordou:
- Infelizmente, o apelo para a comercializao do sexo est muito difundido na Terra. Os espritos das trevas tm conseguido muitos seguidores no mundo, e Clotilde 
vai errar mais uma vez. Vivendo em um bordel, ela estar se comprometendo ainda mais com as leis divinas e ter um penoso reajuste.
Um companheiro questionou:
- E madame Aurlia, vai continuar por sculos corrompendo conscincias?
- Assim ser, at que a dor venha visit-la. Toda pessoa que desrespeita o sexo, levando-o  comercializao, sofrer as conseqncias danosas desse ato. Infelizmente, 
na Terra isso vem acontecendo desde o princpio, sem que os homens aprendam  lio. Agora vamos, companheiros. Temos muito que fazer pela nossa irm Clotilde, afinal, 
como disse Jesus: "No so os sos que precisam de mdicos, e sim os doentes".
Dizendo isso, seus vultos radiosos desapareceram na direo do bordel onde Clotilde passaria a viver.

3 - ENTRE O BEM E O MAL

Madame Aurlia e Clotilde seguiram andando at um ponto de nibus e alguns minutos depois desceram em Higienpolis. Seguiram por uma rua residencial e, ao final 
dela, entraram numa manso do incio do sculo XX. Madame Aurlia esclareceu:
- Ganhei essa casa de um poltico influente assim que comecei "na vida". At hoje moro aqui e mantenho o estilo, apenas fazendo algumas reformas.
Clotilde estava maravilhada com a beleza da casa e do jardim. Seguiram por ele e entraram por uma pesada porta de madeira. Ao penetrarem em um grande recinto, houve 
uma agitao geral. As outras moas vieram para perto, umas admirando a beleza de Clotilde, outras questionando sobre ela e o beb  cafetina.
- Parem de amolao. Se querem saber, minha intuio estava certa. Hoje pela manh encontrei a substituta de Julieta; foi fcil e rpido.
Maria Jos, trabalhadora antiga da casa, inquiriu:
- Como  senhora a descobriu? Pensei que tivesse sado s compras, como sempre faz pela manh. A senhora, quando quer buscar uma moa nova, sempre procura  noite 
no sinal.
A cafetina pareceu meditar, sentou num sof e respondeu:
- No sei o que me deu hoje pela manh. Ao acordar tinha a certeza de que se sasse encontraria algum para o servio. No costumo acreditar nisso, mas parece que 
tinha algum do meu lado dizendo que eu deveria sair e que encontraria a pessoa que queria. Andei por horas sem rumo at que achei a Clotilde chorando, sem casa 
e sem comida. A sorte me mandou para o lugar certo.
Clotilde estava envergonhada. Desde j se sentia uma mercadoria; a maneira como aquela mulher falava dava a entender que ela no passava disso.
- Sente-se a, menina. Estas so suas colegas, e aquele ali  Floriano, nosso mordomo. Fique  vontade. Vou subir e preparar seu quarto.
As outras moas, com roupas sumrias e coloridas, aproximaram-se e comearam a fazer perguntas, s quais Clotilde respondia meio desnorteada. Ela estava muito admirada 
com o luxo daquele local; nunca entrara num lugar assim. Comeou a observar toda a decorao, as cortinas de um veludo cor de vinho, os mveis que pareciam ser do 
incio do sculo passado, o bar muito luxuoso e decorado com quadros de artistas famosos. Os tapetes vermelhos e as esttuas de pessoas nuas e fazendo sexo completavam 
o visual do ambiente. As moas foram saindo e ela chamou:
- Ei, voc, por favor, no me deixe s. Estou to desorientada!
Morgana se apiedou:
- Voc  to nova... Por que no escolhe outro tipo de vida?
-  que no tenho outra sada. Sou pobre, moro numa favela com minha me num barraco miservel, cansei de pedir esmola pela rua e ser humilhada. O encontro com madame 
Aurlia mudou minha vida. A partir de hoje quero ser outra pessoa. 
A colega se admirou:
- Nossa voc est decidida mesmo! Mas no se engane; a vida aqui no  fcil. Ao ver nossas colegas gargalhando e bebendo, achamos que tudo  muito bom, contudo 
a prostituio tem seu lado cruel.
- Estou disposta a enfrentar todas as conseqncias. Fico cada vez mais admirada... Pensei que esse tipo de bordel no existisse mais.
- Mas existe - explicou Morgana, que parecia estar na casa dos trinta anos. - Nem todas as prostitutas gostam e podem viver fazendo programas no sinal. Muitas so 
mortas pelos clientes ou envolvidas no trfico de drogas. Outras no conseguem se manter e preferem um lugar assim como o nosso.
Clotilde continuava curiosa:
- Vocs no tm problemas com a polcia?
- Madame Aurlia s admite que trabalhem com ela mulheres maiores de idade, e a Manso de Higienpolis, como aqui  chamada,  protegida por polticos influentes 
do governo, que inclusive so freqentadores assduos dos nossos servios. Esta casa tem proteo de muita gente grande.
Clotilde se sentiu segura e feliz. Ali realizaria seu sonho.
- Ento no vejo por que essa vida tem o lado ruim - comentou ela.
Morgana sorriu.
-  que voc est chegando agora. No sabe o que ter de enfrentar. Se o dinheiro  alto, os ossos do ofcio so, por vezes, repugnantes. Madame Aurlia exige que 
faamos sexo com qualquer cliente, sem distino, muitas vezes at mesmo com drogados, bbados ou homens violentos. Eles nos usam como querem; ter de ser forte 
e se acostumar.
Olhando para o beb ao seu lado no sof, Clotilde pensou: "Vou ser forte e suportar; para conseguir meu objetivo, farei de tudo". Madame Aurlia desceu as escadarias 
e chamou por Clotilde. Seguiram por um longo corredor, que tinha muitas portas. Na ltima,  esquerda, pararam. Ao entrarem no quarto, Clotilde ficou deslumbrada. 
Uma cama de casal coberta com luxuoso lenol vermelho, abajur, banheiro e janelas com cortinas seria o seu recanto.
-  aqui que voc passar a viver a partir de agora - explicou a velha senhora. - No costumo deixar que mulheres com crianas vivam aqui, mas voc  uma exceo. 
Sua beleza e seu corpo so raros de ser encontrados. Olhe sua barriga, nem parece que teve criana! Voc ser um sucesso aqui na casa. Mas vou logo avisando: no 
tolero arrependimentos, brigas entre colegas ou rejeio a clientes. Qualquer coisa que fizer de errado aqui, voltar para o olho da rua. Sou muito boa, mas perco 
a pacincia com ataques de conscincia, choro e lamentaes. Se quiser viver neste lugar, ter de seguir as normas da casa.
Clotilde ouvia tudo um pouco assustada. A mulher, com olhos penetrantes prosseguiu:
- A partir de hoje tambm no ter vida prpria. Sua vida pertence a esta casa. Primeiro vamos comear mudando o seu nome. Clotilde  um nome arcaico e feio. No 
combina com mulheres que devem dar prazer e alegria aos homens. De agora em diante se chamar Isabela. V almoar, pois  tarde sairemos s compras e ao cabeleireiro. 
Mudaremos esse corte horrvel e o pintaremos, de maneira a chamar a ateno. Seja rpida, tome um banho. Estou esperando por voc l embaixo.
Com a voz sumida pelo medo, Clotilde indagou:
- E meu filho, onde ficar nas horas de meu trabalho?
- Pacincia, tudo se resolve no tempo ideal.
Dizendo isso, saiu fechando a porta atrs de si. Clotilde caiu em um pranto convulsivo por mais de meia hora. Depois, ainda influenciada por espritos inferiores, 
concluiu que s havia para ela aquele caminho, e que agora no era hora para arrependimentos. Algum tempo depois, desceu, almoou, alimentou o filho e ao sair, deixou 
Daniel com uma de suas colegas. Pelo centro de So Paulo elas fizeram compras e foram ao salo de beleza. Mais tarde, quando chegou, Clotilde parecia outra pessoa. 
As amigas a felicitaram pela nova aparncia, que deixou algumas com inveja, tamanha era sua beleza.
- Como fao se meus parentes me procurarem?
A severa mulher foi taxativa:
- Esqueci de lhe dizer que, enquanto viver na Manso de Higienpolis, no ter mais famlia. Est proibida de procur-los e se for encontrada, dever livrar-se deles 
o mais rpido possvel. Em seu caso acho difcil encontrarem voc, pois, vivendo naquela misria, dificilmente chegaro at aqui.
A noite chegou e, j no quarto, madame Aurlia lhe explicou:
- Hoje voc ficar aqui quieta, sem aparecer. Daqui a pouco o grande salo ser aberto e voc ouvir muita msica, gargalhadas e gritos. No se assuste; so suas 
colegas no trabalho. Sua estria ser amanh. Faremos uma festa especial para voc. Haver um leilo: quem pagar mais vai estrear a nova trabalhadora da casa.
Clotilde ainda estava chocada com tudo aquilo, no entanto tinha de prosseguir. Do ponto onde estava jamais olharia para trs. Aquela vida pobre e miservel que levava 
morrera naquele dia. No queria mais saber da me, aquela velha agourenta, nem de seus irmos, pobres e sem emprego. Mesmo com toda a algazarra formada no salo, 
Clotilde conseguiu dormir. Em poucos minutos estava fora do corpo. Viu trs homens com roupas escuras, cabelos desgrenhados e semblantes perversos se aproximar:
- Parabns, est fazendo tudo certo. Continue assim; voc conseguir tudo o que deseja.
- Quem so vocs? - perguntou assustada.
- Somos seus amigos. Estamos lhe inspirando as idias e as aes. No tem se sentido forte ultimamente para decidir as coisas? Pois , somos ns.
O esprito Diana tambm apareceu. Reduzindo a sua vibrao, ela pde ser vista por todos eles. Clotilde correu e abraou-a:
- Minha amiga, voc continua ainda do meu lado? Mesmo com a vida que estou querendo levar? Veja aqueles ali so meus amigos.
Diana, com semblante sereno, olhou-a sria enquanto falou:
- Clotilde, pense muito no que vai fazer para no se comprometer ainda mais. Essa vida que pretende iniciar s vai lev-la ao caminho do sofrimento. Esqueceu o que 
j fez no passado, voc e Davi? Ainda d tempo. Ns a aconselhamos a romper esse lao com essas pessoas e voltar para a casa de sua me. L a intuiremos e voc conseguir 
melhorar de vida honestamente.
- No posso; infelizmente no posso. Quero ser rica, famosa, para poder humilhar e ferir aquela mulher horrvel que me ofendeu e a todos que encontrar no caminho. 
S conseguirei isso aqui, com essas pessoas. No v que na favela nada conseguirei, a no ser pedir esmola?
Diana no se deu por vencida:
- Voc pensa assim, pois est dando vazo s iluses do mundo. Dinheiro e fama s so bons quando os conseguimos pelos caminhos do bem. Quem procura a riqueza e 
o status por meios negativos e reprovveis, por meio do roubo ou da vida fcil na prostituio, apesar de o conseguirem, nunca sero felizes. As leis de Deus cobraro, 
centavo por centavo, tudo que foi conseguido de forma desonesta. E, em seu caso, haver a agravante da prostituio. Toda pessoa que se utiliza desse meio para subir 
na vida ter um retorno doloroso no futuro. Poder nascer pobre mais uma vez e ter os rgos gensicos deformados, alm de ter como companhias os obsessores que 
a induziram por esse caminho. Pense bem antes de decidir.
Os espritos, que ouviam tudo e estavam sentindo que podiam perder a chance de influenciar Clotilde, tomaram a frente:
- No pense assim, amiga. No v que essa a s quer o seu mal? Em poucos anos nesta casa voc vai conseguir tudo o que quer; at um marido estamos providenciando 
para voc. Analise bem... Estando do nosso lado, nunca estar desamparada e ainda vai conseguir se vingar de todos que a molestaram, at mesmo daquela mulher.
Clotilde ficou em dvida:
- Mas... E se me acontecer tudo aquilo que Diana falou? Ela  minha amiga, estudei muito com ela. Eu j sabia que a tentao da vida fcil ia aparecer na minha jornada. 
Julgava estar forte para resistir, mas parece que vou sucumbir. Posso ser punida severamente por Deus.
O esprito gargalhou:
- Voc acredita mesmo nisso? Esse papo no resolve nada! Vemos pessoas do bem a todo instante sofrer maldades e receber desgraas, enquanto ns, os chamados ruins, 
prevalecemos vitoriosos e com sorte. Qual caminho vai escolher?
Diana fez sua ltima tentativa:
- No  bem assim como ele disse. Quem  realmente bom sempre recebe o bem porque a lei  justa. As pessoas que chamamos "boazinhas" e que sofrem esto passando 
por provaes por no estarem dando o melhor que podem dentro do nvel de evoluo delas. Alardeiam o bem e o fazem realmente ao semelhante, mas deixam de faz-lo 
a si prprias. No desenvolvem a conscincia, no procuram ter f nem cultivam bons pensa mentos; s pensam em amar os outros sem amar a si mesmas. A felicidade 
s acontece quando abrimos  conscincia e usamos nosso potencial a nosso favor. Jesus nos disse: "Amai o prximo como a ti mesmo". Infelizmente, muitas pessoas 
se esquecem do "ti mesmo".
A amiga espiritual de Clotilde tomou novo flego, e completou:
- Quanto aos maldosos que esto vivendo bem,  bom que eles se prepararem, pois a vitria do mal  apenas momentnea. Deus realmente no pune ningum, todavia chegar 
 hora do acerto de contas com a prpria conscincia, e  possvel que sofram bastante at se voltarem novamente ao bem, reparando todos os delitos cometidos ou, 
o que  pior: expiando. No se trata de castigo divino, e sim do retorno natural de suas aes.
Clotilde pensou um pouco e decidiu:
- No adianta tentar me iludir. Cansei das iluses de que o bem sempre vence e de que Deus a tudo prove. Vou cuidar de minha vida e no quero mais saber de suas 
interferncias. Sou grata por tudo que me fez, mas, se for para ficar me cobrando agora, prefiro no v-la mais.
Ao ouvir aquela frase, Diana desistiu e desapareceu, indo em busca de seus companheiros.
-  amigos - comentou Diana, ao encontr-los -, mais uma vez Clotilde preferiu entrar pela porta larga que conduz  perdio. Entretanto, estaremos atentos. Qualquer 
sinal de mudana voltaremos para ajud-la.
Deixaram aquele lugar onde espritos inferiores aproveitavam as paixes que escravizam os homens e foram se recolher  colnia Campo da Redeno, onde trabalhavam 
e viviam.

4 - A PRIMEIRA VTIMA

Fazia um ano que Isabela se encontrava na Manso de Higienpolis. Desde o dia de sua estria no bordel, tivera de suportar todo tipo de humilhao e improprios. 
Ela procurava agentar tudo calada, deixando os homens livres para fazer com ela o que quisessem como tinha ensinado madame Aurlia. Mas seu ntimo estava repleto 
de dio e rancor. Assim como ela agradecia a Deus seu filho estar alimentado e bem, tambm odiava todos, principalmente a mercenria cafetina. Um dia ela se vingaria 
dela tambm e poderia lhe mostrar, ento, o quanto era forte. Nunca mais tivera notcias da me nem dos irmos. Sempre que pensava neles, uma onda de rancor a invadia. 
Julgava-os fracos e sem capacidade. A noite estava bonita e a brisa do outono entrava pelas grandes janelas da manso. Isabela estava no quarto contguo ao seu, 
onde ficava Daniel, e o alimentava quando Morgana entrou.
- Isabela,  bom se apressar, pois madame Aurlia quer todas ns no grande salo. Tem algo de muito importante a nos comunicar.
- O que  que ela quer desta vez? Explorar-nos ainda mais?
A outra, com ar preocupado, sentou ao lado dela.
- Voc sabe que sou sua amiga e quero o seu bem - comeou Morgana. - Por isso vou lhe avisar: no abuse da bondade da madame; outro dia eu a ouvi dizer que voc 
 muito dada a chiliques e quer ser melhor que as outras. Disse tambm que s no a coloca no olho da rua porque  muito bonita e d muito lucro a casa. Mas lhe 
digo para no abusar. A Oflia era assim, at o dia em que a madame no agentou e tocou ela daqui.
Isabela sentiu muita raiva. Quem aquela madamezinha pensava que era?
- Digo-lhe, Morgana: um dia ainda serei rica e vou sair desse inferno. Nesse dia vou me vingar de todos os que me humilharam principalmente de dona Aurlia. Eu juro 
amiga! E, se voc quiser, a levarei junto.
A outra, com sorriso triste, redargiu:
- Isso  muito difcil de acontecer. No entanto, se voc um dia melhorar de vida, lembre-se da amiga aqui. Agora vamos descer que a chefe nos espera e no gosta 
de atrasos.
No salo as outras j estavam sentadas, esperando o incio da reunio. Madame Aurlia, tragando elegante cigarro e bebericando um vinho seco, comeou:
- Hoje teremos uma visita muito importante em nossa casa. Trata-se de um cavalheiro que nunca veio aqui e nos visitar pela primeira vez.  um importante senador, 
brao direito do nosso governo. Quero que vocs todas estejam bonitas, da ponta da unha at o ltimo fio de cabelo. Ele vai escolher uma de vocs para passar a noite 
de graa, e nenhuma poder se recusar.
Isabela protestou:
- Por que de graa? Isso nunca aconteceu antes! Se me escolher, eu no vou!
- No brinque garota. Esse homem  importante, amigo de um protetor nosso, e lhe devemos esse presente. Caso ele escolha voc, ter de ir ou ento ser mandada para 
o olho da rua. H muito tempo venho estando engasgada com suas gracinhas aqui. A prostituio  trabalho como qualquer outro e deve-se fazer vontades e agrados ao 
fregus. E, como toda boa empresa, aqui tambm tem seus brindes, por isso uma de vocs ser o brinde da noite. Agora subam e se arrumem, pois quero todas impecveis.
As moas subiram insatisfeitas. No gostavam de trabalhar de graa; nenhuma delas queria ser a escolhida. Finalmente  hora chegou. A casa cheia, anunciando animao, 
estava  espera do misterioso homem. De forma discreta, ele entrou acompanhado de outros amigos j freqentadores do lugar. Aps cumprimentar a dona, sentou-se e 
pediu uma bebida forte. Num lugar do umbral, um grupo de espritos se reunia. Um deles dizia:
- A hora chegou, precisamos ir para l!
- Alm do que, estamos ansiosos pelas vibraes do sexo que podemos obter naquele paraso.
O que parecia ser o chefe se pronunciou:
- Podem vampirizar  vontade, porm no se esqueam da importante misso que tm l. Devem influenciar o senador Humberto para que ele escolha a Clotilde. Ela precisa 
fazer o que ns desejamos.
- Isso mesmo! Ela  um fantoche em nossas mos; certamente vamos conseguir.
Dizendo isso, as sombras escuras desapareceram, indo em direo do local.
Madame Aurlia fez uma espcie de desfile no qual uma a uma s mulheres eram apresentadas. De repente, as sombras chegaram ao ambiente e cumprimentaram outros espritos 
que j se encontravam no local, todos buscando o prazer do sexo de forma ilcita e sempre o conseguindo junto queles que no possuem vivncia no verdadeiro bem.
Romrio, que comandava a expedio, explicou:
- Vejam como  fcil obrigar as pessoas a fazer nossas vontades. Madame Aurlia foi, no sculo passado, uma famosa cafetina nordestina. Comandava com mos de ferro 
um bordel que ficou famoso naquelas paragens. Conseguia com uma feiticeira uma beberagem que impedia suas meninas de engravidar e, caso alguma delas "pegasse barriga", 
como assim ela dizia, a levava a uma mulher experiente para fazer aborto. Essa mulher que vocs vem a foi responsvel por mais de cem abortos praticados no ambiente 
onde trabalhava fora os outros incontveis que fez em si mesma. No sabemos por que, mas desencarnou naquele tempo com um terrvel cncer no tero que a devorou 
em seis meses. Ficou no umbral sofrendo como se ainda estivesse com a doena durante largo perodo. Depois que foi resgatada pelos servos do Cordeiro, nunca mais 
ouvimos falar dela, at que um dia a encontramos pelo pensamento em uma situao difcil. A me tinha morrido e ela era arrimo de seis irmos menores. Sem ter dinheiro 
e sem trabalho, entrou em desespero. Da foi fcil sugerirmos que retornasse  antiga profisso que exerceu no passado. E agora vocs podem ver o resultado.
Os espritos gargalharam e se dirigiram ao alvo da noite: o senador Humberto Aguiar. Sentado  mesa com um copo de forte bebida entre as mos, o senador esperava 
com ansiedade a hora de escolher sua preferida. Ele era um homem de meia-idade, moreno claro, com um bigode devidamente aparado, meio calvo, mas muito bonito. 

Apesar de parecer contraditrio Romrio dizer que no sabia por que madame Aurlia havia desencarnado com cncer no tero, uma vez que tinha provocado tantos abortos 
em si mesma e em outras de suas meninas, o motivo parece muito claro. Devemos ter em vista que a tica  a de Romrio, que no tinha esclarecimento suficiente para 
entender as leis divinas. (N. do E.)

Qualquer uma das mulheres dali se daria por feliz ao passar uma noite com ele, desde que fosse regiamente recompensada. Porm, de graa, nenhuma estava disposta. 
Madame Aurlia, microfone  mo, iniciou a homenagem dizendo palavras belas ao senador que tanto contribua com o governo e o deixou  vontade para escolher sua 
parceira da noite. Humberto, num gesto muito seu, colocou a mo direita no queixo e perpassou o olhar em cada uma delas minuciosamente. Estava difcil escolher. 
Realmente seus amigos tinham razo. Madame Aurlia s trabalhava com mulheres de primeira. Como escolher a melhor? Romrio, atento, percebeu que era o momento exato 
de agir e, lanando um olhar que logo foi compreendido pelos seus companheiros, iniciou a operao. Eles se abraaram ao senador e comearam a sugerir frases:
- Escolha a Isabela! No v que ela  a melhor? - dizia um.
- A sua dever ser aquela do costume azul; no a deixe escapar. Voc aqui  rei, pode tudo - outro dizia.
- Com Isabela voc ter a noite inesquecvel com a qual sempre sonhou - vociferava o outro.
Sem perceber que estava sendo envolvido por espritos perversos, cujas intenes ele estava longe de saber, Humberto de repente sentiu-se magnetizado pelo olhar 
e pelo corpo da mulher do vestido azul. Fez meno de olhar as outras na tentativa de encontrar alguma mais interessante, mas no conseguia. Estranha fora o prendia 
ao semblante de Isabela. Com rapidez, decidiu: seria a que estava na ponta da fila. Com um gesto ele fez a sua escolha. Isabela tremeu; isso no poderia estar acontecendo 
com ela.
- Isabela, desa! - ordenou a madame. - Acompanhe o senhor Humberto ao seu quarto. Voc foi  escolhida, parabns!
Palmas e gargalhadas cortaram o ar.  O olhar de Aurlia j dizia por si mesmo que, se ela no obedecesse, no escaparia do olho da rua. Isabela ainda tentou enfrent-la, 
todavia, ao lembrar que Daniel poderia ficar mais uma vez sem teto ou comida, resolveu aquiescer. A festa continuou no grande salo enquanto ela e Humberto foram 
para o quarto. Daniel ficava sempre aos cuidados de uma empregada que no exercia a funo de prostituta enquanto a me trabalhava. Uma vez no quarto, Isabela se 
entregou quele homem que sequer iria pag-la com muita repugnncia. Quando tudo acabou, o esprito de Romrio sussurrou ao seu ouvido:
- Esse  o homem que voc esperava. Nele est sua chance de mudar de vida! Aproveite!
De repente um pensamento a acometeu: "Quem sabe esse homem no pode me tirar da misria?". Fumando um elegante charuto, ele parecia estar distante. Tomando coragem, 
numa atitude incomum s prostitutas profissionais, ela tentou:
- O senhor mora em Braslia mesmo?
Ele, parecendo no ter se importado com a pergunta, respondeu:
- Praticamente sim. L tenho um belo apartamento onde passo a maioria dos dias da semana. Aqui em So Paulo tenho uma bela casa onde ficam minha esposa e minha filha. 
Venho sempre que posso.
- O senhor  casado h muito tempo?
- Sim, h mais de trinta anos. Constru uma famlia slida, embora marcada por tragdias. Perdi dois filhos num acidente de carro e minha esposa vive doente.
Influenciada pelos espritos das trevas, subitamente ela pensou: "Esse homem ainda ser meu. Vou tir-lo dessa mulher doente e serei, assim, a esposa dele". O senador 
parecia estar apreciando a conversa, pois em hora nenhuma se ops s perguntas dela. Isso no era algo comum de ele fazer com mulheres desse tipo. Mal sabia que 
agia assim pela influncia de espritos ainda atrasados que estavam no local. Toda pessoa que busca o prazer do sexo de forma comercial est sujeita  invaso de 
espritos inferiores. O senador Humberto Costa de Aguiar era visado pelo astral inferior fazia anos. Mas s depois de vrias tentativas tinham conseguido influenci-lo. 
E  hora havia chegado; bastava Isabela fazer o que eles desejavam. Isabela deu sua cartada:
- Gostaria de v-lo mais vezes. Ser sempre de graa,  porque  para voc...
Vestindo-se, ele respondeu:
- Voltarei outras vezes, sim.
Deu um beijo no rosto dela e saiu fechando a porta atrs de si. Desceu. O salo havia se aquietado e apenas uma msica romntica embalava alguns casais que ainda 
conversavam na penumbra. Muito contente, madame Aurlia aproximou-se do senador:
- Tenho certeza de que gostou senador. Isabela  uma das minhas melhores meninas!
- Com certeza  a melhor. A partir de hoje quero que ela seja exclusivamente minha. Pagarei por isso; basta me dizer a quantia.
Pelo semblante de Aurlia passou um vislumbre voraz de ambio.
- Gostaria que o senhor soubesse que no vai custar barato. Infelizmente, temos de nos manter. E, pela estrutura da casa, o senhor pde perceber que gastamos muito, 
principalmente para oferecer o que h de melhor a pessoas como o senhor, por exemplo.
Ele se sentou prximo ao balco e pediu uma bebida, a qual Aurlia serviu com prazer. Como era bom fazer um negcio de vulto como aquele! Fumando outro charuto que, 
pela marca, Aurlia percebeu ser importado, ele confessou:
- Usei a Isabela hoje sem pagar, o que me deixou meio constrangido. No  de meu feitio usar essas mulheres sem dar nada em troca. Aceitei por insistncia de amigos. 
Mas, a partir de hoje, ela ser s minha. Faa os clculos que eu pago.
Com muita satisfao, aquela mulher, acostumada a vender o corpo das pessoas, calculou tudo muito rpido e mostrou a quantia ao senador. Cocando o bigode ele afirmou:
- Nossa no pensei que ela fosse to cara! Porm, tenho de concordar que  realmente esse o valor que ela tem.
Assinou o cheque, pegou o palet e saiu sem esperar os amigos. Dentro do carro, o senador ficou pensando nos intensos momentos de prazer que vivenciara ao lado daquela 
jovem mulher e jurou para si mesmo que jamais a perderia. Ele no poderia ver a quantidade de espritos que o rodeavam. Do teto do carro aos bancos, espritos viciados 
em bebida e sexo estavam em contato com aquele homem que se imaginava sozinho. Em processo de vampirismo, essas entidades retiravam dele o fluido vital e com isso 
encurtavam, e muito, o nmero de anos de sua presente encarnao. Era a primeira vtima de Isabela e seus comparsas desencarnados na presente existncia. Ela, que 
reencarnara para progredir e crescer com o prprio esforo, condio que sempre exige mudanas de atitudes e pensamentos, estava preferindo a porta larga, que, como 
disse Jesus, sempre nos conduz  perdio.

5 - UMA VIDA DESTRUDA

O carro ltimo modelo parou em frente de um majestoso porto de ferro. Humberto, com o controle remoto abriu o porto e, aps colocar o veculo na garagem, entrou 
na elegante vivenda. Construda em bairro luxuoso de So Paulo, aquela casa causaria inveja a qualquer pessoa, mesmo as da mesma classe do senador. Tudo ali fora 
cuidadosamente escolhido por Flaviana de Camargo Aguiar quando, no auge da sua felicidade afetiva, se casara com o homem amado. Naquela poca, quando ele ainda no 
tencionava seguir carreira poltica, tudo era diferente. Amoroso e apaixonado, ele a cortejara at conseguir sua mo em casamento. No fora fcil. Humberto era ainda 
muito novo e vinha de uma famlia que, apesar de ter algumas posses, no era rica. Ele sempre tinha sido muito ambicioso e jamais se casaria com uma mulher que fosse 
pobre ou tivesse patrimnio igual ao seu. Ele queria mais, tencionava ser milionrio, e s fazendo um casamento de convenincia com uma moa da alta sociedade  
que iria conseguir. Era incio dos anos 1970 e a revoluo sexual havia transformado o comportamento e o carter de muitas moas naquela poca. Para Humberto, encontrar 
uma  altura dos seus sonhos estava praticamente impossvel. Mas a vida, quando quer pr um esprito  prova, que ele mesmo atrai com o prprio comportamento, faz 
surgir oportunidades de onde menos se espera: eis que, no baile de sua formatura, onde se tornara bacharel em Direito, Humberto conhece Flaviana. Do primeiro encontro 
ao casamento foi menos de um ano. Os pais dela, o senhor Hiplito e dona Augusta, haviam sido educados de forma austera e sempre condicionados ao pensamento de que 
as classes no deviam nem podiam ser misturadas. Porm, a paixo da filha nica pelo recm-formado Humberto aos poucos foi minando a resistncia dos pais, que acabaram 
por concordar. Humberto fez o papel de moo apaixonado quando, na realidade, s queria mesmo era ascenso social e financeira, esta ltima principalmente. Agradavam-lhe 
as formas do corpo e o rosto angelical de Flaviana, mas amor mesmo ele no tinha por ela. Foi um casamento sem amor, portanto, fadado ao fracasso. Flaviana, como 
a maioria das mulheres, teve uma educao equivocada. Fantasiava o homem perfeito, que iria aparecer e lhe fazer todas as vontades. O mimo a fez achar que Humberto 
era o prncipe que a vida lhe mandara. Iludida com o sonho de amor, ela atraiu para sua vida justamente o homem que iria, por intermdio da desiluso e da dor, faz-la 
amadurecer. Aps as pompas da cerimnia e a rica lua-de-mel, comeou para eles o tempo da convivncia. Depois dos primeiros anos, a paixo que ele demonstrava esfriou. 
Vieram os dois primeiros filhos, a rotina entediante, at que, logo aps o fim do regime militar, Humberto interessou-se pela poltica. Filiou-se a um partido que 
estava surgindo com muita fora naquele momento e, anos depois, at se candidatou  vice-presidncia do pas, mas foi derrotado. Conseguindo o cargo de senador, 
deixou para sempre de advogar, tarefa que exercia com bastante enfado. Entrou na sala excessivamente luxuosa e tudo estava s escuras. Naquele momento pensou no 
quanto era infeliz. Patrcia havia nascido em meio s brigas e confuses de um matrimnio j fracassado. O senhor Hiplito, percebendo que a filha fora enganada, 
praticamente cortou relaes com o casal, principalmente aps saber das aventuras sexuais do genro. Humberto subiu e com desgosto foi para o quarto de hspedes em 
que dormia. Comeou a relembrar a tristeza e a dor de ter perdido Marcos e Alfredo, seus filhos queridos e que seriam seus continuadores na carreira poltica. No 
desastre apenas ele se salvara. Comeou a chorar de emoo. Apesar de tudo, ainda lhe restava Patrcia, que era seu anjo bom. S por ela  que no abandonava para 
sempre aquela casa triste e sombria, apesar de rica e composta com tudo que h no mundo moderno. Poucos anos depois do nascimento de Patrcia, estranhos sintomas 
acometeram sua mulher. Ela comeou a ter nuseas e vmitos freqentes, manchas arroxeadas comearam a surgir junto com um forte prurido, mas os mdicos no conseguiam 
diagnosticar a doena. At que ela comeou a urinar mais que o normal e sempre que o fazia era com muita dor e sangramento. Quando foi descoberta a insuficincia 
renal, ela j estava com mais de noventa por cento dos rins comprometidos. Os mdicos afirmaram que s o tratamento com hemodilise poderia lhe dar algum tempo a 
mais de vida, pois um transplante naquele momento seria arriscado e at fatal, alm do que teriam de enfrentar a fila de espera, mesmo sendo ricos. Foi uma bomba 
que caiu sobre aquela famlia. Desesperada, dona Augusta, j viva havia alguns anos, exigiu que o tratamento fosse feito em casa. Eles conseguiram os aparelhos 
e montaram uma verdadeira clnica no prprio quarto do casal. Humberto, a partir daquele momento, sempre tinha de contar com a presena desagradvel da sogra em 
sua casa. Olhar rancoroso, ela conversava com ele somente o necessrio. Fazia dois anos que sua mulher estava gravemente enferma. Humberto chorava copiosamente sua 
desdita. Perdera os filhos, a riqueza no o tornara to feliz quanto imaginara e sentia um imenso vazio dentro do peito. S mesmo na poltica e no sexo encontrava 
algum prazer. Mas, ultimamente, toda vez que podia fugia das reunies do Senado. Estava perdendo o gosto pela vida. S agora, ao encontrar Isabela,  que tinha vislumbrado 
uma nova luz em seu caminho. Sem que ele pudesse ver, seus filhos desencarnados estavam ali a velar por ele. Marcos e Alfredo, espritos bons, logo compreenderam 
como atraram aquelas mortes por acidente e trataram de procurar auxiliar o prximo na colnia onde viviam. Trabalhavam bastante, porm sem se desligar um instante 
sequer da famlia que os recebera com tanto amor na Terra. Ao perceberem a doena da me, prontamente foram buscar explicaes com um dos instrutores da cidade em 
que viviam. Foram recebidos com cordialidade por Alexandre.
- Vieram saber sobre o estado de Flaviana. Fui informado de que est desenvolvendo uma doena terminal.
Marcos, olhos marejados, redargiu:
- Isso mesmo. No conseguimos entender por que aquela que foi nossa me na Terra tem de passar por semelhante sofrimento. Gostaramos de ajudar.
- A doena da me de vocs no poder ser curada na presente encarnao. Tentem se conformar para poderem ajudar. Adoecer junto com ela no ser o melhor remdio.
- Por qu? - foi  pergunta aflita de Alfredo.
- Todas as doenas que acontecem aos encarnados surgem pela maneira equivocada com que esto guiando suas vidas. O corpo de carne  uma espcie de vlvula que absorve 
as energias doentias produzidas pelo pensamento humano e as extravasa em forma de doenas. No caso da sua me, ela se encontra escrava da hemodilise porque foi 
escrava a vida inteira das prprias iluses. Ter de modificar a forma de pensar para encontrar a paz e o equilbrio. No entanto, isso no acontecer na Terra; s 
vai se dar depois do desencarne.
- Notamos que a nossa me estava muito infeliz, mas ela no se iludiu. Quando percebeu quem nosso pai era de verdade, acordou para a vida e procurou viver da melhor 
maneira possvel.
Alexandre explicou:
- Engana-se. Sua me trocou de iluso. Se antes o que a dominava era o sonho de amor, agora ela vive na esperana de que Humberto mude de comportamento e ainda seja 
o que ela espera. Sua me alimenta o desejo de transform-lo. Triste situao. Infelizmente, a doena  a forma que a vida encontrou de levar ao seu esprito a cura 
por que ela tanto anseia.  necessrio, acreditem. Se ela no precisasse passar por semelhante situao, a bondade divina no iria permitir.
Conformados, eles saram, e a partir daquele instante procuravam ajudar no que fosse necessrio no intuito de diminuir as dores da me. Era com tristeza que viam 
o pai mergulhar nos meandros da corrupo e do sexo irresponsvel, mas nada podiam fazer a no ser rezar e ter pacincia. Humberto chorou durante um tempo, porm 
lembrou-se da filha, Patrcia, o nico bem que lhe restara na vida. Como ela era bela e inteligente! J estava com dezoito anos e havia terminado o colegial. Pensava 
em prestar vestibular e ser psicloga. Humberto sabia que ela conseguiria. Era muito interessada pela vida e pelos estudos. Naquele instante, lembrou-se das conversas 
longas que tinha com ela e de como admirava sua sabedoria. Apesar da idade, ela tinha muitas idias que desafiavam o raciocnio comum e s vezes fazia com que ele 
se sentisse melhor. Pensando na filha, adormeceu. Pela manh, j devidamente barbeado, desceu. Tinha acordado bastante cedo, apesar de ter dormido tarde. Encontrou 
Patrcia  mesa, tomando caf.
- Bom dia, papai! Como  bom t-lo em casa. Est ficando cada vez mais rara sua presena aqui. - Levantou-se e deu um beijo na testa dele.
Enquanto Eullia, a criada, o servia, ele comentou:
- Esta casa sempre me traz recordaes tristes. A lembrana dos seus irmos, dos tempos de felicidade que vivi ao lado de sua me, tudo isso me machuca muito.
- Sabe papai, h alguns meses tenho freqentado um lugar muito bom, onde tenho aprendido vrias coisas a respeito da vida. Sempre que vou l me sinto bem. E um centro 
de estudos espirituais. Gostaria muito que o senhor fosse l um dia comigo.
Ele, meio desinteressado, perguntou:
- E o que se aprende l? Pelo visto,  um centro religioso.
- L, eles ensinam que o sofrimento  um estado antinatural, que nascemos para ser felizes e que a perfeio total  nosso destino. Mas no tem nada a ver com religio. 
Eles afirmam que as religies vo acabar e trabalham com eles muitos terapeutas e mdiuns que, com o auxlio de espritos bons e evoludos, nos ajudam a viver melhor.
Ele fez um ar azedo:
- S podia ser mesmo o espiritismo. Quero que saiba que aqui nunca ensinamos religio a ningum, cada um sempre foi livre para seguir o que quisesse, mas no me 
obrigue a ouvir coisas que vm de pessoas simplrias e supersticiosas. Muito me admira voc, sempre to inteligente, ter cado em uma dessas.
Ela continuou sem se importar:
- Eles trabalham como espiritualistas independentes, mas tm bases no espiritismo codificado por Allan Kardec. Vendo o senhor sempre to triste, observando a doena 
horrvel da mame e os fatos trgicos que aconteceram com meus irmos, sempre me perguntei o porqu, e nunca encontrei respostas. Hoje, com o pessoal do centro, 
tenho descoberto coisas incrveis e sei que tudo est certo da maneira como est. Eles me deram O Livro dos Espritos para ler e com ele estou descobrindo at o 
prprio Deus. No  fabuloso, papai? 
Coando o bigode, Humberto replicou:
- Sei no... Tenho medo de que eles coloquem em sua cabea que seus irmos morreram e sua me est sofrendo porque esto pagando dbitos de vidas passadas. Conheo 
pessoas espritas que depois que abraaram essa doutrina se tornaram conformistas e estagnadas, aceitando tudo sem reagir. No quero que voc pense assim.
-  a que est o engano, papai. A interpretao errada de alguns deu a essa sublime doutrina uma conotao conformista. Tenho aprendido que no existe fatalidade 
e que noventa por cento dos nossos sofrimentos no vm de vidas passadas, e sim de escolhas atuais. S quando nascemos com defeitos fsicos, em estados calamitosos 
de pobreza e doena, ou numa famlia problemtica  que estamos recolhendo o que fizemos no passado. Quanto ao resto, corre por conta do nosso modo inadequado de 
pensar e encarar a vida. Creia papai, o sofrimento pode e deve ser evitado. Chegou  hora de a humanidade se libertar de vez da dor. No acha que tenho razo?
Tomando vagarosamente seu caf, Humberto se perguntava de onde a filha tirava tantas idias, que por vezes o confundiam.
- Ento, como explicar o sofrimento de sua me, uma mulher to boa e prestativa? No consigo entender. Se voc perguntar a um esprita, por exemplo, ele dir que 
 um resgate.
- Nada disso. Conversei com a Slvia, uma das terapeutas, sobre o problema de mame, e ela me disse que os problemas de sade so o resultado de atitudes equivocadas 
da pessoa na presente encarnao. Nos casos de problemas renais, a causa est na escravido que a pessoa vive consigo mesma. Espera tudo dos outros e tem dificuldades 
no relacionamento afetivo. So pessoas que criam  imagem do amor ideal e, quando se decepcionam, ficam com muito dio, achando que tudo est perdido. Elas, ento, 
desistem de viver, atraindo para si a molstia nos rins.
Humberto remexeu-se na cadeira. Realmente Flaviana havia se decepcionado bastante com ele. Com certeza ela descobrira que o casamento s fora uma convenincia. Resolveu 
parar com aquela conversa; no desejava se sentir culpado. Eullia desceu a escadaria com uma bandeja praticamente intacta nas mos. Aproximou-se da mesa:
- Sr. Humberto, dona Flaviana o chama. Disse que quer lhe falar antes que saia.
- Como est ela hoje, Eullia?
- Um pouco pior. Est depressiva, quase no quis comer.
Deixando a filha na sala, ele foi ter com ela. Ao entrar no quarto, uma sensao de tristeza muito grande o invadiu. Aqueles aparelhos horrveis filtrando o sangue 
praticamente o tempo inteiro davam uma impresso soturna ao ambiente. Na cama ricamente arrumada, Flaviana se encontrava com os olhos perdidos num ponto indefinido. 
Em quase nada lembrava aquela moa jovem e bonita que um dia havia se casado com Humberto. 
- Sente a!  disse ela com voz fraca.
Ele obedeceu.
- Sei que voc nunca me amou. Percebo como era ingnua quando achei que voc era o homem perfeito que idealizei. Tarde demais; minha vida est destruda.
Ele pegou nas mos dela e o remorso o fez derramar algumas lgrimas.
- No diga isso. Voc  jovem. Sua vida no est destruda, voc vai se recuperar e voltar a ser o que era antes. Lembre-se de Patrcia; ela precisa muito de voc!
- No me iluda mais. Sei que no tenho chances de cura e, se tivesse, no sei se iria querer mais me curar... Para qu? Para viver desprezada por voc, dentro desta 
casa enorme, sem meus filhos? Prefiro morrer a voltar a essa vida que voc me d.
Ele chorou pelo remorso.
- No tive culpa do que aconteceu. Voc sabe como a poltica me absorve. No posso fazer mais do que j fao. Pensa que tambm no sofro a morte de Alfredo e Marcos? 
Pensa que no sofro ao v-la assim, sem poder se levantar e levar uma vida normal?
- Voc sofre pelo remorso, por ter me tirado da casa de meus pais e despertado meu amor sem nenhuma inteno de retribuir. Como fui to cega? - lamentou-se Flaviana. 
- Mas no posso me demorar relembrando a infelicidade que  minha vida. Chamei-o por causa de algo mais importante: nossa filha Patrcia. Em breve no estarei mais 
aqui para cuidar dela e orient-la; quero que a leve para a casa de minha me.
Ele ruborizou:
- Isso nunca! Patrcia vai continuar sempre comigo. No vejo por que lev-la para a casa de dona Augusta. Tenho meios de educ-la e o farei!
- Faa o que estou pedindo. Talvez seja meu ltimo pedido a voc. Sei que no tem condies de cuidar dela. E moa,  jovem, e precisa de algum que a oriente. Voc 
leva vida imoral e nunca est em casa. Raramente larga Braslia para vir aqui. Faa o que estou pedindo; no hesite!
Ele pensou em discordar, mas resolveu ceder, prometendo a ela o que no fundo sabia que no iria cumprir. Jamais deixaria sua filha nas mos de uma mulher como Augusta 
Camargo. Resolveu contemporizar. Beijou o rosto dela e desceu. Patrcia no estava mais  mesa, todavia teve uma desagradvel surpresa ao passar pela sala: dona 
Augusta o esperava.
- Quero falar-lhe. No subi porque no queria interromper sua conversa com minha filha. No sei de que se tratava, mas espero que no a tenha feito sofrer mais do 
que at o momento.
Ele foi seco:
- Diga o que quer, pois estou muito atrasado.
- Como sempre! S no estava atrasado quando tirou minha filha do lar onde era amada e valorizada para traz-la a uma vida de sofrimentos e traies. Mas tenha certeza 
de que no viver feliz um dia sequer de sua vida. Ter a mim como inimiga, e no lhe darei paz enquanto viver!
Ele esfregou as mos tentando conter a raiva.
- Diga o que a senhora quer, pois preciso sair. Seja breve.
A velha e elegante senhora prosseguiu:
- Quero que contrate mais uma empregada para esta casa. Desejo que minha filha tenha companhia mais horas durante o dia. Conversei com o doutor Eduardo e ele garantiu 
que ela est em fase terminal. No quero que nada lhe falte nesses ltimos momentos de vida. Quero, pelo menos, que morra com dignidade.
- Empregada? Mas esta casa j tem tantas! A Eullia cuida muito bem dela; no lhe deixa faltar nada.
- Eullia  da cozinha. Estou me referindo a uma exclusiva. Para ser mais direta, quero que contrate uma enfermeira para cuidar de minha filha.
Nesse instante o esprito Romrio, que estava atento a toda a conversa, soprou nos ouvidos de Humberto:
- Concorde com ela, no discuta. Ns o ajudaremos a encontrar a enfermeira.
Humberto resolveu concordar:
- Est certo. A senhora pode providenciar isso para mim?
No tenho tempo para essas coisas. Estou indo resolver alguns problemas e depois sigo para Braslia.
O companheiro de Romrio influenciou Augusta, que logo protestou:
- Nada disso, voc  que dever encontrar a enfermeira desta vez. J fiz muito por esta casa. Todas as empregadas daqui foram escolhidas por mim e minha filha, agora 
 a sua vez. Contrate e traga essa enfermeira ainda hoje, ou no responderei por mim.
Dizendo isso, a velha senhora virou o rosto e subiu a escadaria em direo ao quarto de Flaviana. Sem saber o que fazer diante de tanta petulncia, Humberto tambm 
saiu. Ia ver madame Aurlia, fazer algumas recomendaes e conversar diretamente com Isabela. Iria lhe propor montar uma bela casa onde ele a visitaria semanalmente. 
De repente, Romrio, que estava ao seu lado, lhe disse:
- Voc no precisa se preocupar com a enfermeira. Traga Isabela para sua casa e transforme-a em acompanhante da sua esposa. Diga que  a enfermeira que contratou 
ningum vai desconfiar. Alm do mais, voc poder possu-la sexualmente na sua prpria casa, sem gastar tanto!
A maioria dos pensamentos das pessoas  sugerida por espritos que circulam na crosta terrestre. Ignorando esse fenmeno de comunicao teleptica, os encarnados 
supem que esto pensando por si mesmos. Grande iluso! Assim como existem os bons espritos que lhes inspiram idias nobres e boas, h os inferiores, que os tentam 
levar cada vez mais para a queda. Humberto, pelo comportamento que mantinha e pelos pensamentos que cultivava, cortara a relao com seu guia espiritual, que no 
conseguia mais influenci-lo. Respeitando o livre-arbtrio, seu mentor o deixara livre para que, recolhendo a dor, pudesse amadurecer. Aps captar com facilidade 
as idias de Romrio, ele exultou: - Tive uma idia excelente. Resolvi agora o que fazer com Isabela. Ser a enfermeira perfeita que dona Augusta tanto almeja. Feliz 
com a idia aceita, Romrio regressou para o stio infernal onde vivia com uma comunidade muito grande de espritos que, assim como ele, lutavam para conduzir a 
humanidade  maldade e  dor, degradando-se nos caminhos que levam ao sofrimento.

6 - UMA INIMIGA

Na Manso de Higienpolis, no dia seguinte  visita do senador, madame Aurlia reuniu todas as suas empregadas no grande salo. Queria falar com elas em especial.
- Gostaria de agradecer a todas pela noite memorvel que tivemos ontem. Nossos protetores saram satisfeitos. Libero as bebidas para todas durante uma semana.
Muitas sorriram gratas pelo elogio; outras logo se levantaram para o bar. Muitos espritos as seguiram tambm contentes com a idia de poder sentir o sabor da bebida 
por intermdio delas. Naquele lugar, alm do vcio sexual, havia a agravante do lcool. Aurlia olhou profundamente para Isabela, que logo notou que ela lhe queria 
falar em particular.
- Isabela, vamos subir. Temos muito que conversar.
Luana, que invejava bastante a beleza e o porte da companheira de profisso, tornou:
- Nossa quanto mistrio! Ontem foi a escolhida da noite, hoje  a preferida da patroa. Quanto privilgio!
Fingindo no ouvir, as duas subiram. No quarto excessivamente luxuoso de Aurlia, Isabela se acomodou. Estava preparada para ser explorada mais uma vez. Por certo 
o senador havia gostado dela e a queria de graa. Isso seria timo, pois estava em seus planos conquist-lo definitivamente.
- Isabela, faz mais de um ano que est aqui comigo. Como j teve a oportunidade de ver, nem sempre  vida aqui  boa. Tambm no h o que reclamar tendo vindo de 
um lugar como o que voc veio; considere-se at com muita sorte. Mas seus dias de prostituta praticamente acabaram.
Isabela estremeceu:
- Vai me mandar embora? A senhora no pode fazer isso comigo. Dei muito lucro a esta casa e pretendo continuar dando. Meu filho aqui cresceu e est bem alimentado 
e com sade; tenha piedade. S tenho aquela favela horrvel para viver - comeou a soluar.
Aurlia sorriu:
- No precisa chorar nem se ajoelhar a meus ps. No  nada disso que voc est pensando.  algo muito melhor, maravilhoso!
- No entendo. O qu pode ser?
- Voc sabe que sempre a considerei uma filha. Se fui dura algumas vezes, foi porque precisava. Quem trabalha nesse ramo sabe muito bem que s vezes temos de ser 
inflexveis com os empregados. Saiba que em agncias especializadas os donos costumam ser bem menos tolerantes que eu. Mas voc parece que nasceu com uma estrela. 
Em pouco tempo conseguiu o que todas almejam: um homem rico e apaixonado a seus ps!
Isabela continuava sem entender. Ser que era o que estava pensando? No podia ser.
- Continue, madame!
-  isso mesmo! O senador Humberto a comprou. A partir de hoje, no vai servir a nenhum outro homem, ser pea exclusiva para ele.
- Como isso foi acontecer?
- No sei! Os homens so assim. Alguns so difceis, outros so fceis de se apaixonar. Mas todos, quando se apaixonam, cometem loucuras. Mensalmente ele vai me 
pagar tudo o que voc costumava render aqui dentro. Tambm vai pagar voc por fora, mas esse acerto s os dois podero ter. Contudo, aqui vai um conselho: tire dele 
tudo o que puder. Os homens merecem ser usados at o ltimo centavo. Se um dia ele no lhe servir mais, o abandone sem titubear. Mas, enquanto estiver com ele, sugue 
tudo a que tem direito.
Isabela estava radiante. Finalmente o universo conspirava a seu favor. Estava mais fcil do que ela podia supor. Num gesto impulsivo, abraou a madame e desceu as 
escadarias gritando que estava livre e que era amada. Sua nica amiga, Morgana, se aproximou, abraando-a longamente. Foram para o jardim. Sentadas no banco, Isabela 
lhe contou tudo, e finalizou:
- Morgana, estou muito feliz. Minha vida vai mudar e, como a minha, a sua tambm!
- Quem dera amiga, mas no vejo como. Seja feliz voc; acho que eu nasci para esta vida mesmo.
- No diga isso, Morgana. Tenho um plano e sei que vai dar certo. Se der, vou ser a senhora Isabela Aguiar. Quando isso se realizar, saberei agir para tir-la daqui. 
Essa cafetina miservel deve estar ganhando uma fortuna comigo, mas hoje me deu conselhos benficos. Vou aproveitar tudo que a vida est me dando e saberei retribuir 
a sua amizade e lealdade para comigo.
Morgana tinha no canto dos olhos uma lgrima teimosa.
- Se fizer isso por mim, serei eternamente grata. Penso que a prostituio no  algo bem-visto por Deus. Sinto-me muito culpada cada vez que troco meu corpo por 
dinheiro.
- No seja boba em pensar em Deus em uma hora dessas, se ele realmente existisse no teria feito esse mundo cheio de desgraas e de gente como ns. Pense em voc 
mesma. Ceda aos homens at que eu a tire daqui; tenha pacincia.
A outra pareceu se acalmar. De repente, elas viram o carro de Humberto parar em frente  manso. Ele entrou e cumprimentou as duas.
- Madame Aurlia est em seus aposentos. Deseja falar com ela, senhor? - perguntou Isabela.
Ao fit-la, ele sentiu mais uma vez que era a mulher perfeita para ser sua e a enfermeira que a sogra queria. J perturbado pelas ondas de luxria provindas daquele 
ambiente, ele, meio tonto, respondeu:
- Sim, desejo ter com madame Aurlia.
As duas entraram conduzindo o senador para dentro do recinto. Em poucos minutos, estavam ele e Aurlia no escritrio.
- O senhor aceita uma bebida?
- A de sempre, por favor!
Depois de servido, ele foi direto ao assunto:
- Quero desfazer a proposta que fiz  senhora ontem. Desejo tirar Isabela daqui.
Ela no acreditava no que ouvia. No podia perder aquela renda mensal de forma alguma. Irritou-se:
- O senhor no pode chegar aqui e fazer o que bem entende. Somos um grupo muito unido; prezo pelo bem-estar das minhas meninas e no vou permitir que tire uma delas 
daqui sem que v lhe dar uma vida digna.
Ele sorriu sarcasticamente.
- Faz-me rir. Sei que a senhora  uma mercenria e que no se importa com nada que no seja dinheiro. No tente cruzar o meu caminho ou levo essa casa  falncia 
muito mais rpido do que supe.
Ela tentou contemporizar:
- No v que vai cometer uma loucura? Para onde pretende levar uma mulher que conheceu ainda ontem? No sabe quem ela  nem do que  capaz. Trabalho h muitos anos 
com esse tipo de gente e sei que so capazes de tudo para atingir seus objetivos. Pode se dar muito mal. Isabela  sonsa, falsa e arrogante; tambm percebo nela 
um instinto agressivo, tenha cuidado com o que vai fazer.
Acompanhado pelos espritos desde que sara de casa, Humberto estava suficientemente influenciado para no ceder s palavras de Aurlia.
- No desejo saber de mais nada que venha da senhora, no acredito no que diz.  interesseira e s pensa em explorar o corpo alheio para viver. Sei que vai fazer 
minha cabea para que no leve Isabela daqui, mais a aviso de que no vai adiantar. Aceite o que estou propondo: fique com o dinheiro que lhe dei e se d por satisfeita 
em ter passado um tempo com ela e lucrado tanto. Agora ela  minha e vai seguir comigo ainda hoje.
Madame Aurlia resolveu no insistir.
- Ento que seja como o senhor quiser. Depois no diga que no avisei. Ah, e tem mais, algo que nunca lhe contaram: Isabela tem um filho. Ele mora com ela aqui.
Terminada a conversa, Humberto subiu ao quarto de Isabela e deu-lhe pessoalmente a notcia. Ela parecia delirar; no poderia acreditar de forma alguma que aquilo 
estivesse acontecendo com ela. Aps se beijarem longamente, os dois foram para a cama, onde ela mais do que nunca procurou se esmerar. Quando tudo terminou, ele 
a olhou e disse:
- Arrume todas as suas coisas que s cinco horas passarei aqui para lev-la. Tenho alguns compromissos e, aps resolv-los, venho sem falta. - Ele deu uma pausa. 
- Tenho outra coisa a lhe dizer. Durante algum tempo ter de me fazer um favor; no posso lhe dizer o que  agora. Prepare-se e na hora exata saber.
Ela concordou rapidamente. No podia perder aquela chance. Subitamente, segurou com muita fora os braos dele, e confessou:
- H um segredo que ningum lhe contou, mas  preciso que saiba antes de qualquer coisa.
- O que pode ser?
- Tenho um filho. Ele vive aqui comigo, nesse quarto ao lado. Uma empregada cuida dele para mim enquanto trabalho. Se no puder lev-lo comigo, recuso agora sua 
proposta. Ele  meu bem mais precioso.
Humberto sorriu.
- Sei que tem um filho. Fui informado por madame Aurlia. J pensei nisso e tenho a soluo. Voc ter uma bela casa onde poder viver com ele. Enquanto estiver 
me ajudando no que preciso, poder contratar uma bab para olh-lo.
Emocionada, Isabela se ajoelhou aos ps de seu protetor e chorou muito.
- No sei como agradecer o que tem feito. s vezes penso que estou sonhando e a qualquer momento vou acordar.
Ele olhou para um ponto indefinido e pensou alto:
- Nem sei tambm por que tenho feito tudo isso. Sinto por voc uma atrao incrvel, irresistvel mesmo. Uma fora muito grande me atrai at voc. O que sei  que 
a partir daquela noite no consigo mais viver sem pensar em t-la a meu lado.
Eles se beijaram. Deixando recomendaes  madame Aurlia para que ajudasse Isabela com as bagagens, ele saiu. A alegria foi grande quando Morgana ficou sabendo 
o que finalmente iria acontecer com a amiga. Comearam a arrumar as malas, e ento Aurlia apareceu no quarto.
- Saia, Morgana. Preciso falar com Isabela a ss.
Quando estavam apenas as duas, ela comeou:
- No pense que vai sair assim to fcil daqui. Depois de tudo que fiz por voc, me deve muito. Vim para fazermos um contrato.
Isabela no entendeu.
- Contrato? Que espcie de contrato?
A outra sorriu.
- Dever me dar a metade de tudo que conseguir ao lado do senador. Acha mesmo que, depois de t-la tirado daquela favela horrvel, tratado de voc nos melhores sales 
de beleza, dado-lhe um nome, ajudado seu filho a no morrer de fome, vai sair assim sem molhar muito bem a minha mo?
- Lembre-se, senhora, de que tudo isso que fez j retribu regiamente e a duras penas. Servi aos piores homens que freqentaram esta casa e lhe dava cinqenta por 
cento. Para a senhora, isso basta. No tente me atrapalhar; estou protegida por um homem muito importante e, se a senhora tentar algo, vai se arrepender. Aurlia 
sentiu muita raiva naquele momento. Quem ela pensava que era?
- Escute aqui. Ningum me passa para trs e fica impune.  melhor aceitar meu acordo agora ou ganhar uma inimiga para o resto dos seus dias.
- Ameaas comigo no resolvem. Aprendi desde cedo a ser forte. Fui estuprada, engravidei, desde criana tive de cuidar de mim, e no  uma mulher como  senhora 
que vai me atrapalhar. Antes disso, no viver para fazer nada.
- Est me ameaando? No sabe com quem est lidando. Engula tudo que disse.  Dizendo isso, deu uma bofetada no rosto de Isabela, que revidou. As duas ento comearam 
uma luta corporal.
Morgana e as outras que escutavam atrs da porta, invadiram o quarto e acabaram separando as duas. Despenteada, rosto cortado e com expresso de dio, Aurlia parecia 
um monstro.
- Arrume suas coisas e suma daqui. Mas saiba que vou persegui-la enquanto viver. Voc foi o meu maior investimento;  justo que agora eu cobre. Ainda vai me ver 
bastante.
Ela saiu com ar ameaador. Morgana e Eudsia correram para acudir Isabela, que estava no cho chorando desesperadamente e tinha vrias marcas em todo o rosto. Tiraram-na 
do cho e a colocaram sobre a cama. Ela chorava, rosnava, mordia os lenis e a cama de tanta raiva. Em meio ao dio, gritou em voz alta:
- Quem ganhou uma inimiga foi  senhora. Juro que no viver muito tempo pra atormentar minha vida. Eu tirarei a sua primeiro.
Morgana interrompeu:
- Isabela, acalme-se. No diga mais nada para no se complicar. Lembre-se de que tem um filho que depende de voc.
Nessa hora ela caiu em si. A lembrana do filho a fez refletir bastante. Instintivamente, foi ao quarto contguo e o encontrou sobre a cama. Ao v-la, Daniel sorriu. 
Isabela chorou emocionada. Pegou-o no colo, e lhe falou:
- Filhinho, a partir de agora a mame vai poder lhe dar tudo o que voc precisa para ser um grande homem. Vou ensin-lo a conquistar o que desejar e passar por cima 
de quem for preciso para conseguir vencer.
Trazendo o filho para o quarto, Isabela, Eudsia e Morgana comearam a arrumar as malas. J era noite quando Humberto chegou de carro e a levou. As despedidas foram 
tristes, principalmente para Eudsia, que cuidava de Daniel havia mais de um ano, e Morgana, que realmente era amiga de Isabela. Pelo vidro da janela de seu quarto, 
madame Aurlia olhava com dio o carro que partia. A seu lado estava Luana, que se juntara  patroa para ajud-la nos planos de vingana. Perto das duas, vrias 
entidades sombrias as abraavam, inspirando os mais cruis pensamentos. Patrcia acabara de ouvir uma palestra maravilhosa sobre o carma no Centro de Estudos que 
freqentava. Aps receber os passes e tomar a gua fluidificada, ela foi procurar o palestrante. Depois de alguns cumprimentos de outros presentes, finalmente conseguiu 
se aproximar de Rodolfo.
- Gostaria de tirar algumas dvidas sobre a palestra de hoje. Foi muito boa e proveitosa.
Rodolfo, muito simptico, a fez sentar-se num dos bancos.
- Realmente o carma  assunto muito interessante, que deve ser estudado e entendido em seu real sentido. Infelizmente, as pessoas o tm deturpado sobremaneira.
-  isso que gostaria de saber. Desde que iniciei minhas vindas aqui tenho procurado ler muito a respeito de espiritismo, mediunidade, vida aps a morte e tantos 
outros assuntos ligados  espiritualidade. Para isso, fui numa boa livraria e comprei vrios livros a respeito. Porm, tenho percebido em alguns deles idias conformistas 
sobre o carma, sobre o sofrimento, e alguns at se referem  punio e castigo. O que aceitar de tudo isso?
- Realmente, na literatura esprita e espiritualista existem muitos autores que ainda teimam em continuar pensando de modo radical sobre certos assuntos. Eles ignoram 
que o pensamento evolui e ainda se prendem de forma ortodoxa ao que foi dito tempos atrs.
Patrcia refletiu:
-  isso que no consigo entender. Aqui aprendemos que Deus no castiga nem pune, apenas dispe os fatos para que cada um colha aquilo que plantou e aprenda a viver 
melhor. Todavia, lendo as obras de Allan Kardec, sempre deparo com frases que fazem aluso ao castigo e  punio divina. Pode me explicar por que isso acontece?
Rodolfo se levantou e disse:
- Para isso preciso que venha comigo  nossa biblioteca.
Eles saram e logo entraram numa grande sala com imensa quantidade de livros.
- Aqui  nossa biblioteca. Nela h muitos livros da literatura, tanto esprita quanto espiritualista, mas para responder s suas dvidas e esclarec-la quanto s 
outras que possivelmente vo aparecer em seu caminho, primeiro vamos ver um dos principais livros para os espritas.
Eles sentaram. Rodolfo puxou de uma das estantes um exemplar que Patrcia logo percebeu ser de O Evangelho segundo o Espiritismo.
- Veja bem, Patrcia, logo na introduo deste livro, Kardec, em sua sabedoria e raciocnio mpar, nos informou que "no  a opinio de um homem que se dever aliar-se, 
mas a voz unnime dos Espritos; no  um homem, no mais ns que um outro que fundar a ortodoxia esprita; no , tampouco, um Esprito vindo se impor a quem quer 
que seja;  a universalidade dos Espritos se comunicando sobre toda a Terra por ordem de Deus".
Hoje, como voc mesma tem observado, universalizou-se a verdade de que Deus no castiga nem pune. Esse ensino se tornou praticamente universal nas lides espirituais 
e j tomou conta de quase todo o globo terrestre. Mas no pense que foi fcil essa generalizao. No princpio, os espritos superiores encontraram nos mdiuns muita 
resistncia e foi difcil essa idia tomar forma. As pessoas rejeitavam-na como se fossem misticismos sem nem atentarem para o que dizia o bom-senso. Patrcia interrompeu:
- Continuo sem entender. Se na Codificao Esprita os espritos usaram desses termos, por que s tempos depois vieram a mudar a linguagem?
- Esperava por essa pergunta, e mais uma vez quem responde  Kardec. Veja aqui o que ele diz ainda na introduo deste livro. 
Patrcia leu: "Os Espritos superiores procedem, nas suas revelaes, com uma extrema sabedoria; eles no abordam as mandes questes da doutrina seno gradualmente, 
 medida que a inteligncia est apta a compreender verdades de ordem mais elevada, e que as circunstncias so propcias para a emisso de uma idia nova".
- Por este trecho voc pode perceber o mtodo de Kardec. Ele sabia que os espritos estavam falando de acordo com uma poca, de acordo com o que a humanidade poderia 
entender no sculo passado. O Codificador sabia que, quando o tempo fosse favorvel, novas revelaes iriam acontecer e que a verdade sempre se impe sobre qualquer 
obstculo. Hoje em dia falar que Deus castiga mostra completa ignorncia sobre a natureza divina. O que naquela poca foi facilmente aceitvel, hoje, com a mente 
mais avanada da humanidade, torna-se intolerante afirmar. Kardec sabia que muitas coisas novas iriam surgir completando e at mesmo retificando, o que ele disse 
naquela poca, todavia sem ferir nem abalar os princpios bsicos do espiritismo, que so imutveis e universais.
- Quais so esses princpios, Rodolfo?
- Os princpios bsicos do espiritismo so: a vida aps a morte, a reencarnao como oportunidade nica de progresso, a comunicabilidade dos espritos com o mundo 
corporal, a pluralidade dos mundos habitados e a crena num Deus nico, imutvel, soberanamente justo e bom. Isso jamais ser abalado, pois o tempo mostra que so 
verdades eternas.
- Entendi... Mas ainda sobre o carma. Se for verdade que ele no existe como algo fatal, como entender o que minha me passa sem nunca ter feito mal a ningum? A 
Slvia uma vez me explicou, mas no estou totalmente convencida. E onde fica aquela crena que vemos em muitos livros a respeito de que todos esto aqui para pagar 
dbitos do passado? Tenho tantas dvidas! 
-  que voc est muito presa  viso materialista das coisas. A crena de que viemos aqui para pagar dbitos, alm de incorreta,  uma maneira muito primitiva de 
entender a justia divina. O que Slvia lhe explicou est certo. Ningum paga nada, porque ningum deve nada a ningum, apenas  prpria conscincia. Os sofrimentos 
so resultado das crenas, pensamentos e atitudes que ainda no se modificaram no bem, no otimismo e na f. O sofrimento no  a cobrana de dbitos do passado, 
e sim o chamamento divino para a evoluo e a mudana para melhor. Ocorre que nossas crenas no mal vm de muito longe e se repetem de encarnao a encarnao. Enquanto 
no as mudarmos, sofreremos da mesma forma. Esse  o nico e verdadeiro carma que existe. Sua me nunca fez o mal a ningum, todavia, se est sofrendo,  porque 
vem fazendo mal a si mesma. Provavelmente, antes de reencarnar, prometeu mudar, buscar o bem, evoluir pelo amor auxiliando o prprio esprito com a busca da espiritualidade 
e da sabedoria. Uma vez aqui, se acomodou em vez de buscar ser feliz e aprender como as leis universais funcionam. Ela fez o oposto, preferiu ser a vtima e continuou 
a alimentar a crena no mal. 
Patrcia protestou:
- E como outras pessoas que vivem do mesmo modo que minha me, ou at em condio pior, esto bem e com sade? - Nos olhos da jovem, uma lgrima teimava em cair.
- "Muito ser pedido a quem muito recebeu." Deus respeita o nvel de evoluo de cada um; ele no pede aquilo que a pessoa ainda no  capaz de oferecer. Voc exigiria 
que uma criana agisse como um adulto?
-  claro que no, imagine!
- Assim  que Deus age. Sua me chegou a um nvel de evoluo que no lhe permite mais ter certas atitudes, ento vem o sofrimento. Sempre que a pessoa age fora 
de seu nvel de evoluo espiritual, a natureza no a protege mais, por isso a pessoa sofre as conseqncias. Acredite: quem no usa o bem que tem vai sofrer a interferncia 
do mal.
Patrcia havia entendido, porm chorava muito. Era-lhe muito penoso ver a me, ainda jovem, jogada naquela cama, definhando sem esperanas. Ao seu lado, Alfredo 
e Marcos a consolavam. Rodolfo os viu, e lhe disse:
- Desabafe, chore, mas saiba que ela no est sozinha. Agora mesmo est sendo amparada por dois espritos amigos que querem ver seu bem.
Ela ficou admirada
- So espritos amigos? So meus mentores?
- No sei dizer. S sei  que possuem muita luz e a protegem. Renda graas a Deus por ter amigos assim no astral.
Ela estava emocionada. Ao sair do centro, tomou um txi e foi para sua casa. Ganhara um carro ltimo modelo dos pais, porm, ainda no aprendera a dirigir. Durante 
o trajeto foi refletindo sobre o que ouvira de Slvia e de Rodolfo, e concluiu que eles tinham razo. De repente seu pensamento foi em direo  sua prpria vida. 
Ela se sentia feliz. No fosse a doena de sua me e a ausncia do pai em casa, sua vida seria uma total felicidade. A perda dos irmos tambm a chocara bastante, 
mas ela logo se recuperara. Ao ver seus corpos naqueles caixes, ela sentia no ntimo que a vida no terminava ali. Tinha amigas, mas gostava de selecion-las. s 
vezes preferia sair s a ter companhia de certas pessoas que no lhe agradavam. O que faltava mesmo era um namorado. J tinha tido alguns, mas nenhum deles a tocara 
profundamente. Contudo, Patrcia confiava na vida e sabia que um dia, mais cedo ou mais tarde, a pessoa amada iria aparecer. Aps pagar o txi, Patrcia entrou e 
logo percebeu que sua av permanecia na casa.
- Vov?! A senhora ainda aqui? Mame piorou?
- No, filha. Estou esperando o crpula do seu pai chegar; hoje teremos um acerto de contas.
Patrcia sentou-se ao lado da av no sof luxuoso. Augusta de Camargo j estava velha, porm em seu rosto havia poucas rugas, alm do que sempre se vestia com muita 
elegncia, algo incomum em mulheres de idade avanada.
- Por que esse dio to grande contra papai? O que de mal ele lhe fez?
- Esse no  assunto para uma mocinha como voc. O meu acerto de contas com ele hoje  outro. Sua me precisa de uma enfermeira e pela manh ordenei que ele providenciasse 
uma para cuidar dela o dia todo. Humberto me garantiu que traria a moa ainda hoje e veja s: so dez e meia, e nada de ele chegar.
- Vov, ele  um homem muito ocupado, mas, quando promete, cumpre. Apesar de a senhora nutrir esse dio por ele, sempre o amarei e mame tambm. No acho bom guardar 
rancor no corao. Quem o cultiva  o primeiro a se prejudicar. Esse tipo de sentimento provoca emoes desordenadas que causaro problemas de sade. Cuidado, vov: 
eu a amo muito e a quero sempre do meu lado.
Augusta enterneceu-se:
- Ah, voc  realmente um anjo. Mas esse repdio que sinto pelo Humberto  mais forte que eu. Filha pense bem, j  do conhecimento de todos que sua me tem poucos 
meses de vida. Temos de nos conformar... Quero que quando ela nos deixar voc venha morar comigo, em minha casa.
- No, vov, isso no! Gosto muito da senhora, mas vou continuar vivendo aqui. Ademais, quem somos ns para dizer que uma pessoa vai viver ou morrer? S Deus  que 
pode saber e, enquanto h vida, h esperana. Mesmo assim, caso mame se v, irei continuar aqui, nesta casa que ela tanto amou e da qual cuidou. Vou me casar e 
ter minha famlia, e quero que seja aqui o meu lar.
- Voc no v que viver ao lado de seu pai pode prejudic-la? Ele vai colocar em sua mente valores perniciosos, vai influenci-la, e voc vai se perder. Comigo no 
correr esse risco.
- No acredito que ningum influencie ningum dessa maneira, como dizem. As pessoas podem nos sugerir atos, idias, pensamentos, mas ns s fazemos o que queremos.
A conversa foi interrompida pela chegada de Humberto. Augusta levantou-se e foi logo perguntando:
- Onde est a enfermeira que voc prometeu trazer hoje? Desde j, digo que no aceito desculpas. Se essa moa no vier, levarei Patrcia e Flaviana para minha casa. 
Voc sabe muito bem do que sou capaz!
Humberto fez de tudo para no perder a pacincia com aquela senhora intragvel.
- Tive muitos compromissos hoje e s encontrei a pessoa ideal no fim do dia, de modo que ela no poder vir hoje  noite, mas est contratada e comea amanh cedo.
Patrcia deu um beijo nele e o abraou. Augusta ia discutir, mas quando viu aquela manifestao de carinho entre pai e filha resolveu desistir.
- Espero que seja verdade. De qualquer maneira, vou dormir aqui hoje. Ligarei para Ftima ordenando que cuide de tudo em minha casa e amanh bem cedo estarei de 
p esperando a enfermeira. Se eu gostar, ela continua; se no, ela sai.
Dizendo isso, deixou os dois sozinhos na sala e dirigiu-se ao telefone. 
- Conte-me como foi seu dia, papai. 
- Ah, filha, muito cheio. Sempre que venho a So Paulo os compromissos polticos tomam a maior parte de meu tempo. Essa vida  boa, mas tem hora que d vontade de 
deixar tudo.
- Queria o senhor mais presente aqui. Desde que meus irmos morreram e que minha me adoeceu, esta casa est uma tristeza.
Humberto sempre se sentia mal quando algum mencionava aquele assunto. Tentou mudar o rumo da conversa e logo estavam conversando amenidades. Aps algum tempo, subiu 
e foi ver a mulher. Ela dormia, com uma aparncia mais cadavrica do que no dia anterior, mas aquilo agora no importava. Tomou um longo banho e deitou-se. Comeou 
a se lembrar de como tinha convencido Isabela a aceitar ser uma enfermeira em sua casa. Eles tinham parado na frente de um hotel simples.
- Vou instal-la aqui primeiro. Dentro de uma semana ter sua casa com tudo de melhor e moderno que h.
Ela estava em estado de felicidade:
- Nem sei como lhe agradecer. Sinto no merecer o que est me ofertando.
- No diga isso, voc merece muito mais. Agora entremos, temos muito que conversar. Lembra da proposta que tenho a lhe fazer?
- Lembro, sim. Vamos entrar, estou ansiosa para saber.
Entraram. J devidamente instalada e alimentando Daniel, ela comeou a ouvir o que Humberto tinha a lhe dizer.

7  ORIENTAES

Humberto contou a Isabela seus planos. Ele narrou, em detalhes, o desejo de torn-la sua esposa assim que Flaviana morresse. Mas, como parte inicial do plano, ela 
deveria ser a enfermeira zelosa que sua sogra tanto insistia que ele levasse para a manso. Humberto nem percebia que no havia lgica nenhuma em se casar com uma 
mulher que mal conhecia. Envolvido que estava em processo de terrvel fascinao, ele sequer questionava tal atitude. Assim como Humberto, a maioria dos encarnados 
toma decises envolvidas pelas entidades espirituais das trevas, deixando o mundo no estado atual de sofrimento. Ao ouvi-lo, ela cogitou:
- Mas eu no tenho a mnima prtica em enfermagem. Sua sogra vai perceber de imediato que no sou enfermeira. Ser pior para voc.
- Nem pense isso. Minha mulher est em seus ltimos dias de vida, o trabalho no  to complicado. Desde que ela adoeceu, os mdicos indicaram como tudo deveria 
ser feito e a maior parte do trabalho so os empregados que fazem. Sua tarefa ser apenas a de velar por ela, ministrando os medicamentos nas horas certas, a alimentao, 
etc. Ver como  fcil.  Ter de passar as noites por l. Cuidarei para que venha todas as manhs ficar com Daniel. Ela o abraou:
- Era isso o que me preocupava. No posso ficar sem ver meu filho. Para que eu possa ficar l durante a noite, tenho de contratar algum que fique com o Daniel. 
Prefiro que seja a Eudsia, que  de minha confiana.
Ele cocou o bigode:
- Isso  comprar mais briga ainda com Aurlia. Eudsia trabalha para ela.
- No me importa. Busque-a para mim e assim ficarei tranqila para fazer o papel que me pede.
Humberto concordou. Pela manh telefonaria bem cedo para Aurlia pedindo que lhe enviasse Eudsia para trabalhar e morar com Isabela. Tudo combinado, pela manh 
Isabela j estava na manso onde desempenharia o papel de enfermeira desvelada. Madame Aurlia ficou com muita raiva do senador pela ousadia de tirar dela mais uma 
funcionria, porm concordou insuflada por Luana, que com isso acabou descobrindo o novo endereo da ex-colega para realizarem os planos de vingana. Isabela ficou 
deslumbrada com a elegncia da manso. Nem em seus sonhos mais ambiciosos, ainda quando morava na favela, poderia imaginar que um dia seria dona de uma casa como 
aquela. Sim, porque ela pensava em ser dona de tudo aquilo. Humberto comprara uniforme e apetrechos de enfermagem, e ela estava perfeita. Sentada no elegante sof, 
ela esperava. De repente uma jovem bonita se aproximou:
- Ento  voc que vai cuidar de minha me? Fico feliz em ter mais algum com ela. Meu nome  Patrcia, sou filha de Humberto.
- Prazer. Meu nome  Isabela. Vou fazer o possvel para ajudar sua me.
- , mas vai ter de enfrentar as exigncias da senhora Augusta.  minha av, uma pessoa muito legal, mas muito exigente e dura. Se voc no atender s expectativas 
dela,  capaz de perder esse emprego.
- Farei de tudo para estar  altura do que sua av espera. Ela tem razo. Para lidar com esses problemas de sade precisamos mesmo de pessoas competentes.
Nesse momento, do alto da escadaria surgiu Augusta. Quando a viu  sua frente, fitando-a com um olhar inquisidor, Isabela sentiu-se tontear. No era possvel! Quem 
estava ali era a mesma senhora que a humilhara e mandara espancar quando fora pedir esmola. Precisou de todo seu autocontrole. Felizmente Augusta no a reconheceu 
to diferente que estava.
- Ol. Chamo-me Augusta, sou me da sua paciente. Vamos subir, tenho de lhe mostrar tudo e dizer como ser seu trabalho.
Ela a acompanhou. Do sof, Patrcia sentiu uma sensao ruim invadir o seu esprito. No sabia explicar de onde vinha, mas no havia gostado da enfermeira. Algo 
nela no lhe inspirava confiana. Patrcia tinha aprendido, havia muito tempo, a confiar na intuio. Esta guia infalvel, quando escutada, nos leva sempre  verdade, 
por mais escondida que ela nos parea. Ela sentiu no ntimo que, com a chegada daquela mulher na sua vida, algo de macabro iria acontecer. Preferiu mudar os pensamentos 
e dirigiu-se ao curso. Isabela conheceu Flaviana e ficou muito feliz. Realmente aquela mulher no iria atrapalhar seus planos; pelo estado em que a viu, no duraria 
muito tempo. Tentou dissimular todo o dio que sentia por Augusta, mas em sua mente j surgiam planos de vingana assim que casasse com Humberto e fosse dona de 
tudo aquilo. Tentou executar as tarefas direito, nos mnimos detalhes, para agradar  severa senhora. Durante a madrugada, enquanto to dos dormiam, Humberto a chamou 
e foram para um dos quartos da casa. L deram vazo aos sentimentos que os uniam. Nem se lembraram de que estavam em um lar que devia ser respeitado acima de qualquer 
coisa, e assim assumiam compromissos dolorosos que os iam encontrar fatalmente no futuro. Diana estava reunida com os amigos estudando o caso de Clotilde/Isabela. 
Sentados em uma sala, eles conversavam.
- Realmente, Bruno, nessa situao no podemos fazer muito. Antes Clotilde ainda nos ouvia durante o sono fsico, mas hoje, quando nos v, corre apavorada para o 
corpo de carne, recusando-se a ouvir nossas orientaes. Devemos ter pacincia e confiarmos na bondade divina.
Bruno ouvia calado com os olhos perdidos num ponto indefinido. Depois comentou:
- Ainda lembro com nitidez quando fomos resgat-la no umbral em estado lamentvel. Na caravana estvamos eu, voc, Gabriel e Daniel. Aps tempos conosco, perto de 
reencarnar, resolveu que mudaria e que desta vez faria tudo diferente. Mas a prova do reencontro com Humberto foi definitiva, e ela optou pelo caminho do erro mais 
uma vez. Mesmo conhecendo a origem do problema, ainda fico triste ao ver toda a programao de uma vida ser perdida assim com extrema facilidade.
Gabriel questionou:
- No entendo onde tudo comeou. Gostaria de conhecer a histria dela. Pode me contar Diana?
- Sim. A histria de Clotilde vem j de algum tempo, precisamente quando viveu na Frana, entre os sculos XVIII e XIX. Naquele tempo, ela era uma nobre da corte 
muito rica. Acreditava que entre pobres e ricos deveria sempre haver grande distncia e os tratava com desprezo. Naquela poca, no fim do sculo XVIII, a situao 
econmica e social da Frana era gravssima. A maioria dos franceses da poca eram camponeses que, em geral, trabalhavam nas terras de um nobre ou nas de uma ordem 
religiosa catlica. Clotilde, que naquela poca se chamava Nathalie, e seu marido, Henry, que hoje se chama Humberto tinham muitas terras e nelas viviam vrios camponeses 
em sistema feudal, regime sob o qual tinham de entregar a maior parte da comida aos seus senhores. Muitas famlias nobres tratavam relativamente bem os campnios, 
dando-lhes boa moradia e melhores condies de vida, todavia na famlia de Henry o tratamento era pssimo. Nathalie no permitia que o marido, um homem relativamente 
bom, melhorasse a vida de quem trabalhasse para eles; deixava-os passar fome e morar em casebres com cho de terra. A vida corria bem para eles at o dia em que 
Nathalie conheceu um lindo campons chamado Thierry e se apaixonou perdidamente por ele. Notando o interesse da senhora e tencionando melhorar de vida, Thierry aceitou 
com facilidade as suas investidas e ambos passaram a se encontrar secretamente numa cabana de caa um pouco distante da luxuosa propriedade dela.
Diana fez breve pausa para organizar suas lembranas. Depois prosseguiu:
- Nathalie se viu perdidamente apaixonada e dava somas e mais somas de moedas e jias ao seu amante. Mesmo sabendo que Thierry s tinha interesse em seu patrimnio, 
cega de paixo, continuava o relacionamento. Foi a que madame Philomene, a me de Henry, necessitou passar uns dias na casa do filho. Ela estava doente e era viva; 
no queria morrer longe do filho nico e amado. Porm, Philomene no morreu; pelo contrrio, logo se recuperou. Aconselhada pelo filho, ela permaneceu no castelo, 
pois havia tido incio o que hoje conhecemos como Revoluo Francesa, e a cidade estava em polvorosa. A rotina do castelo foi alterada com a chegada da matrona e 
Nathalie teve de espaar os encontros com Thierry na cabana de caa. Como Henry saa bastante a fim de resolver os problemas da imensa propriedade, pediu  esposa 
que cuidasse de sua me e velasse por ela. O receio de Henry foi logo compreendido quando, numa noite de inverno de 1789, seu castelo foi invadido por camponeses 
que se apropriaram de toda a comida e de documentos que registravam suas dvidas feudais. Houve morte e muita luta. Entre os camponeses estava Thierry que, a partir 
daquele momento, passou a residir fora das terras de Henry. Estando longe do amante, Nathalie sentiu-se muito triste. Seus filhos eram adultos e estavam fora do 
pas. Foi ento que resolveu escrever uma carta para ele marcando um encontro no lugar de costume. Sua fiel camareira, Morgan, iria entregar.
- E Nathalie conseguiu se encontrar com seu amante? - perguntou Gabriel.
- Ela no contava com as armadilhas que o destino costuma pregar - continuou Diana -, e saiu de seu quarto a procurar a empregada. Nesse momento, sua sogra, que 
entrara no recinto procurando por ela, viu sobre a escrivaninha a carta de amor e luxria que seria enviada em breve para Thierry. Philomene apropriou-se da carta 
e quando Nathalie retornou ao quarto em companhia de Morgan, sem encontrar a missiva, entrou em surto quase psictico. No poderia imaginar quem estava com a carta, 
nem passava por sua mente que se tratava de Philomene. Aps se acalmar, decidiu que precisava se manter atenta e descobrir o autor do roubo. Certamente teria sido 
um empregado do castelo que queria chantage-la em troca de fortuna. A esse pensamento, sentiu-se calma. Mas as horas passavam, e nada de o chantageador falar com 
ela.
Gabriel escutava atentamente o desenrolar daquela histria real.
- Em seu quarto, madame Philomene estava em estado de choque. Nunca poderia imaginar que Nathalie fosse capaz de semelhante ato. Decidida, contou tudo ao filho, 
sem atinar na tragdia que estava desencadeando. Henry, muito apaixonado pela esposa, no teve coragem de mat-la. Espancou-a vrias vezes, jurando de morte Thierry 
onde quer que o encontre. Trancou sua mulher no castelo e ordenou que no sasse dali a partir daquele dia. Desesperada e pensando que Thierry pudesse morrer, Nathalie 
mandou que Morgan o procurasse e lhe avisasse que fugisse, pois corria risco de vida. Depois da fuga, quando tudo estivesse esquecido, ele deveria voltar e invadir 
a casa juntamente com outros campnios, e tirar a vida de Henry. Ela facilitaria tudo. Prometeu que ele seria um homem rico e ela uma mulher mais livre para amar. 
Tambm prometeu a Morgan muitas jias, que a fariam uma mulher bem de vida, caso continuasse fiel a ela. Thierry fez tudo conforme o combinado. Durante a Revoluo 
Francesa, os ataques de camponeses aos castelos se tornaram comuns e num desses ataques aconteceu o premeditado: Henry perdeu a vida. Philomene ficou arrasada, mas 
nem de longe conseguiu imaginar tratar-se de Nathalie a mandante do crime. Passados os primeiros tempos de luto, ela e Thierry voltaram a se encontrar. Ela continuou 
viva em respeito aos filhos e, apesar de apaixonada, jamais se uniria a um campons oficialmente.
Diana tomou flego, antes de prosseguir com a narrativa envolvente dos fatos:
- Charles e Luigi, filhos de Nathalie, tiveram de voltar da Inglaterra, pois a Revoluo estava atingindo toda a Europa, e a Inglaterra planejava atacar a Frana 
na tentativa de conter o movimento. Os franceses j no eram mais bem-vistos naquele Pas. Com os filhos no castelo, e ainda a sogra, ficaram mais difceis os encontros 
com o amante. Este, j rico com o dinheiro e as jias que recebia da amante, estava comeando a afastar-se dela. Percebendo isso, Nathalie pensava numa maneira de 
reconquist-lo causando-lhe cimes. Comeou ento a sair com George, vivo rico muito amigo da famlia. Iam a cafs e demais lugares pblicos na tentativa de chamar 
a ateno de Thierry. Isso realmente aconteceu: Thierry passou a pensar, induzido pelo esprito vingativo de Henry, agora desencarnado, que merecia mais dinheiro, 
e as sadas de Nathalie com George indicavam que em breve ela se casaria novamente e ele perderia essa chance. Envenenado pela inveja, ele passou a persegui-la por 
toda a parte, at que um dia a encontrou comprando fazendas numa butique requintada.
- Thierry estava, ento, sob a influncia do esprito desencarnado de Henry? - perguntou Gabriel.
- Sim - respondeu Diana. - Thierry, aps abord-la na butique - prosseguiu -, comeou a amea-la e marcaram assim novo encontro na cabana de caa. Radiante, ela 
foi. Luigi estava caando por perto e viu horrorizado quando a me entrou com um homem na cabana. Espreitou por uma fresta e os viu fazer amor. Seu sangue subiu 
 cabea e ele pensou em mat-los ali mesmo, todavia seu esprito guardio o aconselhou a esquecer o assunto e a perdoar. Ele no conseguiu. Durante os dias que 
seguiram, influenciado por um esprito inimigo da me, ele traou meticuloso plano. Sua me no poderia dar aquela vergonha a ele e ao irmo; era prefervel v-la 
morta a estar nos braos de um homem como aquele. Durante uma madrugada, ele entrou devagar e silencioso no quarto dela e a sufocou com um travesseiro. Assim Nathalie 
regressou ao astral. Todos pensaram se tratar de parada cardaca; ningum cogitou a possibilidade de Luigi ser o assassino da prpria me. Assim que seu corpo astral 
se libertou do fsico, o esprito dementado de Henry passou a persegui-la incansavelmente e a fez prisioneira por anos a fio no umbral. Depois disso, Thierry, em 
uma terrvel discusso com Luigi, acabou sabendo que o prprio filho tinha matado a me quando descobrira que ela e ele se relacionavam. Cego de dio e pensando 
ter sido madame Philomene quem os delatara, assim como fizera da ltima vez com o filho, Henry, ele assassinou a velha senhora com requintes de crueldade.
- E como termina tudo isso? - inquiriu com interesse Gabriel.
- Em mil setecentos e noventa e oito, desiludidos e sozinhos, Charles e Luigi se entregaram passivamente  morte numa das batalhas de Napoleo Bonaparte e chegaram 
ao mundo espiritual em situao lamentvel. Suicidas, passaram por terrveis tormentos. Basicamente, amigos foi isso que aconteceu.
Diana encerrou a narrativa e Gabriel estava estupefato; nunca poderia imaginar que a histria de Clotilde envolvesse tantas peripcias. Diana concluiu:
- Aps passar por tantos sofrimentos, Clotilde ainda no conseguiu encontrar o caminho da evoluo pelo amor. Aqui, em nossa estncia de paz, ela foi orientada a 
respeito de que isso era possvel, todavia escolheu sofrer em vez de encarar seus problemas de outra forma.
Bruno completou:
- Infelizmente, a maioria dos espritos desencarnados escolhe apagar suas culpas por meio da expiao e do sofrimento. Bom seria se todos ns pudssemos aprender 
somente pelo bem.
- Voc tem razo, Bruno. Atualmente na Terra j  possvel acabar com todo o sofrimento, mas a humanidade  que tem de fazer a prpria libertao espiritual pela 
qual tanto anseia. Em via de se regenerar, nosso planeta, ao qual estamos ligados h sculos, est deixando j h algum tempo a velha forma de evoluo pela dor. 
Vale a pena salientar que a dor  a forma mais Primitiva de evoluo. Ela s acontece em mundos ainda inferiores; em planos mais elevados nem as lgrimas existem 
mais, h muito foram abolidas - esclareceu Diana. Gabriel estava com dvidas:
- Lembro-me de que ajudei a resgat-la. S que naquele tempo eu era um novato no mundo espiritual. Iniciava meu trabalho como uma espcie de terapia para meu esprito, 
que estava arrasado pelas culpas e pela saudade que sentia dos que haviam ficado por isso no pude acompanhar o processo de reencarnao desse grupo. Como foi que 
isso aconteceu?
- De forma sofrida, infelizmente - retorquiu Diana. - Como j lhe contei, Nathalie chegou aqui com muitos compromissos assumidos perante a prpria conscincia. Assim 
que desencarnou, teve como algoz seu marido, Henry, que, se sentindo trado, a perseguiu cruelmente. Com seus companheiros de uma falange das trevas, ele a tirou 
do corpo e a levou para uma caverna onde ficou presa durante dcadas e onde era violentada todos os dias. Para piorar seu estado, Henry revelou como foi sua morte 
e ela comeou a se sentir culpada por tantos erros, inclusive o de ter induzido o prprio filho a mat-la. Tendo conscincia de que muito fracassara, Nathalie julgava 
estar no inferno, atirada s penas eternas. No se lembrava de rezar nem de pedir auxlio a Deus. Por causa disso, demorou muito para ser resgatada.
- Madame Philomene tambm passou por muitos sofrimentos deste lado da vida - continuou Diana. - No acreditava estar morta e vagou sem rumo pelo umbral por mais 
de dez anos, sentindo todas as necessidades de quando estava viva sem poder supri-las. Quando encarnada, julgava que o sexo era apenas para a procriao, e com isso 
reprimiu toda manifestao de sexualidade que lhe aparecia, at que um dia um grupo de homens ainda presos a esse vcio a encontrou e sem mais dificuldades a levou 
para o Vale do Amor Livre, onde passara a molest-la sexualmente, sem se importar com a idade que ela aparentava. Tendo reprimido tanto a prpria sexualidade, madame 
Philomene passou a gostar de ter relaes com aqueles espritos. A essa altura, seu prprio marido tambm fazia parte daquela horrvel situao e ela havia se convencido 
de que tinha deixado  carne. Algum tempo depois, ela foi convidada a uma excurso pelo Vale dos Suicidas e l encontrou seus netos com os corpos perispirituais 
"chumbados" ao cho. Olhos vtreos, eles estavam presos e pareciam congelados. Foi ento que ela comeou a perceber a real situao em que estava e o remorso comeou 
a persegui-la. Seu desejo maior agora era rever o filho Henry e retirar seus netos daquela situao. Um dia, aps tanto chorar, orou a Deus e foi atendida. Chegou 
 nossa colnia prometendo se regenerar, conquanto tirssemos seus netos do Vale e ela pudesse ter ao lado o filho e o marido. Ento lhe explicamos que naquele momento 
no era possvel, que ela tinha de cuidar de si mesma, procurando ser feliz. Em seguida, aconselhamos a reencarnao, que ela aceitou depois da aprovao do Plano 
Superior.
- E quais seriam as caractersticas de sua nova vida? - perguntou Gabriel.
- Renasceria pobre, pois achava a riqueza perigosa e m. Escolheu o Brasil, precisamente o interior do Nordeste, e lhe foi concedida  oportunidade: seria uma me 
de famlia honrada e criaria os filhos para o bem, pois como me de Henry havia fracassado e dado a ele uma educao perniciosa, baseada nos falsos valores da sociedade. 
Longe da cidade, ela tambm aprenderia a se aproximar mais de Deus no contato com a natureza, ainda que inspita. Assim ela nasceu - explicou Diana. - todavia as 
chagas do esprito so como ms e em pouco tempo os espritos com os quais ela se consorciou no astral em atos sexuais a encontraram. Diante das dificuldades que 
ela enfrentava quando moa, sugeriram a prostituio, idia que ela acatou com facilidade. Logo estava fazendo na Terra o que fazia quando desencarnada. Anos depois, 
montou uma casa de prostituio e at hoje, como Aurlia, ainda se especializa em vender o corpo em troca de dinheiro.
- Durante os anos em que Philomene passou encarnada, muitas coisas aconteceram - prosseguiu Diana. - Pudemos resgatar Charles e Luigi e os conduzimos a uma colnia 
correcional. L eles estagiaram durante anos. Mas mesmo assim no melhoravam. O ato do suicdio lesa o corpo astral profundamente e eles precisavam voltar a Terra 
com urgncia. Oraram com fervor a Deus e a Jesus para que Nathalie fosse socorrida. Eles teriam de reencarnar, mas no podiam imaginar a me em to terrvel situao. 
Luigi estava com remorsos por t-la assassinado e queria seu perdo. Todos estavam reunidos, menos Henry, que se recusava a ser socorrido. Por isso foi submetido 
a uma reencarnao compulsria, e veio ao mundo como Humberto. Era um esprito ainda muito ligado ao materialismo e s convenincias de quando viveu como nobre na 
Frana. Dessa maneira, foi facilmente envolvido pela poltica e pela corrupo, coisas que estava to habituado a fazer. O casamento, que foi lhe dado para aprendizado 
interior, logo foi deixado de lado. At hoje a nica coisa que realmente o sensibilizou foi  morte de Alfredo e Marcos, que foram Luigi e Charles reencarnados. 
Interrompendo a narrativa, Gabriel perguntou:
- E Nathalie, vai voltar  vida de Humberto? Afinal, foram marido e mulher no passado.
- Sim. Flaviana foi o esprito que induziu Luigi a sufocar a me naquela noite. Elas so inimigas de passado remoto; fatalmente iriam se encontrar quando encarnadas. 
Na Terra ningum se encontra com ningum pela primeira vez, principalmente nas relaes de afeto. O casamento com Humberto iria terminar na hora exata e ele assumiria 
Isabela como esposa, para assim melhorarem como espritos. Mas muita coisa saiu da programao e mais uma vez eles escolheram o sofrimento.
- Como assim? Na Terra as coisas podem acontecer fora da programao? - perguntou Bruno.
- Sim, e  o que mais acontece. Chamada a reencarnar, Nathalie disse que viria, mas desta vez em miservel situao. Depois de tudo que sofrer, ela criou na mente 
a crena de que a riqueza  ruim e s a pobreza pode levar  evoluo.  um pensamento equivocado, mas no qual muitos acreditam geralmente movidos pelos remorsos. 
Ela poderia ter vindo rica mais uma vez e ter usado sua fortuna para produzir o progresso no meio social e auxiliar a todos que prejudicou no passado, todavia preferiu 
o egosmo de sofrer sozinha e foi viver numa favela com casa de piso de terra, assim como os camponeses que lhe serviam viviam. Sofrer sempre ser um egosmo, pois 
pelo bem e pelo amor vamos ajudar o prximo muito mais do que sofrendo. Clotilde no acredita nisso e prefere a vida que vem levando. Todavia, mesmo a duras penas, 
teria a chance de progredir. Se a qualquer momento ela passasse a crer de forma diferente, mudando os pensamentos para outros mais prsperos, logo estaria bem de 
vida e evoluiria com mais facilidade. Mas, movida pelos espritos inferiores, preferiu ser prostituta e subir na vida de modo ilcito, o que fatalmente vai acabar 
em mais sofrimento.
- Ela vai conseguir se casar com Humberto? - perguntou Bruno.
Diana explicou:
- Isso est na programao. Eles precisam se unir at mesmo para ajudar Thierry, que est na Terra como Daniel. Ex-amantes agora como me e filho, eles vo sublimar 
a paixo que tanto os fez sofrer. Humberto, vendo-o agora como uma criancinha doce inocente, esquecer que ele foi seu antigo rival e assassino, e o perdoar. Por 
outro lado, vendo-o como pai, Thierry vencer o dio e aprender a am-lo, mas ainda ter de sobrepujar seus instintos violentos. Para isso, contar com o espiritismo, 
com o qual ele assumiu se comprometer na tentativa de melhorar e evoluir. Se tudo correr assim, apesar dos erros, Humberto e Clotilde podero ser felizes. Mas os 
espritos das trevas esto atentos e vo fazer de tudo para que eles fracassem mais uma vez. Por isso estamos aqui, para ajud-los, sempre contando com o amparo 
de Deus e de Jesus!
- Como  difcil vencer quando estamos na Terra, Diana! - ponderou Gabriel.
- Isso acontece porque no ouvimos a voz da nossa prpria alma. Ela sabe tudo o que precisamos fazer para alcanar a felicidade. E por intermdio da intuio que 
o Criador se comunica conosco, nos orientando a alcanar o caminho mais indicado para atingir nossos objetivos superiores. Quem no ouve a prpria alma, facilmente 
se perde no turbilho do mundo e, fazendo escolhas erradas, sofrer bastante. S vence na vida aquele que est do lado da espiritualidade, dos valores eternos do 
esprito, que so muito diferentes dos valores da sociedade. Quem vive de acordo com as leis universais, mesmo contrariando as leis sociais, vai estar sempre equilibrado 
e feliz.
Os amigos terminaram de conversar e, aps um abrao amigo, se despediram. Bruno e Gabriel foram dormir na casa onde residiam na prpria colnia. Diana era um esprito 
muito avanado, ento aproveitava a noite para estudar os casos em que trabalhava ou ento ia ler os livros de espritos que eram mais evoludos que ela, livros 
esses que as pessoas da Terra ainda no conheciam e que, mais tarde, quando a humanidade estivesse melhor, chegariam a Terra por intermdio de mdiuns dedicados 
e responsveis.

8 - ADQUIRINDO COMPROMISSOS

A noite estava fria e Isabela folheava um livro, sem muito interesse, na cabeceira da cama da moribunda.
- Como est  mame? - Era a voz de Patrcia, que acabava de entrar no quarto.
- Est bem melhor hoje. Alis, sua me tem melhorado muito ultimamente.
- So seus cuidados. Depois que vov teve a idia de trazer uma enfermeira para c, tudo melhorou. At papai est mais presente no lar, coisa que no fazia antes.
Isabela mordeu os lbios. Aquela sirigaita nem desconfiava o porqu de o pai estar to presente.
-  mesmo, o senhor Humberto tem se interessado bastante pelo lar. Sinto que a melhora de dona Flaviana o tem deixado mais alegre e motivado para estar em casa.
- Deus a oua; sinto muito a falta de papai aqui. 
Flaviana tossiu e acordou:
- Filha, que bom acordar e ver voc!
- Vim aqui ver como  senhora estava. No queria ir ao centro sem v-la. Isabela me disse que a senhora melhorou.
- Sinto-me mais forte ultimamente. Tambm, pudera... Com um anjo como Isabela  minha cabeceira no tinha como no melhorar.
Patrcia a beijou, despediu-se e saiu do quarto. As duas ficaram sozinhas. Isabela costumava conversar com Flaviana sobre amenidades e, depois de alguns minutos, 
ela estava novamente adormecida. Isabela recomeou a leitura, sempre atenta ao menor rudo para ver se Humberto havia chegado. Agora, trs vezes por semana ele estava 
em casa. Mesmo com os compromissos em Braslia, ele fazia questo de voltar para o lar, onde dava vazo a sua paixo por ela. O quarto de Flaviana tinha uma vidraa 
que dava para o jardim e o porto da frente. Era dia de Humberto chegar e, ao menor rudo de carro, ela corria para v-lo. Estava ansiosa. Quando aquela mulher cadavrica 
iria morrer para ela se tornar logo dona da manso? O tempo passava e Humberto no chegava. Ela acabou adormecendo na cadeira de balano. Assim que se desligou do 
corpo, percebeu uma pessoa  sua volta. Era Romrio, que demonstrava ansiedade no rosto.
- Parecia que voc no ia dormir nunca. Estava ansioso para lhe falar; preciso com urgncia lhe fazer um alerta.
Ela, meio assustada, no reconheceu de imediato quela pessoa to feia e suja. Depois de alguns instantes, se lembrou:
- Ah, o que  desta vez, Romrio?
- Voc precisa agir muito rpido. Por acaso quer perder a chance de ser a dona de tudo isso aqui?
- Como assim? No vou perder a chance. Essa mulher doente logo morrer e Humberto vai se casar comigo. Ele me prometeu e sei que  homem de palavra.
- Eu no estaria to certo disso - respondeu Romrio maliciosamente.
- Como assim? Ele est com outra? Diga-me, por favor - ela comeou a se desesperar, afinal confiava em Romrio, e, se ele estava lhe dizendo aquilo, havia de ter 
um motivo.
- No  isso. Humberto  fiel a voc. O que acontece  que voc no est enxergando o bvio. Flaviana est se recuperando. A doena dela deixou de se desenvolver 
e est regredindo. Daqui a alguns meses estar boa e voltar a reinar absoluta como dona desta casa. Humberto, pressionado pela sogra e pela filha, no vai ter coragem 
de se separar. Voc ter de se contentar em ser uma reles amante.
Ela comeou a sentir dio.
- Isso no pode acontecer. Bem que suspeitei que ela estivesse melhorando. O que posso fazer para me livrar dessa mulher de uma vez por todas?
- Mat-la! E isso que deve fazer. Se no matar Flaviana, no vai conseguir ser a senhora desta casa.
- O qu? Nunca matei ningum, isso  errado!
- Boba! Ou faz isso, ou perder sua chance de ficar milionria. Aproveite enquanto ela dorme e a sufoque com o travesseiro. Todos pensaro que foi parada cardaca 
e ningum suspeitar de voc. Acorde no corpo fsico e mate-a sem piedade. Ademais, na ltima encarnao, ela foi o esprito que influenciou seu filho a mat-la. 
Voc apenas far justia.
- Isso mesmo. Vou agora para o corpo e farei o que me indicou, s assim serei rica e feliz.
Romrio sorria de prazer mrbido. Tinha conseguido enganar Isabela facilmente. A melhora de Flaviana era temporria, ele sabia que a insuficincia renal crnica 
no tinha cura, mas o que ele queria era comprometer ainda mais Isabela com as leis de Deus. Os espritos inferiores induzem os outros ao mal com um nico propsito: 
o de os fazer infelizes como eles. A felicidade das pessoas  um verdadeiro tormento para os espritos inferiores, ento, para v-las infelizes tambm, eles as induzem 
ao mal. Isabela, com esse ato se comprometeria seriamente e seria to infeliz quanto eles num futuro prximo. Ainda que as leis da Terra jamais descobrissem seu 
crime, as leis divinas agiriam sem erro at for-la ao reajuste. Num susto, Isabela acordou. Olhou novamente pela vidraa e nada de Humberto. J era tarde e quela 
hora ele no viria, ficaria no apartamento em Braslia. Certamente os compromissos l tinham se intensificado e ele no pudera voltar para casa. Olhou Flaviana adormecida 
e percebeu que sua respirao estava normal. Aquela mulher estava melhorando e isso era pssimo para ela. De repente, um pensamento a invadiu: "E se ela melhorar?" 
J ouvira falar de casos em que o paciente estava com o p na sepultura e mesmo assim havia se recuperado e passado a levar vida normal como antes. No, isso no 
podia acontecer. Flaviana estava perto da morte e nada a faria se recuperar. Tentou se concentrar no romance, mas no conseguia. Algo lhe dizia fortemente que Flaviana 
iria se recuperar e voltar a ser a senhora daquela casa. Isso ela no podia deixar acontecer; tinha de fazer algo. Nas ltimas semanas, Flaviana tinha melhorado 
muito. Se recuperasse, no permitiria que Humberto se separasse dela para se casar com outra. A velha chata da Augusta continuaria a imperar e ela no poderia se 
vingar. De repente, outro pensamento lhe tomou: "E se ela morresse? S assim tudo ficaria resolvido". Estranha fora a envolveu e ela pegou o travesseiro sobre o 
qual Flaviana dormia. Bruscamente, comeou a apert-lo contra seu rosto. Flaviana acordou assustada e tentou gritar, mas a voz no saiu. Sentiu que algum a sufocava, 
mas no sabia quem. Isabela tinha fora multiplicada e, ao perceber que a vtima tentava se livrar apertou ainda mais o travesseiro. Em desespero, a enferma sentia 
perder o resto de suas foras e concluiu que ia morrer. Ao pensar nessa hiptese, um mrbido pavor a invadiu e ela perdeu os sentidos. Isabela, ao se certificar 
de que Flaviana estava morta, foi para sua poltrona e fingiu dormir. Como se sentia aliviada ao pensar que agora tudo seria seu! Pela manh teria de estar preparada 
para representar o papel de surpresa e inocente. Amanheceu. Augusta e Patrcia estavam reunidas na mesa tomando o caf. Era sempre assim; elas acordavam, tomavam 
o caf e depois iam ver Flaviana. Augusta, mesmo depois que Isabela chegara, continuava praticamente morando na manso, to preocupada estava com a filha. De repente, 
ouviram um grito agudo vindo de cima. Com o susto, elas correram a fim de ver o que era. Ao chegarem, viram Isabela chorando ajoelhada aos ps de Flaviana, que parecia 
morta. Sentindo o que tinha acontecido, Augusta desmaiou. Logo os empregados chegaram e se enterneceram ao ver o desespero de Isabela e o choro baixinho de Patrcia, 
debruada sobre a me. Levaram Augusta para outro quarto e telefonaram para Humberto dando a fatdica notcia. Nem perceberam o exagero cometido pela enfermeira, 
que nem de longe se importava com a situao.
- Levante Patrcia - dizia Zulmira, antiga empregada da casa. - No vai adiantar ficar a debruada.  hora de rezar e pedir a Deus que receba a alma de dona Flaviana 
no cu. Era uma santa mulher.
Patrcia levantou-se e seguiu com ela. Tudo parecia um pesadelo. Isabela, olhos inchados, depois de contar sua verso dos fatos ao mdico, foi para casa. No trajeto 
no conseguia esconder a egostica satisfao com o que tinha feito. O doutor Vasconcellos diagnosticou parada cardaca e ningum nunca iria desconfiar dela. Mas, 
mesmo assim, tinha de disfarar. Eudsia estava l cuidando de Daniel e ela no poderia desconfiar de nada; seria um segredo que levaria ao tmulo.  Em casa, Isabela 
fez a mesma cena com Eudsia, que de nada desconfiou. Algumas horas depois na manso, Humberto havia acabado de chegar. Abraou a filha e tentou confort-la como 
pde. O pessoal do centro esprita estava l e reanimara Patrcia com palavras de consolo. Augusta estava inconsolvel. Chorava, gritava e desmaiava repetidas vezes, 
at que o doutor Vasconcellos a fez dormir com uma alta dose de ansioltico. O velrio foi na capela de um rico cemitrio. Isabela compareceu e estava com Augusta 
o tempo inteiro. Naqueles seis meses trabalhando l, ela fizera grande amizade com a sogra de Humberto. Com extrema falsidade, tinha se acercado da senhora e conquistara 
sua afeio. Ouvia-lhe as confidencias. Augusta era severa e s tinha amigas de sua idade e religio, mas com Isabela ocorrera uma exceo; ambas teriam se tornado 
grandes amigas, no fosse  hipocrisia de Isabela. Humberto estava cercado por amigos do Senado e at o presidente compareceu. Isabela ficava imaginando como seria 
maravilhoso ser a esposa dele e brilhar na sociedade. Foi com esses pensamentos que viu o corpo de Flaviana ser sepultado. Augusta no permitiu a cremao. Naquela 
noite, o ambiente estava triste na manso. Humberto, que tinha passado quase a vida inteira longe da filha, no sabia agora como se aproximar dela. Ele tambm se 
sentia mal. No fundo, sua conscincia j o acusava de ter sido interesseiro e se casado sem amor. Naquele instante, o remorso pareceu aumentar. Na sala com a sogra 
e a filha, cada um a um canto do sof, ele no sabia como quebrar aquele mrbido silncio.
- Sei que  muito triste... - comeou ele. - Mas precisamos acabar com esse silncio pavoroso que se instalou aqui. Dona Augusta  hora de deixarmos para trs nossas 
desavenas e nos tornarmos amigos, pelo bem de Patrcia.
- Sei o que voc quer, mas no vou ceder. O que lhe disse antes de minha filha morrer repito agora. A partir da prxima semana Patrcia vai viver comigo em minha 
casa; no posso permitir que ela passe a viver aqui sozinha. No volto atrs na minha deciso.
Patrcia, ainda com os olhos inchados, pareceu sair do torpor que a invadia e se defendeu:
- Vov, j conversamos sobre isso. Eu lhe disse que, apesar de ter apenas dezoito anos, sei bem o que quero da vida. No vou morar com a senhora, apesar de am-la 
bastante. Ademais, se eu sair daqui, o que ser feito desta casa to grande da qual mame cuidou com tanto carinho? O que ser desses empregados que cuidaram de 
ns durante tanto tempo? No, no vou sair. Pretendo me casar e morar nesta casa. Acredito que quando mame despertar no plano espiritual ficar contente ao me ver 
aqui.
- Voc e essas suas idias. Sua me morreu, e, como todos que morrem, ela estar dormindo at o ltimo dia; no vai poder ver nada. Veja s, Humberto, o que sua 
negligncia fez! At entrar para uma seita horrvel sua filha entrou. E claro! Flaviana, sempre doente, no pde gui-la como deveria, e voc, que tinha essa obrigao, 
a abandonou, por isso segue esse caminho. Temo por voc, minha neta. Pode at enlouquecer com essas idias.
- A senhora no pode falar de uma coisa que no conhece. O espiritismo  uma filosofia sria, voltada para o bem. Alm do mais, ela consola mais do que qualquer 
outra religio que existe no mundo. No quero ofend-la, mas sua religio no acredita no perdo de Deus, uma vez que considera o inferno como um lugar de padecimentos 
eternos, e tambm no consola, j que acredita que os espritos no se comunicam e no tm conscincia de si mesmos. Eu aprendi com o espiritismo que Deus  bom, 
sempre perdoa seus filhos e no fecha a porta para nenhum deles, por mais errados que paream estar. Aprendi que a morte no existe e que a vida  eterna. Acredito 
que minha me, agora, est amparada por espritos de luz, descansando em algum lugar, e isso me d consolo e alegria.
- Patrcia, sua av est certa. Nunca obriguei ningum a seguir religio alguma, mas acredito que este no seja um caminho bom para voc. Se essa religio lhe desse 
consolo mesmo, no teria chorado tanto a morte de sua me.
- Chorei sim, e ainda vou chorar mais, pois a amava, e quem ama sempre sente quando se separa do ser amado. Mas meu choro  como se fosse por mame ter ido fazer 
uma longa viagem. No choro o "nunca mais". Sei que, se Deus a levou, foi porque assim foi o melhor. Tenho certeza de que um dia a reencontrarei.
Augusta estava indignada.
- Que desgosto! Para mim  horrvel ter uma neta nessa religio. Se voc fosse igual  Isabela... Ela sim  que  uma pessoa sensata e tem aprendido muito com minha 
experincia. Tornamo-nos amigas e ela ouve tudo quanto eu digo, j voc...
- Pense como quiser. S aviso que no irei morar com a senhora. Agora vou dormir, porque estou muito cansada.
Dizendo isso, beijou o pai e subiu. Augusta ficou sozinha com Humberto.
- Voc est vendo no que est se transformando sua filha: numa anarquista. Isso  o resultado da sua ausncia aqui no lar. Saiba que eu nunca o perdoarei por tudo 
que fez minha filha passar. Vou amanh para minha casa, mas ficarei atenta ao que acontece aqui. No permitirei que se case com outra enquanto eu for viva.
- Dona Augusta, hoje todos os nimos esto exaltados.  melhor termos essa conversa depois. Patrcia vai morar aqui com a Zulmira e com os outros empregados. Ela 
j  bastante adulta para escolher o que quer da vida. No posso estar aqui todo dia, mas vou mandar redobrar a segurana da casa e sei que com Zulmira, que a viu 
nascer, ela estar protegida.
Augusta comeou a chorar e Humberto, angustiado, deixou-a sozinha. Desse modo, ela passou o resto da noite chorando o triste destino e a morte de sua filha.
- Eudsia, a felicidade vai entrar para sempre em minha vida! No consegui nem dormir direito esta noite pensando no que me acontecer de agora por diante - falava 
Isabela  sua fiel amiga desde os tempos do bordel.
- Mas no consigo entender... Ontem voc estava chorando tanto a morte de dona Flaviana, e hoje j est to alegre?
- Percebi que de nada me vale ficar chorando por ela. Chorei ontem porque cuidei dela, e acabei me apegando  enferma. Mas a morte dela  um passaporte para a vida 
que eu tanto sonhei.
Levando um po  boca, Eudsia questionou:
- Voc acredita mesmo nisso, menina? Ser que o senhor Humberto vai realmente cumprir suas promessas?
- Nem diga isso. Claro que vai! Ele est apaixonado, e voc sabe como  um homem assim. Dei muita sorte nesta vida; nunca pensei ser possvel sair daquela favela 
horrvel onde eu vivia.
Eudsia silenciou. Isabela estava muito feliz e ela no queria tirar suas esperanas. Resolveu mudar de assunto:
- Agora que sua tarefa como enfermeira terminou o que pensa em fazer?
- Bom, vou continuar visitando dona Augusta e ficar cada vez mais amiga dela. Sei que vai ser um choque quando ela descobrir que eu serei a futura mulher de Humberto, 
mas ao mesmo tempo ela nunca vai desconfiar de que j nos relacionvamos.
- Ser? Ela pode ficar com muito dio de voc e deduzir que j eram amantes. Tenha muito cuidado.
Isabela ia responder quando viu Daniel se aproximar. Era uma criana muito bonita e esperta, de cabelos encaracolados, branquinho e com olhos castanho-claros. Parecia 
um anjo. Ela se enterneceu. Realmente, a nica coisa que mexia com as fibras mais ntimas do ser de Isabela era seu filho. Pegou-o e o colocou no colo. Estava assim, 
dando comida a ele, quando a campainha tocou. Eudsia foi abrir e a figura de Humberto apareceu. Rapidamente Isabela levantou-se para receb-lo e ambos se beijaram. 
J na sala, ele comeou:
- Estou indo hoje para Braslia e no poderia deixar de passar aqui antes para v-la.
- Meu amor, a cada dia sinto que nascemos um para o outro. Em que dia vamos nos casar?
Ele cocou o bigode.
- Vocs, mulheres, nem esperam o perodo de luto e j querem agarrar a todo custo o vivo... - falou ele srio.
- Nossa, Humberto, no sabia que voc era dado a ser puritano. Nem parece o mesmo homem viril que me possua no quarto vizinho ao da sua esposa.
Ele sorriu.
- Boba! Falei isso de brincadeira. Olhe que nem sou homem dessas coisas, veja s no que voc me transformou. - Ele deu uma pausa. - No podemos pensar em nosso casamento 
agora. Devemos ser discretos, se no quisermos ser impedidos por Augusta. Ainda ontem conversamos e ela me disse que no deixar que eu me case outra vez.
- Mas que petulncia daquela velha! Tenho ganas de mat-la com minhas prprias mos. Se no fosse nosso plano, no a estaria mais suportando.
- Voc precisa ser a melhor atriz possvel. Quando formos nos casar, ela dever pensar que nunca nos relacionamos antes. Ser um problema a menos.
Isabela comeou a fazer beicinho para ele e logo estavam na cama, acompanhados por entidades viciadas que usavam suas energias no campo do sexo. Isso acontecia porque 
tanto ela quanto Humberto viviam e acreditavam na maldade.
Alguns dias se passaram e Flaviana comeou a despertar. Via vultos de pessoas ao seu redor, mas o sono era maior e ela voltava a adormecer. Ficou assim durante um 
tempo at o dia que acordou de vez. Ao abrir os olhos, teve uma surpresa: estava deitada com muitas outras pessoas em uma espcie de cama de vidro ao ar livre. Intimamente 
perguntou-se onde estava e que lugar era aquele, to bonito. As camas estavam sobre um cho coberto de uma grama muito verde, cheia de gotas de orvalho. As pessoas 
pareciam dormir ou relaxar, e algumas conversavam com outras, que pareciam lhes passar informaes. Tentou chamar uma dessas pessoas, mas no conseguiu; elas estavam 
um tanto distantes. Em sua sala, Diana estava com Gabriel  sua frente.
- V, Gabriel, e faa o possvel para no choc-la. - Flaviana, assim como a maioria dos que estavam naquela ala de refazimento, no tinha conscincia de que j 
havia deixado o corpo de carne, e saber disso de forma abrupta podia lev-la ao desespero. - Faa como sempre fez; seja sincero e firme ao mesmo tempo, mas deixe-a 
ciente da sua nova condio.
Gabriel aquiesceu e se dirigiu para a ala. De onde estava at o parque destinado a receber os recm-chegados havia certa distncia, e ele usou a volitao. Logo 
estava se aproximando de Flaviana. Ela estava impaciente, via as pessoas atender as outras nas camas, mas ningum ia procur-la. Comeou a se angustiar. Por que 
sua me a levara para um lugar de terapias alternativas? E seus aparelhos? Ela estava atordoada. De repente, viu a figura de um jovem de seus vinte anos sorrir para 
ela e depois aproximar-se.
- Como est dona Flaviana? Sente-se bem?
Ela se sentou.
- Sim. Muito bem, por sinal. At que enfim algum veio falar comigo. Estou aqui h horas e ningum vem conversar, me dizer onde estou. Afinal, que lugar  este?
- A senhora est numa colnia de recuperao. Aqui  um local de recuperao e refazimento, onde a senhora poder ser muito feliz, se souber aproveitar.
Ela pareceu no entender.
- Colnia? Nunca ouvi falar nesse lugar. Ser um lugar para loucos? Se for, ento erraram comigo, pois minha doena  nos rins.
Gabriel sorriu:
- Fique tranqila. Aqui no  um local de loucos como  senhora conhece. Como j lhe disse,  um local de refazimento. Esta ala  destinada aos recm-chegados. A 
propsito, como est se sentindo fisicamente?
- Estou muito bem. O mal-estar passou, no sinto o corpo cansado... Alis, no sinto mais nada da minha doena. Por qu?
- E que aqui as doenas desaparecem.
- Nossa que lugar fantstico! Como Humberto o encontrou? Ou ter sido minha me?
- Ningum o encontrou. A senhora chegou aqui sozinha, porque era a hora.
- Olha rapazinho, voc no responde nada com clareza. At agora, s me deixou mais confusa ainda. Como cheguei aqui sozinha se no tinha foras nem para andar?
- A senhora veio viver nesse lugar pela misericrdia divina. Agradea; nem todos podem estar aqui.
- Quer dizer que estou internada? Cad os aparelhos que filtram meu sangue?
- Aqui a senhora no vai mais precisar deles. Se quiser, poderemos dar uma volta e poder conhecer o lugar. Aqui  muito bonito.
- Estou percebendo. Parece o paraso. Onde estamos  muito verde e essas serras que nos circundam do um ar maravilhoso ao local. Estamos em So Paulo?
- No, estamos distantes de l agora. Mas no se preocupe com isso. Vamos dar uma volta?
Flaviana comeou a ficar preocupada. Afinal, que lugar era aquele? Levantou-se e foi andando por entre as outras camas. Via crianas com copos de gua molhando a 
testa de pessoas que dormiam, outras pessoas empunhavam as mos sobre a fronte, e ela ficou ainda mais confusa. Crianas trabalhando em hospitais? Durante o trajeto, 
Gabriel ia explicando com evasivas as dvidas dela sobre o ambiente em que estava. Flaviana ficou to empolgada que por instantes se esqueceu de Patrcia, Humberto 
e de sua enfermeira, Isabela. Aquele lugar era lindo! Flaviana viu animais domsticos, coelhos, gatos, cachorros, cavalos; observou pessoas colhendo flores, crianas 
brincando, mulheres entretidas com o jardim. No pde conter a pergunta:
- Nunca vi ou estive num lugar to bonito assim. Aqui  tudo natureza? No vejo casas... Onde fica a sede?
- A senhora vai conhecer, mas no agora. Aqui  uma cidade.  parte em que estamos  uma zona onde predomina apenas a natureza, porm mais  frente temos conjuntos 
de habitaes e prdios onde s pessoas realizam as mais diversas tarefas.
- Agora foi que fiquei confusa. Primeiro voc me disse que aqui era um lugar de recuperao, ento pensei que fosse um hospital. Agora me diz que  uma cidade. O 
que me deixa tranqila  que estou bem e sei que foi minha me ou Humberto que me trouxeram para c, logo  um lugar seguro. Mas quero falar com o diretor, saber 
que dia posso sair ou ver minha famlia. Que horas posso falar com ele?
- Agora vamos voltar quele lugar onde a senhora estava e voltar a descansar. Depois prometo que falar com o responsvel.
Flaviana estava muito bem-disposta e no queria descansar, mas resolveu obedecer. Pensava estar fazendo um tratamento inovador que deveria seguir  risca. Nem cogitou 
que, se estivesse na Terra, jamais poderia ficar sem os aparelhos. Chegando ao lugar novamente, deitou-se. Um homem maduro comeou a empunhar as mos na fronte dela, 
que logo adormeceu, sem perceber que saam energias brilhantes das mos daquele abnegado seareiro de Deus. Gabriel volitou e chegou rapidamente  sala de Diana.
- E ento, como foi?
- No pude revelar-lhe a verdade. Achei muito prematuro. Ela pensa que ainda est na Terra e que o marido e a me a internaram numa clnica de terapias alternativas; 
nem sequer lembra que foi assassinada.
- Voc agiu certo, Gabriel. Espervamos que ela fosse se lembrar de algo, mas a memria ainda est apagada. Deus sabe o que faz! Mas, ao acordar, a deixaremos ciente. 
Eu mesma falarei e lhe explicarei tudo. Estamos vivendo no mundo da verdade, e no podemos deixar uma pessoa enganada. Aqui cada um descobre que a vida continua 
e que a morte  a maior iluso que o ser humano cultiva, seja qual for sua crena ou religio, ou ainda que seja ateu.
- Voc tem razo, Diana. Eu mesmo sei como certos religiosos do trabalho quando chegam aqui. Muitos se recusam a entender que a idia que mantinham de cu e inferno 
no era verdadeira e acham que ns somos loucos.
- Verdade. A maioria dos religiosos so os que mais sofrem quando chegam aqui e descobrem o quanto estavam enganados. Mesmo assim no acreditam e acabam retornando 
para a Terra. L vo constatar, entre pasmados e desesperados, que realmente deixaram o corpo de carne. Ento comeam a vagar por entre os familiares ou vo viver 
no umbral. A maioria deles se recusa a aceitar auxlio de pessoas que eles julgam ser espritas, na ignorncia de que aqui no existe religio.
Gabriel estava pensativo:
- Nossa como o problema  complexo! Por que as pessoas so to resistentes em aceitar que estavam erradas?
- Devido ao orgulho. Infelizmente esse sentimento tem dificultado muito nossa estadia no plano astral. Nunca gostamos de aceitar que erramos em nossas convices. 
Preferimos sofrer a admitir que nos enganamos. Existem espritos que durante a vida na Terra acreditaram que morrer era ficar dormindo, sem conscincia. Quando chegam 
aqui e descobrem que esto mais acordados do que nunca, fogem assustados e vo ser presas fceis das entidades infernais que os faro dormir por anos, satisfazendo 
seus egosticos desejos.
- Quer dizer que os espritas na Terra devem se arvorar em ser donos da verdade?
- No foi isso o que quis dizer. No quero contribuir para aumentar o fanatismo que anda tomando conta dos nossos irmos das lides espirituais. As verdades que o 
espiritismo veio revelar no so propriedade exclusiva de ningum, pois pertencem a todos, e so verdades da vida, acima de tudo. O Espiritismo apenas as estuda, 
pois a vida aps a morte, a mediunidade, a reencarnao so fenmenos que pertencem s leis da natureza, e no a grupos religiosos. As religies vo acabar porque 
esto dividindo as pessoas. A nica religio verdadeira do mundo  o amor, e nela todos estamos includos, pois somos herdeiros dele. S assim perceberemos que no 
h por que querermos ser donos de verdades que s pertencem a Deus, supremo criador do universo.
Gabriel estava satisfeito com as respostas de Diana e pacientemente esperou que Flaviana voltasse a despertar.

9 - A DESCOBERTA DE FLAVIANA

Naquela mesma tarde, Flaviana acordou e percebeu que ainda estava no mesmo lugar. As mesmas camas de vidro, as mesmas pessoas  volta atendendo os pacientes, at 
a paisagem era a mesma. Quando abriu completamente os olhos, percebeu que ao seu lado estavam Gabriel e mais outra mulher que ela no conhecia.
- Suponho que ela seja a diretora daqui. Foi bom a senhora ter vindo. No estou conseguindo entender nada. At agora s dormi e nem minha filha, nem minha me apareceram 
para me ver. Acho isso muito estranho... Sou uma mulher doente e eles jamais me deixariam sozinha por tanto tempo.
- Chamo-me Diana e sou trabalhadora daqui, no sou a diretora. Sou responsvel, entre outras coisas, por este departamento que chamamos de Departamento dos Recm-Chegados.
Flaviana abriu bem os olhos castanhos e grandes, e indagou:
- Recm-chegados de onde?
Sem hesitar, Diana respondeu:
- Recm-chegados da Terra. Aqui todos vieram de l. 
Flaviana sentiu uma sensao ruim, pois sentiu que aquela mulher era sincera e no estava mentindo.
- Da Terra? Quer dizer que no estamos na Terra? Que brincadeira  essa?
- No  brincadeira, e vamos lhe mostrar isso agora. Deite-se novamente. - Flaviana obedeceu, tremendo por dentro. Sentia que algo de muito ruim lhe seria revelado.
Diana colocou a mo direita sobre sua fronte e pediu:
- Agora feche os olhos e tente se lembrar da ltima imagem que tem da sua vida antes de chegar aqui.
Flaviana se esforou e comeou a se ver deitada, com uma aparncia cadavrica, em sua cama. Tinha Isabela por perto em uma poltrona, lendo um livro e velando por 
ela.
- Diga o que voc v - pediu Diana.
- Vejo-me em meu quarto deitada, muito doente, e Isabela, minha enfermeira, ao meu lado.
- O que mais? Tente se lembrar do ltimo dia que esteve com sua enfermeira.
- Estou lembrando. Fazia muito frio e ela se levantava toda hora para ir at a janela do quarto. Logo depois adormeci e...
Flaviana demorou algum tempo com os olhos e o rosto comprimidos, e depois soltou um grito:
- Socorro, ela... Ela est me matando! Ajudem-me! 
Diana retirou a mo e ordenou:
- Acorde Flaviana. J passou; voc est bem. 
Ela abriu os olhos e todo seu corpo tremia.
- Foi Isabela... Ela tentou me matar, meu Deus! Por que ela fez isso comigo? Era to fiel, to boa!
Gabriel trouxe-lhe um copo com gua e f-la beber. Quando se acalmou, ela colocou as mos na de Diana, e perguntou:
- Por favor, me diga: quem me salvou aquela noite? J prenderam Isabela? Meu Deus estvamos com uma criminosa em casa e nem desconfivamos... Ela ia me sufocar com 
o travesseiro!
Diana, j acostumada com aquele tipo de situao, comeou a explicar:
- Ningum a salvou naquela noite. Seu corpo morreu e ns a recolhemos aqui. E hora de cuidar de sua vida, rever seus valores e entender como atraiu isso para seu 
destino.
Flaviana comeou a chorar convulsivamente. Sentia que era verdade, ela estava morta! Mas, se estava morta, como se sentia mais viva e saudvel do que nunca? Seu 
corpo estava igual ao da Terra; at o corao batia. Sentindo seus pensamentos, Diana a orientou:
- Voc agora vive com o corpo do esprito, que chamamos de perisprito. Voc pensa que ele  igual ao seu corpo de carne, mas logo perceber que no . Quanto  
forma, sim; todavia, esse corpo em sua constituio  muito diferente. Mas outra hora conversaremos sobre isso. Tente dormir que, ao acordar, ser levada para uma 
casa que preparamos para voc.
Flaviana explodiu:
- Como voc fala isso com tanta simplicidade assim? Fui assassinada, estou morta, tenho de me afastar de minha filha, e voc vem me dizer que vai me dar uma casa? 
No quero nada disso, quero minha vida de volta: minha casa, minha me e at mesmo o Humberto.
- Voc prefere viver num corpo doente, sem ter mais condies de levar uma vida normal? Reflita e procure entrar em contato com Deus pela prece. Quando chegar o 
momento, entender que tudo que lhe aconteceu foi para o melhor; busque a f. H quanto tempo voc no reza?
Ela, enxugando as lgrimas com as mos, disse:
- No tenho f em Deus. Ele me tirou tudo, a sade, o marido, a alegria de viver e at mesmo minha vida. No vou rezar.
Diana a olhou com ternura:
- No seja injusta. Deus lhe deu a vida e a d todos os dias. Mesmo tendo deixado seu corpo de carne na Terra numa cova escura, voc est aqui com o corpo astral, 
mais viva do que antes. Recuperou a sade e pode reencontrar a felicidade. Tudo depende de voc. Quando perceber que o que lhe aconteceu veio da forma negativa como 
olhava a vida, vai compreender melhor.
Flaviana soluava. Como se sentia triste! Deitou-se e fingiu que dormia. Em seu ntimo, existia um nico pensamento: o de escapar dali e voltar para sua casa. Durante 
o trajeto de volta, Diana ia falando com Gabriel:
- Acredito que Flaviana no v ficar muito tempo conosco. Ela fingiu que dormia, mas percebi claramente que quer sair daqui e, se continuar assim, acabar conseguindo.
- E uma pena, mas no podemos prender ningum aqui. O livre-arbtrio  sempre respeitado. Com isso ela vai atrasar ainda mais seu encontro com Aurlio. Para ele, 
so mais de quarenta anos de espera.
-  mesmo. Todavia o amor  paciente. Ele continuar a esperar, tenho certeza.
Eles se abraaram e seguiram para o prdio onde trabalhavam.
Flaviana, ao v-los se distanciar, levantou-se rapidamente e comeou a andar pelo lugar. Precisava encontrar a sada. Mas, quanto mais andava, mais percebia como 
o lugar era grande. Ela via pessoas montadas em cavalos passeando livremente, outras cultivando flores em jardins, mas nada daquilo lhe interessava. Anoiteceu e 
as primeiras estrelas no cu comearam a brilhar. Ela se sentou sobre uma frondosa rvore e recomeou a chorar. De repente, uma senhora negra se aproximou dela:
- Por que no volta para onde estava? J  noite!
- Quem  voc?
- Chamo-me Amlia. E, pelo tempo que estou aqui, posso garantir que  melhor aceitar; chorar no adianta.
- No posso, tenho de voltar a Terra e me vingar de quem me matou. S assim terei paz.
Amlia fez uma cara de assustada e disse:
- No saia daqui no! Atrs desses muros altos tem muitos perigos, voc vai se dar mal. Apesar de essa cidade ser muito bonita e organizada, ainda estamos no umbral, 
e circular por ele sozinho nunca acaba bem.
Flaviana no entendeu:
- No estamos no cu?
A outra riu, bem-humorada.
- No, estamos muito longe dele. Muitos acham que depois que morrem vo chegar aqui e ver Deus e Jesus, e que esto no cu. Mas nada disso  verdade. Estamos no 
umbral mesmo.
- O que  isso?
- O umbral  um local de passagem para as regies superiores. Aqui ficamos estagiando at podermos ir ao nosso lugar de origem. Pelo pouco que sei, o umbral tem 
vrias zonas. Onde ficam as colnias de recuperao, como esta,  uma zona mais amena, mas nos outros lugares h sofrimentos inenarrveis. H tambm cidades como 
esta s que voltadas ao mal.
Flaviana comeou a ficar com medo.
- Voc chegou aqui h muito tempo? - perguntou  sua interlocutora.
- Nem tanto; morri h vinte e cinco anos.
- De qu?
- Tive um cncer de pulmo. Mas fugi deste lugar e vivi horrores nas zonas mais densas do umbral. S h trs anos  que fui recolhida novamente. Mas j estou me 
preparando para voltar a Terra. Vou reencarnar! 
- Reencarnar?
- Sim, reencarnar, ou vestir um novo corpo de carne e renascer na Terra. Sabe, no fui muito boa na minha ltima vida.
- O que voc fez?
Ela lanou um olhar para o infinito, soltou o gatinho que segurava e comeou a narrar:
- Eu queria ter uma vida melhor, ser rica, da inventei que era mdium e que recebia comunicaes dos espritos desencarnados. Fingia que psicografava mensagens 
de parentes mortos e cobrava por isso. Logo estava cheia de clientes e ganhei um bom dinheiro. Quando morri, fiquei presa ao caixo durante dias e uns espritos 
horrveis, todos de preto, vieram me retirar do tmulo. Sofri muito e hoje quero voltar a Terra e reparar o meu erro. Serei uma mdium ostensiva e vou me comprometer 
com o auxlio ao prximo. Mas estou avisada de que se novamente falhar serei submetida a um processo de loucura.
Flaviana estava confusa. Seria verdade?
- Voc pode ficar louca? Vai aceitar isso?
- Vou sim. Sou muito ambiciosa. Enquanto vivo aqui estou protegida quanto s minhas iluses, mas quando reencarno fica bem mais difcil. O esquecimento do passado, 
o consumismo, o apelo do status e do dinheiro so muito fortes. Se em qualquer momento eu priorizar mais a vida material do que a espiritual, comearei a ter problemas 
mentais.  difcil, mas ser esse o remdio amargo que levar  cura de meu mal.
Flaviana olhava Amlia sem entender muito o que ela falava. Esta a convidou para ir ao salo de oraes, mas Flaviana recusou. Sentada embaixo da rvore, ela pensava: 
"No posso deixar Isabela impune. Preciso descobrir por que me matou e depois quero me vingar". A esse pensamento um acesso de dio a acometeu e ela comeou a chorar. 
Flaviana desejou tanto sair dali e se vingar que num timo se viu arremessada a um lugar muito escuro, cheio de fumaa e pessoas gemendo. Assustada, tentou se levantar 
e andar, mas seus ps atolaram numa poa de lama. Com esforo, ela conseguiu sair dali e comeou a andar, e o que via era muito diferente do local onde estava. As 
rvores estavam secas, e a vegetao rasteira e o solo lamacento davam uma impresso mrbida ao lugar. Com muito medo, ela andava sem parar, sem saber para onde 
estava indo. Olhou para o cu e ele estava coberto com pesadas nuvens escuras. Ela no conseguia ver a Lua nem as estrelas. Seria a outra parte do umbral a que Amlia 
tinha se referido? Pensou num instante. De repente, ouviu uma voz:
- O que esta dama faz a sozinha? Est precisando de companhia?
Flaviana se arrepiou inteira. Um homem magro, de rosto fino e nariz aquilino, vestindo um terno preto estava  sua frente. Tentou correr, mas no conseguiu. Sentiu 
que seus ps estavam chumbados ao cho. O homem com olhar assustador comeou a gargalhar e, de tanto medo, Flaviana desmaiou.
- Acorde acorde!
Ao despertar, ela se viu ainda no mesmo lugar e o pavor continuava. O homem sentado ao seu lado abriu um sorriso e disse:
- Sei que  uma novata; no quero lhe fazer mal. E que s vezes acho graa em assustar as pessoas,  muito divertido.
Ela, ainda trmula, respondeu:
- Pois no vejo graa nenhuma. Estou muito assustada e quero sair daqui e voltar para minha famlia.
- Bem se v que chegou agora. Sair daqui no  to fcil como pensa, mas eu posso ajud-la. Chamo-me Nicodemos e moro numa cidade perto daqui. Chama-se Cidade das 
Trevas. L voc poder morar e da voltar para ver os seus.
- Nossa que nome mais esquisito. Por que a cidade se chama assim?
- Porque l ns no vemos a luz do Sol. Temos de usar tochas e outros tipos de chamas para iluminar os ambientes. - Ele abriu um sorriso malicioso. - Tambm possui 
esse nome porque nos utilizamos do mal para atingir nossos objetivos. L o lema : "Os fins justificam os meios".
- Nossa... Depois da morte tem tudo isso, ?
- E muito mais. As pessoas acham que depois da morte perdem a conscincia ou vo viver em locais esfumaados ou nas nuvens. Quando acordam aqui, percebem que nada 
disso  verdade. Conseguimos capturar essas pessoas que durante a vida foram descrentes, atias ou acreditavam que dormiriam at o juzo final, e as colocamos para 
dormir por longo tempo. Fazemos isso para retardar o progresso delas. L na minha cidade tem cmaras onde essas pessoas ficam praticamente em estado de coma.
Flaviana pensou e respondeu:
- No quero viver l. Parece que  um lugar ruim; prefiro a colnia onde estava.
Ele sorriu mostrando as falhas da dentadura.
- Voc  que sabe, mas essas colnias so como prises. Voc no poder fazer o que deseja, e aposto que no vo deix-la ver sua famlia. J na nossa cidade somos 
livres e fazemos o que queremos. Se ficar conosco, garanto que Teodoro deixar voc v-los.
- Quem  Teodoro?
-  o novo chefe da nossa cidade. E uma espcie de prefeito.
- Ah, se for assim ento eu vou. Leve-me para l.
Eles caminharam por uma estrada ngreme e depois de uma hora chegaram a uma rua cheia de casas feias e mal construdas. 
- Aqui   entrada da cidade. Vamos que os guardas me conhecem e se lhe virem comigo a deixaro passar.
Eles passaram por diversas ruas da tenebrosa cidade e foram at o chefe. Flaviana foi apresentada a um homem branco, jovem, de rara beleza, mas com um olhar cruel 
que exalava sensualidade. Flaviana admirou-se, pois julgava que "o chefe" fosse um senhor, e havia encontrado na realidade um rapaz de, no mximo, vinte anos. Depois 
de ouvi-lo, ela foi informada de que poderia ir para a Terra ver os seus. Como acompanhante ela teria Nicodemos.Chegaram  manso que, quela hora da madrugada, 
estava s escuras. Flaviana sentiu o dio corro-la. Fora ali, em sua prpria casa, que tinha sido assassinada pela asquerosa Isabela. Na sala ela comeou a chorar. 
Depois do pranto, sentiu fome:
- Nicodemos, estou com fome. Antes de ver minha filha, quero me alimentar. Preciso estar forte para agentar v-la sem poder falar ou tocar nela.
- L na cidade no temos alimentos, mas  muito fcil se alimentar aqui na Terra. Vamos a um bom restaurante que vou ensin-la.
Flaviana no entendeu nada, mas seguiu com ele. Chegaram a um restaurante de luxo em um bairro nobre de So Paulo. Apesar do adiantado da hora, algumas pessoas ainda 
faziam refeies. Nicodemos logo sentiu apetite com o cheiro saboroso dos pratos e da carne. Olhou para Flaviana e disse:
- Voc vai chegar perto de quem est se alimentando; aproxime-se bem. A matria de nosso corpo  diferente da do corpo de carne, portanto uma penetra na outra. Fique 
perto e deixe seu corpo ser parcialmente absorvido pelo corpo do encarnado, logo sentir o prazer da alimentao como se a estivesse ingerindo. Flaviana achou estranho, 
mas, imitando Nicodemos, comeou a se aproximar de um senhor gordo que devorava prazerosamente um fil. Estranho fenmeno aconteceu. Flaviana sentiu-se intimamente 
ligada ao senhor e comeou a perceber o gosto da carne em sua boca. Gostou do que estava fazendo. Ao se sentir farta, parou. Depois percebeu que o homem continuava 
a comer sem parar.
- No sei como ele consegue comer tanto. J me fartei, e ele continua l. Veja!
- Isso acontece porque a energia dos alimentos dele ficou com voc. O que ficou para ele foi somente o "bucho". Agora, para se sentir farto, ele ter de comer o 
dobro.
Flaviana no entendeu nada, mas estava se sentindo completamente alimentada. Depois sentiu vontade de ir ao banheiro. H quanto tempo no fazia suas necessidades? 
Nicodemos a orientou para que fosse a um dos banheiros do restaurante e agisse normalmente. Ela s no devia dar a descarga, pois no conseguiria mov-la com seu 
corpo de agora. Assim ela fez. Tudo terminado, ela exigiu que retornassem para sua manso. Desse modo fizeram. Patrcia dormia e foi com emoo que Flaviana a abraou. 
Humberto, como sempre, no se encontrava, e ela ficou muito tempo abraada  filha. De repente se lembrou:
- Onde est o esprito de minha filha agora?
- E eu sei l! S sei que  noite, quando os encarnados dormem, seus espritos se libertam e vo passear no astral. Essa sua filha tem cara de boazinha. Deve estar 
em alguma colnia conversando.
Flaviana resolveu dormir na casa e permanecer l at o amanhecer.

10 - PLANO SRDIDO

Amanheceu e Humberto chegou cedo  casa que tinha alugado para Isabela viver. Ela, Eudsia e Daniel tomavam o desjejum. Fazia trs semanas que Flaviana tinha morrido 
e a vida tinha quase voltado ao normal. Isabela ia visitar Augusta vrias vezes e a "consolava" pela morte da filha. Naquela manh, ela estava irritada. Por isso, 
quando Humberto chegou, ela logo o arrastou para o quarto. Quando estavam sentados na cama, ela comeou:
- No agento mais essa situao. So trs semanas, e voc no toma nenhuma atitude. Estou perdendo minha pacincia.
Coando o bigode, ele respondeu:
- Voc ter de esperar um pouco mais. No faz nem um ms que Flaviana baixou ao tmulo e eu no posso me dar ao luxo de j me casar com outra. Tem Augusta, que pode 
criar problemas, e principalmente Patrcia. Voc sabe que eu no posso magoar a minha filha.
Isabela se contorceu de dio por dentro. Novamente aquelas duas em seu caminho. Mas, no momento certo, ela saberia se livrar delas. Tinha de ser paciente. Ao mesmo 
tempo, sentia que no podia deixar Humberto fazer o que quisesse. Se fosse assim, em pouco tempo ela deixaria de ser interessante para ele, que logo estaria com 
uma outra.
- No estou conhecendo voc. Um homem to corajoso, que se envolve com operaes arriscadas do governo, com medo de duas mulheres.
- No  isso - respondeu ele, tentando se defender. -  que temos de dar tempo para as coisas se arrumarem. Se eu chegar agora com a notcia de que me casarei novamente, 
e com a ex-enfermeira da minha mulher, o mundo desabaria sobre minha cabea. At voc teria problemas, o que desejo sinceramente evitar.
Isabela sentiu que ele falava a verdade. Apesar de sem moral, Humberto era um homem completamente discreto. Isso fazia parte do temperamento dele, e ela tinha de 
respeitar. Por isso encerrou a discusso e mesmo em plena manh o puxou para a cama, onde se entregaram ao amor.
Horas mais tarde, quando ele saiu, Isabela se maquiou, colocou uma roupa elegante e disse a Eudsia que iria visitar dona Augusta. Tomou um txi e, durante o trajeto, 
ia repensando todo o plano. Sabia que o que iria fazer poderia deixar Humberto com muita raiva, mas ela tinha de dar esse passo. O txi parou na frente da elegante 
manso onde Augusta morava, e ela relembrou o dia em que tinha sido espancada por aquele mesmo segurana que hoje a atendia gentilmente. Um dia ela ainda iria se 
vingar daquela velha intil. Na enorme sala, Augusta lia um jornal sem muita ateno quando Isabela entrou.
- Querida, que bom que est novamente aqui. No tenho muito o que fazer, e hoje estava me sentindo tediosa.
Isabela abaixou a cabea e fez um ar triste.
- Infelizmente o que vim conversar com a senhora hoje em nada vai lhe agradar, mas a tenho como minha me e no posso deixar de lhe falar o que h em meu ntimo.
- O que tem filha? Nunca a vi to triste.  problema de sade?
- Antes fosse...  um problema de conscincia. Enquanto no desabafar com a senhora e obter seu perdo, no posso ficar em paz. - Isabela deixou uma lgrima forada 
cair em seu rosto.
Augusta se ajeitou melhor no sof e, com olhos midos, fitou-a profundamente:
- O que pode ser to srio? Saiba que pode confiar. Eu a tenho como uma outra filha e sei que voc no ia fazer nada que me desagradasse.
Deixando lgrimas falsas rolarem sobre seu rosto, Isabela comeou a narrar sua srdida mentira.
- Desde que vim trabalhar na casa da sua filha, percebi que o senhor Humberto me olhava de forma diferente. Como no sou muito experiente, procurei no pensar no 
assunto, at o dia em que ele me chamou e se declarou apaixonado por mim. Fiquei muito assustada e disse a ele que procurasse me esquecer, que aquilo era impossvel, 
e at lhe passei um sermo. Mas ele no desistiu e continuou me assediando. Eu fugia o mximo que podia, porm durante uma noite ele chegou muito triste e perguntou 
se podia desabafar comigo. Fomos ento para o bar. Eu no queria beber, mas a noite estava fria e ele insistiu, at que cedi. Ele me contou que estava muito triste 
com a doena da esposa e que a amava sinceramente, mas me disse que depois que ela tinha adoecido nunca mais havia tido relaes com ningum. Pediu-me perdo por 
ter se apaixonado por mim e disse que ia deixar de me importunar. Fiquei muito feliz e no percebi que estava me excedendo na bebida. Logo ca num sono profundo 
e o pior aconteceu...
Ela fez uma pausa e percebeu que Augusta a ouvia com expresses de dio.
- Quando acordei, tempos depois, estava nua com Humberto tambm nu do meu lado. Vendo o que tinha acontecido, me desesperei e, num acesso de dio, comecei a esmurr-lo. 
Ele me revelou que havia colocado sonfero em minha bebida, pois queria me possuir a todo custo, e que eu agora lhe pertencia. A partir daquele dia, pensei em abandonar 
o emprego, mas, vendo a senhora to triste e a dona Flaviana to doente, no tive foras. Contudo, passei a evitar Humberto completamente. Quando sua filha morreu, 
pensei que tudo estivesse terminado, mas ele descobriu onde eu moro e passou a me perseguir. Chegou a fazer ameaas a uma amiga que mora comigo. Resisti em lhe contar 
isso at hoje pela manh, quando descobri o pior: estou grvida! Aquela noite me trouxe srias conseqncias.
Isabela comeou a chorar convulsivamente aos ps de Augusta, que comeou a chorar tambm de dio e pena da moa. Aps um pranto sentido, Augusta cerrou os punhos 
e vociferou:
- Aquele calhorda miservel! Teve a coragem de cometer um ato vil e degradante debaixo do teto onde minha filha agonizava. Avalio sua dor, Isabela, e a perdo.
Ela levantou o rosto inchado pelo choro, e disse:
- Mas no sei se a senhora vai me perdoar depois do que vou lhe dizer agora. Aceitei me casar com Humberto; serei a esposa dele!
Augusta assustou-se:
- Casar?
- Sim. Hoje, logo depois que fiz o exame e descobri a gravidez, ele apareceu novamente na minha casa e, pressionada, acabei revelando a minha real situao. Ele 
me pediu em casamento e eu aceitei.
- Isso jamais vou permitir. Saia da minha casa agora! - gritou ela.
- Dona Augusta, me oua! Nunca tive sorte na vida. Meus pais so pobres lavradores do interior de Gois e no podem me ajudar a criar esse filho. Apenas tenho um 
curso tcnico de enfermagem, por isso no posso me manter, nem a criana, com o que ganho. Depois, estou desonrada, nenhum rapaz vai querer me assumir e a esta inocente 
criana. No tenho alternativa. Se quiser dar uma vida digna a esse ser pequenino, tenho de aceitar ser esposa desse homem que desgraou a minha vida.
Ela chorava muito e Augusta acabou ficando com pena. Lembrou-se dos momentos de dedicao que ela tivera com Flaviana, lembrou-se da sua amizade preciosa, e nessa 
hora sua antiga raiva por Humberto falou mais alto - ele era de fato o culpado. No era justo acusar a pobre e inocente Isabela, que mais parecia um anjo.
- Levante-se! Ficando a no cho estar mais humilhada do que a situao permite. No deixarei que esse homem acabe com sua vida como fez com a de minha filha. Recomponha-se, 
vamos para a casa dele imediatamente.
Isabela estava muito feliz, mas precisava disfarar.
- No, no podemos. Se ele souber que lhe contei tudo, no me perdoar. No posso ir.
Augusta levantou-se:
- Eu saberia de qualquer maneira. Agora vamos que o tempo urge. Se Humberto est aqui  porque vai almoar com Patrcia. Chegaremos l e aguardaremos. Sei que vo 
se casar, mas antes preciso conversar seriamente com ele, que ter de garantir seu futuro e o desse ser que vai nascer.
Ela parecia estar sonhando. Seu plano resultar melhor que o esperado. O chofer as conduziu para a casa de Humberto. L chegando, no encontraram Patrcia, que s 
voltaria da faculdade a uma da tarde. Sentadas no sof luxuoso que em breve seria seu, Isabela sonhava. Resolveu reforar a cena teatral; a velha de nada poderia 
desconfiar.
- Dona Augusta, ser que  necessrio tudo isso? No penso que a senhora deva entrar em um assunto que s vai machuc-la ainda mais.
Apesar da raiva, Augusta se enterneceu:
- Voc  que foi enganada e precisa que Humberto repare esse erro. O que vou faz-lo cumprir custe o que custar.
Dali a poucos minutos, o elegante carro de Humberto entrava pelos portes da manso. Andando pelo jardim, de repente ele se lembrou de Flaviana ainda na juventude, 
cuidando da casa com carinho e dedicao. Um remorso o tomou, porm logo ele tratou. de mudar os pensamentos. Sabia que fora leviano, interesseiro e infiel, entretanto 
agora era tarde. O importante  que em breve seria feliz ao lado de Isabela. Assim, entrou na sala. Seu corao disparou. Sentiu uma vertigem e, se no houvesse 
tido muito controle, passaria mal ao ver Isabela e Augusta juntas no sof.
- Foi bom que chegou. Precisamos ter uma conversa - falou Augusta dirigindo-se para ele. Ela levantou a mo e lhe deu um tapa to forte no rosto que Humberto rodou 
nos calcanhares. As marcas dos dedos e dos anis ficaram em sua face.
- Posso entender por que me esbofeteou?
- E ainda pergunta seu canalha? Seu cafajeste!
- Quero uma explicao, desejo saber o que a ex-enfermeira de minha mulher quer aqui e por que me bateu na frente dela.
Augusta ia bater outra vez, mas agora Humberto a segurou fortemente pelo pulso.
- No se atreva ou no responderei por mim. At um homem como eu tem seus limites. No se esquea disso.
Durante a cena, Isabela se mantinha quieta e encolhida no canto do sof, fazendo o papel de vtima. Augusta se recomps e falou entre dentes:
- J sei de tudo, seu animal. Sei que fez mal a Isabela durante o tempo em que ela trabalhou aqui. Sei que a persegue at hoje e chegou a lhe propor casamento. Mas 
eu tomei a dianteira e as coisas sero como quero, ou ento o denunciarei como adltero, e tenho como provar.
Augusta repetiu toda a histria que Isabela lhe contou enquanto Humberto ouvia estupefato. Como ela tivera coragem para tanto? Mas no fundo se sentiu confortvel. 
Ele no teria mais de explicar nada  sogra; aquela histria viera mesmo na hora certa.
- Eu... Eu no resisti aos encantos de Isabela. Fiquei apaixonado e agora no posso deix-la sozinha com esse filho que ela espera. Vou me casar com ela.
- Meu Deus! Minha filha deve estar se revirando no tmulo uma hora dessas.
Patrcia entrou na sala e, ouvindo as ltimas palavras, mal conseguiu acreditar.
- Ento era por isso que eu no gostava de voc. Sempre soube que agia mal, mas nunca pensei que pudesse chegar a tanto.  uma mulher sem moral. Papai, se o senhor 
se casar com ela, leve-a para outro lugar ou sairei desta casa.
Isabela, com voz fraca se manifestou:
- Tente entender, Patrcia, no foi culpa minha. Fiz de tudo para resistir ao seu pai, mas no consegui.
Augusta a defendeu:
- Fique calma, Patrcia. Isabela nessa histria  mais vtima do que qualquer outra coisa. Depois lhe contarei o que aconteceu e voc ver como tenho razo.
- Nunca gostei de voc; algo me dizia que no era confivel. Tenho certeza de que planejou isso s para ficar com o dinheiro de meu pai.
Isabela chorava copiosamente. Foi Augusta quem terminou:
- Levarei Isabela at sua casa e depois acertaremos as coisas pendentes. Vamos, filha, no chore assim.
Patrcia estava surpresa com a atitude de sua av. Aquela mulherzinha conseguira enganar a todos, inclusive Augusta, uma mulher experiente e vivida. A ss com o 
pai, ela lhe lanou um olhar de indignao:
- Eu esperava tudo do senhor, menos isso.
- Filha, tente entender... O amor acontece e no temos culpa.
- A desculpa  o amor. Por isso no vou me entregar a esse sentimento nunca. Foi por ele que minha me foi infeliz e terminou doente e morta. E  por ele que voc 
e essa mulherzinha andaram cometendo atos indecentes. Nunca amarei.
- Patrcia, no  isso o que me dizia quando conversvamos. Voc aprendeu muito no centro que freqentava e me dava grandes lies. Por que mudou to de repente?
- Concluo hoje que s vivi a teoria; da prtica ainda estou distante. No sei quando poderei perdo-lo.
Ela subiu as escadas e foi se trancar em seu quarto. Humberto no almoou. Pediu que retirassem a mesa e ficou pensativo durante horas. O que estava fazendo seria 
realmente certo? O que ele nem ningum suspeitava era que Flaviana e Nicodemos estavam ali acompanhando os fatos minuciosamente. Ela chorava, esmurrava as paredes 
e o cho. Nicodemos no sabia mais o que fazer para acalm-la. Ouvindo aquela histria criada por Isabela, Flaviana estava descobrindo o real motivo de sua morte. 
S no entendia uma coisa: se Isabela fora violentada por Humberto e no o desejava, por que a tinha matado? Fora Flaviana quem inspirara Patrcia a dizer todas 
aquelas palavras de indignao. Depois deixara Nicodemos com Humberto e subira com a filha para o quarto. Patrcia no conseguia parar de chorar. Aps muito tempo 
deitada pensando no sofrimento que a me tinha passado com uma enfermeira que lhe roubava o marido, resolveu rezar. Aprendera no centro que a prece reconforta e 
alivia, e o que ela mais precisava era de alvio. Depois de sentida prece a Jesus, sentiu-se melhor. Flaviana viu que o esprito de uma mulher passava as mos pelo 
corpo de sua filha e derramava energias coloridas sobre ele. Nunca, quando estava viva, pensou que isso pudesse acontecer. A mesma mulher, quando terminou, olhou 
para ela e disse:
- Deus fique com voc. - Em seguida desapareceu.
Pela manh, quando a casa despertou, ela acompanhou Patrcia enquanto tomava caf. Percebeu que sua filha tinha proteo e por isso Nicodemos no conseguiu tomar 
caf junto com ela, como pretendia. Como sua filha era linda! Quando a viu sair para estudar, abenoou-a e chorou muito. Como seria bom se estivesse ainda no mundo 
e com sade! A manh havia transcorrido sem nenhuma novidade, at que apareceram sua me e Isabela. O dio tomou conta de Flaviana e ela tentou estrangul-la. Mas 
uma fora estranha a arremessou para o outro lado da sala e ela caiu com estrondo. De repente, um esprito de aspecto feio e olhar de dio se aproximou:
- Essa a  minha protegida, faz tudo que quero. Ningum toca nela; se tentar outra vez se arrepender amargamente.
- Dizendo isso, o esprito se retirou e foi postar-se ao lado de Isabela.
Nicodemos se aproximou:
- Como ousou fazer isso? Essa a tem proteo de pessoas poderosas; no podemos nos meter com eles. E melhor desistir.
- Mas no  justo, Nicodemos. Ela me assassinou e continua livre, e o pior: na companhia de minha me. Temos de fazer alguma coisa para destru-la. 
- Sei que est ansiosa, mas temos de esperar. Pela roupa que aquele esprito usa, ele vem da Cidade Perversa, um lugar cujos moradores corrompem os encarnados por 
meio do sexo desenfreado e perverso. Eles so poderosos e bem organizados. Nossa cidade no pode com eles.
- Nossa! Mas hei de conseguir. Vamos ficar atentos e ver como conseguiremos. Voc tem de me ajudar, Nicodemos.
- Ajudarei.
De repente Flaviana apurou mais a viso e viu uma mulher vestida com um hbito preto de freira. Flaviana no gostou daquela mulher, que, apesar de no se aproximar, 
a olhava cinicamente.
- Quem  aquela freira?
- No sei - respondeu Nicodemos. - Deve ser o esprito acompanhante da sua me. Pelo visto, essa freira no  nada boa. Quando vejo uma pessoa da luz logo reconheo, 
e essa a est longe de ser iluminada.
Nicodemos estava certo. Irm Celeste era uma antiga freira cujo fanatismo a fez cometer atos de violncia, tortura e morte alguns sculos atrs. Augusta tambm fora 
freira junto com ela e participava dos mesmos atos. Quando Augusta reencarnou, Celeste ficou vagando no astral at o dia que a reencontrou e no a deixou mais. Era 
ela quem guiava quase todos os passos de Augusta.

11 -  HORA DA VINGANA

No carro com Augusta, Isabela seguia nervosa. No poderia deixar aquela velha entrar em sua casa sob hiptese nenhuma. Por enquanto ela no poderia saber que tinha 
um filho. O que fazer se ela cismasse em entrar? O carro parou na frente da casa e Augusta estranhou o fato de Isabela, apesar de ser to pobre, morar numa casa 
que no era to pequena e situada num bairro de classe mdia. Isabela desceu do carro e fez um ar de descontente:
- No posso convid-la a entrar. Minha casa humilde a deixaria constrangida. Por fora  bonita e bem-acabada, mas quase no possuo mveis e o que tenho est um tanto 
gasto.
Augusta sorriu:
- Mas a nossa amizade est acima de qualquer coisa. V, deixe-me entrar e me convide para um ch ou um caf.
Isabela ficou sem cor. Ela no poderia entrar de jeito nenhum; tinha de achar uma sada.
- Dona Augusta, no irei me sentir bem em receb-la em minha casa. Peo que no insista. Sinto vergonha em no ter nenhum assento decente para a senhora. Perdoe-me, 
mas ser convidada de honra na casa que era de sua filha e que por um golpe duro do destino acabar em minhas mos.
- Bom, se quer assim, aceitarei. Mostra mais uma vez o quanto  bonita de alma. Fico pensando no triste destino das mulheres que passam pelas mos de Humberto. Se 
no fosse pela gravidez, juro que encontraria um homem decente que se casasse com voc.
- A senhora  muito bondosa mesmo.
- Deixe-me ir. Quero que saiba que comprarei todo o enxoval do beb com voc, pea por pea.
Deu um beijo na moa e foi embora. Ao entrar em casa, ela no se conteve e abriu um largo sorriso. Abraou Daniel e beijou Eudsia. Finalmente tudo estava indo como 
planejado. Depois do susto da situao, Humberto at iria agradec-la. Passou o resto da tarde cantarolando e naquela noite dormiu muito bem. Como Isabela tinha 
planejado, aps ficar vivo, o senador Humberto Aguiar j estava casado. A cerimnia teve grande pompa e a mais fina sociedade paulistana compareceu. As pessoas 
comentavam a pressa de Humberto em se casar to rapidamente, mas logo esqueciam ao ver a beleza da noiva e ao participarem da elegante recepo num clube famoso. 
Patrcia havia aceitado o fato e j conseguia conversar normalmente com sua madrasta. Durante a recepo, Isabela teve sua ateno voltada para um belo rapaz moreno 
claro, muito bem vestido, olhos amendoados, corpo bem-feito, que exalava sensualidade. Ele acompanhava Patrcia e, entre um cumprimento e outro, ela se aproximou:
- No vai me apresentar seu amiguinho, Patrcia? 
- Ah, sim. Este  Fernando, meu namorado.
- Namorado? Como nunca o levou  nossa casa?
- Ele j foi, mas voc no se encontrava.
Fernando abriu um belssimo sorriso e seus olhos penetrantes procuraram os de Isabela, no que foi retribudo. No resto da noite eles continuaram se olhando sem parar. 
Nem Patrcia, nem Humberto perceberam nada. At aquele momento, Isabela havia conseguido esconder Daniel de todos. Eudsia ficava com ele o tempo inteiro e Isabela 
planejava apresent-lo depois. Tanto falou que acabou convencendo Humberto. Todos achavam que ela era uma mulher solteira e sem filhos; s Augusta e Patrcia sabiam 
da suposta gravidez. A lua-de-mel foi um passeio em cidades da Europa. Isabela no sabia se portar bem, mas Humberto no a deixava cometer nenhum tipo de gafe. No 
final, ela at se comportou bem, tendo em vista que sara de uma favela miservel. Um ms depois estavam de volta e Augusta providenciou uma pequena festa para receb-los. 
Isabela ficou feliz ao perceber que Fernando estava l. Ao v-lo, ela sentia seus desejos aumentarem e no via a hora de tom-lo de Patrcia e faz-lo seu amante. 
E claro que ela iria conseguir. Com o dinheiro que tinha agora poderia fazer o que quisesse. Apesar disso, ela foi formal com ele e ningum desconfiou. No outro 
dia pela manh, ela pediu a Humberto que contratasse novos seguranas para a casa, pois os queria de sua confiana, no que logo foi satisfeita. Uma semana depois, 
sem que ningum soubesse, ela pediu a Eudsia que fosse para a manso. Havia chegado  hora. No mesmo dia, ela convidou Augusta para um ch. Quando a velha senhora 
chegou, encontrou tudo arrumado na mesa e Isabela  sua espera.
- Que bom que a senhora veio. Hoje ser um dia muito especial para ns duas. Tenho muitas surpresas e gostaria de compartilh-las. Mas antes vamos ao ch.
Augusta pegou sua xcara, adoou e, antes de se sentar, recebeu um tapa to forte no rosto dado por Isabela que tonteou e caiu no cho. Aturdida, ela no sabia o 
que pensar. Isabela comeou a gargalhar alto, parecendo uma bruxa, como se representasse em um filme de terror. Gargalhava tanto que o som de sua risada poderia 
ser ouvido por toda a manso.
-  a o lugar onde a senhora sempre deveria ter estado: no cho!
Augusta sentia dio, mas ao mesmo tempo no entendia o que estava acontecendo.
- Levante-se, o show est apenas comeando.
- O que est acontecendo?
- Calada! Aqui quem manda sou eu. Sou a dona absoluta desta casa e a senhora vai fazer o que eu quiser.
Augusta continuava sem saber o que ocorria.
- Sei que voc no est entendendo, mas vou lhe explicar. Acabou a farsa, dona Augusta. Eu a odeio e meu desejo  v-la morta. Como no posso mat-la, vou humilh-la 
o mais que puder. Em sua cabea suja voc nada est compreendendo, mas ser que a senhora no se lembra de uma mendiga com o filho nos braos que lhe pediu um prato 
de comida, a qual a senhora mandou espancar?
Nessa hora, Eudsia entrou e trouxe Daniel nos braos.
- Lembra-se dessa criana?
Augusta sentia-se tonta. No conseguia organizar os pensamentos. Subitamente, lembrou-se. Veio-lhe  mente o dia em que mandara espancar uma mendiga insolente que 
ousara desafi-la. Sem coragem para ouvir a resposta, ela perguntou:
- Vo... Voc  aquela mendiga?
Novas gargalhadas.
- Eu era a mendiga! Agora sou Isabela Aguiar. Nunca fui sua amiga. Sempre a odiei mais do que tudo. Agora posso confessar, porque hoje quem manda aqui sou eu. Roubei, 
sim, o marido de sua filha. Ele me encontrou num bordel e me trouxe para esta casa. Durante as noites nos amvamos no quarto ao lado de onde sua filha esqueltica 
dormia. Tramei o plano passo a passo, e hoje, com sua ajuda, sou a esposa dele. Agora saia daqui e nunca mais coloque os ps nesta casa.
- Mas minha neta mora aqui...
- Por pouco tempo. Nela tambm darei um jeito.
Nunca Augusta sentira tanto dio em sua vida. Com voz rouca, ela balbuciou:
- Fique certa de que isso no ficar assim. Voc no viver para usufruir de sua ousadia, nem voc nem esse filho que carrega no ventre.
Mais gargalhadas.
- Filho? Nunca existiu filho nenhum aqui dentro; fazia parte da farsa na qual voc caiu. Para Patrcia tratei de dizer que perdi a criana durante a viagem. Ah, 
e aquela casa onde no a deixei entrar no era to pobre quanto  senhora imaginava. Humberto a alugou para mim e tinha tudo, do bom e do melhor. Agora saia! Est 
esperando o qu, velha asquerosa?
Augusta chorava de raiva. Ao sair deparou com um homem forte e musculoso. Isabela logo apareceu na porta.
-  essa a, Amaral. Faa o que pedi.
O homem, ao olhar aquela senhora que poderia ser a sua av, ou me, sentiu pena.
- Senhora, no terei coragem. Melhor desistir da idia.
Isabela estava com os olhos esbugalhados pelo dio.
- Faa o que pedi ou ser demitido agora mesmo. Sei que tem mulher e filhos, e se perder esse emprego ficar na misria. Eu mesma farei com que voc fique sem trabalho; 
 pegar ou largar.
Amaral, vendo que no havia outra maneira, segurou Augusta, que, pressentindo o que iria acontecer, comeava a correr. Espancou-a e depois a jogou na calada, fechando 
o porto de grade. Augusta, humilhada e sem conseguir andar, esperou que o chofer a recolhesse do cho e a colocasse no carro. Adonias o fez sem entender o que havia 
acontecido. Ia perguntar quando Augusta respondeu:
- Sem perguntas, mantenha-se calado. Vamos para um hospital, rpido!
Poucos instantes depois, sem saber de nada, Patrcia chegava em casa. Encontrou Isabela calmamente tomando o ch que havia preparado tendo a seu lado Eudsia e Daniel.
- Ol, Isabela! Quem so eles? Quem  esse beb lindo e formoso?
- Patrcia, temos de levar uma conversa sria. Eu sou a me desta criana.
- Como assim? No consigo entender! Voc j  me?
- Sabe como ... Humberto quis esconder esse fato de todos, at que os comentrios amainassem. Mas agora disse que eu j poderia traz-lo para morar nesta casa. 
Esta  Eudsia;  ela quem cuida dele.
- Estou surpresa! Nunca poderia imaginar que voc, sendo to jovem, pudesse j ter um filho.
Patrcia era um esprito bom. Logo perdoava as ofensas e havia de pronto se afeioado ao beb, que lhe sorria inocentemente.
- Que bom que vieram morar conosco. Essa casa  muito grande. Meus irmos morreram e essa manso ficou muito vazia. Casa cheia  bom. Pretendo morar aqui quando 
for me casar. Mas estou curiosa: o que foi feito do pai de Daniel?  o papai?
Isabela jamais iria revelar que um dia fora Clotilde e que havia sido estuprada. Pensando rpido, retrucou:
- No, absolutamente! O pai dele morreu quando eu ainda estava grvida. Era um pobre lavrador de Gois, terra onde meus pais residem.
-  estranha essa ligao com seus pais. Eles nem sequer compareceram ao seu casamento!
- So pessoas simples do interior. Insisti para que viessem, mas no querem se misturar com o mundo dos ricos, como eles chamam. Tenho de respeitar.
Patrcia, apesar de agora gostar de Isabela, sentia que ela era exmia na arte de mentir e sabia que aquelas histrias estavam sendo mal contadas. De qualquer maneira, 
se Daniel fosse seu irmo ela acabaria sabendo. Depois de dar as boas-vindas aos novos moradores, Patrcia foi para seu quarto. Diana, Gabriel, Marcos e Alfredo 
estavam ali presentes observando a cena. Flaviana e Nicodemos tambm. Eles haviam passado o tempo todo tentando envolver Isabela, mas no tinham conseguido. Marcos 
perguntou a Diana:
- Por que nossa me no se lembra de ns?
- E porque ela est to envolvida pelo dio e querendo vingana que se esqueceu de todo o resto. No consegue perceber que ns estamos aqui.
Foi  vez de Alfredo dizer:
- Isso mesmo. Para ela, no existimos.
- Tambm no  assim... Em breve Flaviana vai se lembrar de vocs e poder ser o instante em que decida esquecer seus planos. Deus a auxilie para que isso acontea.
- Tem horas que acho a vida injusta. Se eu e meu irmo estivssemos vivos, as coisas poderiam ter sido diferentes. Meu pai comeou a se desinteressar pelo lar depois 
que ns desencarnamos.
Diana explicou:
-  que, apesar do tempo de desencarnados e dos estudos que fazemos juntos, vocs ainda no conseguiram entender como as leis divinas funcionam. Deus rege o universo 
com sabedoria e amor. O que acontece na Terra primeiro passa pela permisso Dele. Sem isso, nada em nossa vida  feito. Vocs no podem esquecer que desencarnaram 
cedo porque foram suicidas na vida anterior. Antes de renascer, pediram uma vida curta, caso tivessem uma educao permissiva e voltada para o mal. Apesar de suicidas, 
se fossem guiados para o caminho do bem pelos pais, Deus lhes concederia uma moratria e viveriam uma vida longa sobre a Terra, na qual, pelo bem, poderiam se reajustar 
com o passado de crimes. Todavia, Humberto os estava preparando para uma vida exclusivamente material e corrupta. Naquele momento, seus espritos escolheram desencarnar 
a ter de falir mais uma vez.
Eles ficaram calados. Gabriel perguntou:
- Ento  por isso que h pessoas que desencarnam em plena juventude?
- Cada caso  um caso, mas podemos afirmar sem erro que se todos vivessem uma vida voltada para a espiritualidade, para o bem; se no se desviassem dos planos que 
traaram no astral para a prpria redeno, no haveria mortes prematuras. A bondade divina quer que todos os encarnados tenham vida longa para que possam aproveitar 
bem as lies que a Terra oferece. Quanto mais se vive encarnado, mais se  til e mais se aprende. Infelizmente muitos tm de voltar antes do tempo previsto ou 
escolhem uma encarnao curta com medo de falhar. Foi assim com Marcos e Alfredo; eles preferiram fugir a ter de enfrentar as tentaes, e os desafios.
Gabriel no estava satisfeito:
- E porque Deus permite que esses espritos assim escolham?
- Porque Ele no interfere no livre-arbtrio de ningum. Quando os espritos retornam da Terra aps um perodo curto, geralmente percebem o quanto estavam iludidos 
com a escolha e pedem logo para voltar e continuar aprendendo. Deus  extremamente sbio. Se permite que escolhamos caminhos dolorosos  porque sabe que  por intermdio 
deles que aprenderemos o valor e a fora do bem.
Marcos e Alfredo deixavam lgrimas rolar por seu rosto, mas Gabriel continuava curioso:
- E Isabela, at onde ir com seus enganos?
- Rapidamente ela colher os resultados de suas atitudes. Isabela, como voc a chamou,  parecida com cada um de ns. Infelizmente, muitas vezes nos esquecemos de 
que nada nesta vida  para sempre, e por isso cometemos muitos enganos, que nos custaro anos de sofrimento. Se as pessoas soubessem como tudo na vida  passageiro, 
todo o sofrimento da Terra estaria terminado.
- Como assim? - quis saber Marcos.
- Tudo que temos na vida de bom ou de ruim um dia passar. O movimento  lei do universo e nada pra, portanto em nossa vida nada  to seguro quanto imaginamos. 
Quem pra atrai a dor e o sofrimento. Quando todos entenderem que nada  para sempre, certamente deixaro de sofrer, principalmente por medo, ansiedade e angstia. 
Clotilde achava que sua vida na favela seria eterna. No confiava em Deus; ignorava que ele tem o poder de modificar nossa vida quando temos f, por isso comeou 
a agir no mal. Agora, como rica, tambm pensa que sua situao  definitiva, e continua cometendo barbaridades. Logo perceber o quanto estava iludida. Assim  com 
a maioria das pessoas. Quando vivem um problema, uma situao dolorosa acreditam que isso nunca passar e em nome disso agem mal e impulsivamente. O ser humano sofre 
muito por agir pelos impulsos do momento. s vezes, uma ao de um minuto  to malfica que vai destruir todo o bem que est programado para nosso caminho. A falta 
de f  ainda o maior problema do ser humano.
- Quer dizer que as coisas boas tambm passam?
- Sim. Mas elas s passam quando nos vo conduzir a algo melhor, ainda que por meio do sofrimento momentneo. Precisamos aprender que o que nos acontece  para o 
melhor; essa  uma lei da vida.
- Minha me acreditou que seu casamento era para sempre, que meu pai iria ser fiel. Esse foi o erro dela.
- No diga que foi um erro; foi simplesmente uma forma de pensar. Todas ns, mulheres, somos ensinadas a acreditar no sonho de amor. S que a realidade supera o 
sonho e na maior parte das vezes no queremos enxergar. Acreditar no casamento eterno, na perfeio e fidelidade do marido, apesar de ser ilusrio, ainda povoa os 
sonhos de muitas mulheres. Elas ignoram que no existe pessoa perfeita na Terra e que as relaes obedecem ao nosso ciclo de aprendizagem, todas um dia terminam, 
seja na Terra, seja no astral, para dar incio a novas etapas de progresso dos envolvidos; isso  certeza. Ademais, esperar dos outros aquilo que eles no nos podem 
oferecer  uma utopia e sempre nos faz sofrer. As pessoas no esto no mundo para satisfazerem os desejos egosticos dos outros, esto para aprender a crescer e 
evoluir, e como evoluir sem o direito de liberdade e escolha?
Finalmente eles entenderam. Diana os chamou para voltarem  colnia onde viviam. Deixaram l Flaviana e Nicodemos, obstinados em prejudicar Isabela.

12 - DE VOLTA A ANTIGOS HBITOS

A partir do dia em que foi to humilhada e aviltada por Isabela, Augusta entrou em depresso profunda. Perceber que fora ludibriada e que tinha uma inimiga dentro 
de sua prpria casa abateu-a profundamente. J no saa s compras, no visitava amigas nem recebia visitas. Percebendo seu sumio, Patrcia foi procur-la e ainda 
viu algumas marcas da agresso em seu corpo, embora Augusta tivesse dito que sofrer uma queda e que no estava podendo andar direito. Todavia, ela nunca mais apareceu 
na manso. Pensou em revelar a verdade a Patrcia e Humberto, mas quem acreditaria? Certamente Isabela desmentiria tudo e ainda iria se fazer de vtima. O remdio 
foi se calar. Augusta chorou bastante durante aquele tempo. Sentia saudades da filha e muita solido, afinal morava praticamente s numa casa imensa. A depresso 
era to grande que ela no tinha mais foras nem para odiar; sentia-se morta. O desaparecimento de Augusta em muito agradou a Isabela, que continuava levando vida 
boa na riqueza. Humberto quase no deu por falta da velha senhora, atribuindo seu sumio ao fato de a filha ter morrido e de ela no suportar outra assumir o lugar, 
mesmo que fosse uma amiga. O casamento de Isabela com o senador foi noticiado em todas as revistas e jornais nas colunas sociais. Um dia, praticamente por acaso, 
Juvncio parou numa banca de jornal e acabou lendo uma das reportagens. Nela havia detalhes da cerimnia, onde passaram  lua-de-mel e at mencionava o endereo 
da bela manso onde vivia o casal. Pensando em conseguir dinheiro para sustentar seu vcio nas drogas, ele resolveu procurar Isabela. Para isso esperou passar o 
perodo da lua-de-mel e, quando viu que era a hora certa, rumou para l. No foi difcil para ele encontrar a casa. Ao chegar, viu Isabela no jardim com uma empregada 
e Daniel, que brincava satisfeito. Chamou o segurana e disse que queria conversar com a dona da casa. Isabela sentiu faltar o cho ao deparar com o homem que um 
dia a violentara sexualmente.
- No conheo esse senhor, Amaral. Pea que se retire daqui imediatamente.
Juvncio no perdeu a chance:
- Se no quiser atender, conto tudo que sei sobre sua vida e ainda recupero o que  meu de direito.
Ao ouvir aquelas palavras, ela resolveu ceder. Nunca em sua vida imaginava que iria rever aquele homem horrvel. Ela se aproximou do porto e pediu que os seguranas 
se afastassem.
- O que deseja? Aquela moa boba de antes morreu completamente. Aqui est agora uma mulher rica e poderosa. No tente nada contra mim ou se arrepender amargamente.
- No pense que est assim to por cima. Posso destruir sua vida contando seu passado e tomando Daniel para mim. Ou me d dinheiro ou quem vai se arrepender  voc!
- Meu marido me ama e no vai se importar se conhecer minha origem. Nada vai conseguir contra mim.
- Posso ir  Justia reclamar meus direitos de pai e, se no conseguir, sabe que posso seqestr-lo ou fazer qualquer mal a ele? Est em suas mos a deciso.
- No posso acreditar no que diz. Como pode falar isso do seu prprio filho? Aqui no  o momento para conversarmos; vamos marcar em outro lugar.
- No  bem assim. Quero dinheiro. Ou me d a quantia de que preciso ou transformo a vida do seu filhinho em um inferno.
Ao olhar Daniel brincando to inocentemente, Isabela ficou preocupada. O que aquele homem poderia fazer? Sentiu medo.
- Diga quanto quer que vou providenciar. Mas que seja a ltima vez.    
Ao ouvir a quantia, Isabela quase desmaiou.
- No tenho como conseguir tudo isso. Desista.
- Voc  quem sabe. S que voc vai ser a mais prejudicada. No ama tanto o seu filhinho?
- Cretino cafajeste! Vou arrumar o que me pede. Ligue-me na segunda s trs da tarde. Nesse horrio ningum est em casa e poderemos nos falar e marcar um lugar 
para a gente se encontrar.
Juvncio pegou um papel, anotou o nmero e saiu satisfeito. Isabela entrou. J escurecia e comeou a ventar forte. Naquela noite Humberto no estava em casa e ela 
se sentia aliviada por isso. No iria conseguir atur-lo com aquele problema para resolver. Depois que Daniel dormiu, ela foi para a banheira, encheu-a de sais e 
comeou a tomar um banho relaxante. Precisava pensar friamente no que iria fazer. Ceder  chantagem iria coloc-la em uma situao ruim, pois ele sempre exigiria 
mais. Todavia, ela no podia deixar de fazer o que ele queria, seno poderia colocar a vida do seu filho em risco. Mesmo sendo rica e cheia de pessoas que a protegessem, 
ela sentiu medo. Ouvia falar de pessoas ricas que, mesmo com todo o dinheiro do mundo, tiveram seus filhos ou parentes seqestrados e mortos, e sentiu um frio percorrer 
seu corpo. No poderia imaginar seu filho sofrendo. Passou mais de uma hora na banheira. Depois saiu e com um confortvel roupo foi para a cama. Tentava encontrar 
uma soluo e no conseguia, por mais que pensasse. De repente, uma idia surgiu em sua mente e foi tomando forma. Ela a achou perfeita. Como no havia pensado nisso 
antes? Interfonou e pediu que Amaral fosse at a garagem, pois ela precisava muito falar com ele. Patrcia dormia e ningum perceberia que conversavam. Frente a 
frente com o motorista, que a partir daquele dia se tornaria seu cmplice, ela disse:
- Amaral, voc tem de encontrar um lugar deserto, de preferncia uma casa pequena e isolada. Preciso de um encontro e no quero que ningum saiba.
Ele balanou a cabea:
- Senhora, no desejo me envolver com esses assuntos. No posso perder meu emprego, muito menos trair a confiana do senhor Humberto. No posso fazer o que me pede.
- Pode e vai fazer. Sei que tem uma famlia, me doente, e se no fizer isso perder o emprego hoje mesmo. Posso contar a Humberto que tentou fazer sexo comigo  
fora e ser pior para voc. Eu mesma cuidarei depois para que no encontre nenhum emprego.
- Tudo bem. A senhora, como sempre, venceu. Encontrarei o local que me pede.
- Mas tem de ser rpido. Hoje  sexta-feira e quero isso para segunda  tarde. Humberto chega esse fim de semana e no quero que desconfie de nada, por isso no 
me dirija  palavra. Segunda pela manh conversaremos.
O fim de semana pareceu eterno para Isabela. Humberto estava meloso e a queria a todo o momento. O que ela mais gostou foi ter a presena de Fernando no domingo 
na piscina. Ela flertava com ele discretamente e sabia que era correspondida. Porm, naquele dia, tinha de se concentrar no que pretendia fazer. Finalmente a segunda-feira 
havia chegado. Humberto tinha viajado e a casa estava vazia. Ela saiu e pediu ao taxista que a deixasse numa loja. Esperou. Poucos minutos depois, Amaral apareceu.
- Vejo que  eficiente. Vamos, quero conhecer esse local para ter certeza se  realmente bom. Depois preciso de um treinamento seu.   
- Treinamento?    
- Sim. Na hora explicarei.
Eles tomaram um txi e foram se afastando do centro. Quando chegaram prximo ao local, dispensaram o carro e seguiram a p. Foram ter em uma espcie de cabana que, 
apesar de isolada, de onde se localizava podia se avistar algo parecido com uma favela.
- Aqui  o local perfeito. Agora vamos ao treinamento.
Mesmo a contragosto, Amaral ensinou o que ela deveria fazer, ainda que soubesse que estava cometendo um erro.
J em casa, ela esperou ansiosamente o telefonema.
- Al? - Era a voz de Isabela atendendo o to esperado telefonema.
- Sou eu. Desejo saber se nosso encontro est combinado para hoje e se tem  quantia. Tem de responder que sim, pois no estou acostumado a esperar.
- Tenho sim. Vou passar o endereo do lugar aonde vamos nos encontrar. Mas estou avisando: ser a primeira e ltima vez. Nunca mais desejo ver seu rosto repugnante 
na minha frente.
Juvncio sorriu ironicamente.
- Calma, Clotilde, no precisa ficar assim to nervosinha. Tudo s depende de voc.
Ela, muito irritada por ter sido chamada por seu verdadeiro nome, resolveu dar um basta na conversa e passou logo o endereo.
- No final dessa rua tem um terreno baldio com uma cabana abandonada.  l que vamos nos ver. At mais.
Ela ficou por ali com Daniel e Eudsia at chegar  hora do almoo. Patrcia estava encantada com o filho de Isabela e no cansava de brincar com ele. s trs da 
tarde, Isabela, pretextando um dor de dente, pediu que Amaral tirasse o carro e a levasse ao dentista. Patrcia se ofereceu para ir com ela, mas recebeu uma negativa.
- V estudar no se importe. Seu pai me deu o endereo de um timo dentista e o Amaral vai comigo.
Assim saram. No carro, ela indagou:
- Ela est pronta como pedi?
- Sim senhora. Mas acho que vai cometer um erro muito grande. No vou ser testemunha; deixarei a senhora no final da rua e ficarei no carro.
- Nada disso, voc vai comigo at o fim. E se ele tentar me imobilizar? Quero t-lo ao meu lado. E j sabe que no aceito um no. Ou isso, ou perde o emprego.
Amaral aceitou, porm sabia que aquilo no ia terminar bem. Nunca em sua vida havia se metido num caso como esse. Contudo, preferia ajudar a nova patroa a ficar 
sem dinheiro para sustentar sua famlia e sua me doente. Chegaram. Isabela retirou do carro um pacote marrom e entrou na cabana. Poucos instantes depois Juvncio 
apareceu. Estavam os trs reunidos, quando ele falou nervoso:
- Vamos, passa a grana. Ainda vou contar para ver se tem a quantia certa. Quero ter certeza de que no est me enganando.
Ela passou o envelope e ele abriu com rapidez. Aps contar as cdulas, gritou:
- Mas aqui no tem nem a metade. Voc est me enganando, |sua ordinria! - Dizendo isso, ia avanando sobre ela quando, de repente, viu um revlver apontado em sua 
direo.
- Basta! Fique longe. Sempre desejei sua morte desde o dia em que acabou com minha juventude com aquele estupro. Como desejei matar voc! Mas o que eu podia fazer 
morando naquela favela horrorosa sem ter ningum que cuidasse de mim? Agora tudo mudou. Sou rica e mulher de um senador. Posso tudo, e voc vai morrer e conhecer 
os horrores do inferno.
- Calma, Clotilde, vamos conversar. Sou pai de seu filho, pense no que vai fazer...
- Voc nunca ser o pai do meu filho. E um miservel, que vou fazer um favor em tirar do mundo. Deus est guiando minhas mos nesse momento.
Ela no pensou em mais nada. Comeou a atirar sem parar at que viu o corpo dele inerte no cho. Vendo-o ainda respirando, ela se aproximou, mirou seu crebro e 
atirou pela ltima vez. Depois gargalhou dizendo:
- Morra seu verme.
Ela parecia estar em transe. Quando voltou ao normal, recolheu o dinheiro e saiu do lugar deserto com Amaral, nica testemunha do seu crime.
Tempos mais tarde, chegou em casa como se nada tivesse acontecido.
- Ol, Patrcia. Onde est o Daniel?
- L em cima com Eudsia. Brincou at cansar. Acho que agora pegou no sono.
- Vou subir e tomar uma ducha estou precisando.
- Isabela, preciso conversar com voc. Tem um tempo para mim agora?
Ela sentiu que era um assunto srio. Nunca Patrcia a havia chamado dessa forma.
- Em que posso ser til?
- Desejo a sua sinceridade. O que houve entre voc e a minha av? 
Apanhada de surpresa, Isabela no soube o que responder. Precisava inventar uma mentira com rapidez.
- Olha Pati, no gosto muito de falar nesse assunto porque me magoa bastante...
Patrcia olhou firme para ela.
- No seria minha av quem deveria estar muito magoada com voc?
- No sei o que a dona Augusta lhe falou, mas, se quer saber a verdade, vou lhe contar. Sua av era muito minha amiga, como voc mesma sabia. Depois que lhe disse 
o que tinha acontecido entre mim e seu pai, ela fingiu aceitar. At me ajudou no casamento. Contudo, depois que voltei da lua-de-mel, ela me chamou e me falou coisas 
horrveis. Disse que havia descoberto a existncia do meu filho e que eu no serviria para morar na casa que tinha sido de sua filha. Fui muito humilhada e ela jurou 
que eu no viveria para usufruir desse casamento. Confesso Patrcia, que tenho medo, muito medo do que a dona Augusta possa fazer contra mim.
Patrcia sentiu que algo nela no era verdadeiro. Ela continuava a freqentar o centro esprita e tinha intuio aguada. Tentava fazer o possvel para agradar a 
Isabela, mas algo lhe dizia que havia uma coisa muito errada naquela histria.
- Estranho, minha av no quer tocar no assunto e est h mais de um ms depressiva. Nem sai mais de casa. Levou uma queda, que machucou muito seu brao, e est 
fazendo fisioterapia porque eu insisti. Ela, que era ativa, religiosa, gostava de viajar, visitar as amigas, agora parece um farrapo humano.
- Sinto muita pena dela, mas no posso fazer nada. Ela no me aceita como amiga e deve estar assim por sentir falta da dona Flaviana e por me ver no lugar dela. 
Creia Patrcia, aprendi a gostar de seu pai, mesmo a contragosto, e acho muito justo ele reconstruir a famlia.
- Entendo. Deve ser impresso minha ento. Bom, pode subir. Vou me encontrar com Fernando. Iremos ao centro esprita.
- Ele tambm  esprita? - interessou-se ela.
- No,  apenas simpatizante. Vai porque eu vou.
- Ah, se me convidasse, bem que eu poderia ir.
- Ento est convidada. As segundas so palestras instrutivas a respeito da espiritualidade; no meio da semana h outras tarefas.
- Irei, sim.
Terminada a conversa, Isabela subiu. Sorriu da ingenuidade de Patrcia. Mas ela iria us-la para se aproximar de Fernando. Desde o dia em que o vira tencionava t-lo 
como amante. Ele era um rapaz extremamente atraente, de olhos amendoados, alto, cabelos lisos que lhe emolduravam o rosto, pele clara, musculoso, e Isabela se deixava 
levar em pensamentos, antevendo o prazer que sentiria ao lado dele. Havia se esquecido por completo de que deixara um inimigo desencarnado por suas mos em estado 
de completo alheamento. Na cabana abandonada, o corpo de Juvncio jazia lavado em sangue. Passados alguns instantes aps seu esprito estar inconsciente, acordou 
ainda preso ao corpo. No conseguia entender o que estava se passando. Tentava se levantar, mas no conseguia. De repente, estranho fenmeno aconteceu. Ele parecia 
haver se duplicado. Estava fora do corpo e via seu cadver todo cheio de balas, ensangentado e inerte no cho. Desesperado, tentou correr do lugar, mas no conseguiu. 
Sentia-se puxado ao corpo inerte e mais uma vez estava dentro dele. Juvncio nunca sentiu tanto medo e pavor em sua vida quanto agora. Os dias passaram e ele continuava 
no mesmo estado. Por que ningum o socorria? Sentia seu corpo exalar um terrvel mau cheiro e suas carnes apodrecerem, porm nada podia fazer para sair daquela situao. 
Um dia, um casal de namorados entrou na cabana e se assustou com o que viu.
- Rodrigo, esse homem est morto, e parece que h muitos dias.
-  isso mesmo, Ftima. Precisamos avisar a polcia. 
Ela fez beicinho:
- E nosso encontro de hoje?
- Esse cadver cortou todo nosso clima. Vamos sair daqui e telefonar contando o que vimos.
Assim fizeram. A polcia chegou ao local, retirou o corpo e comeou as averiguaes. O assassino no havia deixado pistas e nada existia junto ao corpo que pudesse 
identific-lo, portanto o entregaram ao Instituto Mdico Legal. Juvncio sentiu o horror de ser engavetado em um local gelado. Era a primeira vez que chorava um 
pranto sincero e angustiado. Tambm nunca havia sentido tanto medo, apesar dos longos anos de vida marginal que tivera. Por mais que gritasse aos policiais, ningum 
o ouvia. Com os mdicos foi ainda pior. Ento comeou a se lembrar de Clotilde e de que ela o havia matado. Sentiu um dio surdo brotar em seu peito, e o sentimento 
teve tanta fora que o arremessou para o lado dela. Era noite e todos estavam na sala de jantar. Flaviana continuava l, acompanhada de Nicodemos, sem conseguir 
se aproximar de Isabela. De repente, ela viu um vulto aparecer na sala. Era uma pessoa sangrando muito, cheia de buracos pelo corpo. Ficou com medo.
- Quem  esse, Nicodemos?
- E eu vou l saber? Mas parece que  dos perigosos. Vamos ficar longe.
Era sbado, por isso todos jantavam juntos. Humberto estava presente e Fernando estava acompanhando Patrcia. Juvncio viu com dio Isabela sorrindo e conversando 
animadamente. Numa rapidez muito grande, ele avanou sobre ela, mas foi detido por Romrio que, com um soco, jogou-o no canto da sala.
- Quem  voc?
- Sou o protetor de Clotilde. Ningum se aproxima dela.
- Tenho o direito. Ela me matou, e vou me vingar, custe o que custar. No vai ser voc quem vai me impedir.
- Vou sim.
Os dois travaram uma luta corporal no meio da sala. Juvncio conseguiu se livrar e lanou-se sobre Isabela, apertando seu pescoo. Seu dio foi tanto que ela engasgou 
e perdeu o flego. Todos correram para socorr-la. Isabela tentava respirar, mas no conseguia. Foi ficando vermelha, at que desmaiou. Patrcia ficou muito nervosa:
- Papai, leve-a para o hospital. Ela pode morrer!
- Como ela foi engasgar assim desse jeito?
- No vamos perder tempo com isso. Vou pedir a Amaral que tire o carro e nos leve ao hospital agora.
Quando chegaram ao hospital, Isabela foi atendida e o mdico informou que por pouco ela no perdera a vida. O doutor Fagundes suspeitava de que algo mais grave estava 
acontecendo com ela, pois sua lngua havia ficado enrolada, o que tinha dificultado a passagem do ar. Humberto sentiu muito medo de perd-la. Ficou toda  noite 
com ela no hospital. Juvncio tambm no deixou o quarto. Na madrugada, Romrio apareceu com um homem de rosto srio, bigode fino e olhar penetrante. O estranho 
homem olhou para Juvncio e falou:
- Levante-se da, precisamos conversar.
- O que quer? Saiba que s vou sair daqui quando levar Clotilde  morte. Esse a tentou me impedir e levou uma sova daquelas. Quer apanhar tambm?
O homem sorriu.
- No. Quero ajud-lo. Tambm tenho interesse em que essa mulher desencarne para que venha sofrer junto de ns. Mas no  assim que voc vai conseguir mat-la. Com 
essa atitude, ela vai ter esses ataques at melhorar de vez, e voc no vai conseguir mais atingi-la.
- Melhorar? Como assim?
- J ouviu falar em centro esprita? 
Ele demorou, mas respondeu:
- Sim. De vez em quando pessoas desses centros apareciam l na favela levando comidas e roupas. Mas o que isso tem a ver comigo?
- Tudo! Isabela mora em uma casa onde sua enteada freqenta um desses horrveis lugares, e se voc continuar provocando essas crises nela a enteada vai desconfiar 
de que  envolvimento de esprito desencarnado. Ento a levar para fazer um tratamento. Esses lugares malditos tm um poder especial que consegue neutralizar nossa 
ao. Em pouco tempo, voc no conseguir mais nada com ela.
- Mas isso  injusto! Ela  m, egosta e assassina. Deixou a me e os irmos na maior misria e no faz o bem a ningum. Como  que ser protegida?
- No sei dizer, mas os seres da luz no gostam que exeramos a justia com as prprias mos. Dizem que s Deus pode fazer justia e, assim, conseguem nos afastar. 
Porm, se ficar do meu lado, teremos como mat-la de outra forma.
Juvncio se interessou.
- Ento me conte como.
Horcio chamou-o a um canto e narrou-lhe o plano terrvel. Ele ia ouvindo sem acreditar naquelas palavras, que lhe mostravam uma trama to habilidosa que sequer 
poderia ter imaginado algum dia. Quando terminou estava radiante.
- Seguirei com voc. Nossa como  inteligente! Tem razo em ser o chefe.
 Horcio respondeu:
- No sou o chefe; quisera eu! Nossa cidade no astral est sem comando. Nosso chefe foi resgatado e ningum ainda ocupou o lugar.
- E por que voc mesmo no toma o lugar?
- No tenho gabarito para isso. Estamos esperando nosso prximo chefe desencarnar para nos comandar. Trata-se de um poltico muito famoso na Terra. Assim que ele 
morrer, o receberemos com alegria e assim passar a comandar os planos de vingana, to a seu gosto.
- Tem certeza de que devo deixar a Clotilde a?
- Sim. Venha comigo. Aposto que est doido para sentir o prazer das drogas novamente.
- Como adivinhou?
- Soube pela sua ficha. Acompanhe-me que vou lev-lo a um lugar onde poder sentir esse prazer novamente.
- Mesmo depois de ter morrido?
- E claro! Aqui na Terra sugamos as energias que nos do prazer por meio das pessoas que fazem as mesmas coisas. Voc mesmo servia de repasto para outros espritos 
viciados, s que no se lembra de nada.
Juvncio estava admirado com aquilo. Resolveu seguir Horcio e ver se era verdade o que ele dizia. No domingo pela manh Isabela recebeu alta. Quando chegou em casa, 
j no elegante sof da sala de estar, ela comentou:
- No sei como aconteceu. De repente, me deu uma vontade enorme de tossir e quando vi estava engasgada. Parecia que tinha algum apertando meu pescoo. Foi horrvel.
Humberto a tranqilizou:
- Mas no foi nada. Mesmo assim, ter de fazer os exames que o doutor Fagundes pediu.
- Farei meu amor. Agora desejo ver Daniel. Onde ele est? - dizendo isso, subiu as escadas.
Patrcia ficou sozinha com o pai e aproveitou:
- O senhor est feliz com esse casamento?
- Claro filha. Por que pergunta isso?
- No sei. Sinto que essa unio no lhe trar felicidade. 
Humberto cocou o bigode.
- L vem voc com essa histria de intuio de novo. Sabe que no acredito em nada disso.
- Tambm no sei por que sinto isso. Gosto da Isabela sei que ela o faz feliz e que  uma boa pessoa. Pela lgica, no era para eu sentir nada disso. Mas aprendi 
no centro que a intuio  superior  razo, e sempre nos conduz  verdade. Algo me diz que sua vida com ela no vai ser sempre boa.
Humberto irritou-se.
- No quero mais falar sobre isso. Causa-me mal-estar. Mudemos de assunto. Como est seu namorinho com o Fernando?
- Muito bem. Gosto dele e sei que ele gosta de mim. Acabaremos casados.
Ele riu.
- Como pode dizer isso se tem to pouco tempo de namoro?  intuio tambm?
- Sim, sei que ele ser meu marido.
- Voc s vezes me faz rir. Bem que eu gostaria de ter essa tal intuio para descobrir quem so meus inimigos no Senado.
Os dois riram e comearam a falar amenidades. No quarto com Daniel, Isabela havia esquecido o mal-estar e s pensava numa forma de se aproximar de Fernando. Todo 
movimento estranho que acontecia, ela ia olhar na esperana de v-lo chegar  manso. Era domingo e certamente ele iria aparecer para ver Patrcia. At agora ambos 
haviam s trocado olhares e ela precisava agir. Sentia que ele estava tmido para procur-la e ela no queria mais perder tempo. Suas relaes ntimas com Humberto 
j no lhe davam o prazer esperado e ela queria descobrir novas sensaes. Sem perceber, ela voltava aos hbitos antigos de sua encarnao anterior, incorrendo nos 
mesmos erros. Quando vivera como Nathalie, trara Henry, que agora era Humberto, e agora novamente tencionava faz-lo. Romrio a estava inspirando o tempo inteiro, 
colocando em sua mente cenas de intimidade com Fernando. Ela sentia aumentar seu desejo. Estava ficando ansiosa e com dor de cabea quando finalmente o viu entrar. 
Rapidamente ela entregou seu filho a Eudsia e desceu. Fernando estava  beira da piscina com Patrcia, quando ela chegou.
- Vim tomar um pouco de sol. Depois do mal-estar de ontem sei que o sol me far bem.
Patrcia comentou:
- Isso mesmo, fez muito bem. Sente-se conosco. 
Fernando tentou conversar, um tanto tmido:
- Est melhor? No sentiu mais nada?
- No. Se novamente tiver um ataque daquele, morrerei.
- No diga isso. A senhora  muito jovem para morrer.
A conversa continuou amena, at que de repente Isabela pediu:
- Patrcia, pea a Eudsia que venha at aqui e traga o Daniel. Ele precisa tomar sol.
- Irei sim. Vou aproveitar e trazer mais refrigerante.
Assim que Patrcia saiu, Isabela olhou profundamente para Fernando e, com coragem, falou:
- Sei que pode pensar mal de mim, mas estou loucamente apaixonada por voc. Meu casamento  uma infelicidade, no amo o pai da Patrcia. Vivo com ele por necessidade. 
Sei tambm que sou correspondida, pois noto seus olhares de desejo sobre mim. Isso me faz acreditar que no gosta de Patrcia e que est com ela por outros interesses. 
Amanh s trs da tarde me ligue, pois precisamos conversar melhor. Encontrarei um lugar para nos encontrarmos.
Fernando no teve tempo de falar nada, pois Patrcia tinha voltado. Mas ele gostara muito do que ouvira. Afinal, ser amante daquela mulher, mesmo que se casasse 
com Patrcia, lhe daria muitas vantagens. Fernando era um jovem de 26 anos de classe mdia. Trabalhava para ter mais dinheiro e havia prestado vestibular algumas 
vezes, sem, contudo nunca ter conseguido ingressar em nenhum curso superior. Na realidade, no pensava em estudar. Pensava em fazer um bom casamento do qual pudesse 
tirar muitas vantagens. Na realidade, ele usava sua beleza para viver bem financeiramente. Assim, saa com algumas mulheres e logo comeavam suas exigncias: queria 
dinheiro. Se algumas fugiam, decepcionadas, outras, movidas pelo interesse no sexo e pela vaidade de estarem acompanhadas por um homem bonito, cediam a todos os 
seus desejos. Mas ele sentia necessidade de mais. Queria uma vida estvel e, quando conhecera Patrcia "por acaso" numa festa de amigos, logo sentiu que ela era 
a pessoa indicada. Rica, Patrcia possua boa parte da fortuna de sua me e ele sabia que esse casamento lhe traria a situao que almejava. Mas a vida estava sendo 
por demais prdiga com ele, colocando em seu caminho Isabela, que pelo visto faria tudo que ele quisesse. Foi Isabela quem perguntou:
- Daniel j vem?
- Vem sim. Tambm nosso refrigerante est chegando. Vamos aproveitar esse sol e cair na piscina.
Fernando e Patrcia entraram na gua, enquanto Isabela, vendo-o nadar, sentia aumentar compulsivamente seu desejo.

13 - NA MANSO DE HIGIENPOLIS

Flaviana estava muito triste aquele dia. Fazia meses que se encontrava na casa de Humberto e no conseguia se aproximar de Isabela, pois Romrio sempre impedia. 
Ficou muito feliz quando viu aquele homem asqueroso apert-la pelo pescoo, porque achou que ele ia mat-la. Mas qual no foi sua surpresa quando a viu voltar como 
se nada tivesse acontecido. Nicodemos chegou arfante.
- Voc no sabe o que a Isabela quer aprontar agora.
Ela, desanimada, respondeu:
- Estou cansada dessa vida. Estou sofrendo, ficando mais velha e feia, e nada tenho conseguido. s vezes penso nas pessoas que me acolheram num lugar chamado colnia, 
mas l tambm no quero ficar; parece uma priso. Tambm no tenho para onde ir... Que desespero! - dizendo isso, comeou a soluar sentidamente.
Nicodemos a olhou penalizado.
- Tem a minha cidade. L voc poder ficar e at trabalhar.
- No desejo ficar com vocs. Na verdade, nem sei o que fazer da minha vida. Sinto-me perdida. Nunca pensei que morrer pudesse nos levar a uma vida to parecida 
com a que levvamos na Terra.
- Deixe para pensar nisso depois. Temos de nos concentrar agora na vingana contra sua assassina. Ou quer deix-la sem receber o que merece?
Ela enxugou as lgrimas teimosas e o fitou seriamente.
- Vingana  o que mais desejo no mundo! Ento, o que tem para me dizer?
- Estava l na beira da piscina vigiando a assassina quando vi que ela se declarou ao rapazinho que namora sua filha.
- Como? Ela quer trair Humberto?
- Sim, no percebe que ela tem muito fogo? E daquelas que no se bastam com um homem s.
Flaviana corou:
- No fale isso na minha frente. Sou mulher de respeito.
- Tudo bem, me desculpe. Mas  isso: ela quer t-lo como amante. Podemos influenciar Humberto para que desconfie e mate os dois. Uma vez aqui, ns a prenderemos 
em uma das celas e a castigaremos.
Flaviana exultou:
- Que boa idia! Fale baixo, pois Romrio poder escutar.
- No se preocupe. Ele est do lado dela, passando desejos sexuais e pensamentos obsessivos de paixo; nem percebeu que vim lhe contar.
- Fico mais tranqila. Temos de influenciar Humberto sem que ele perceba, pois, do contrrio, estaremos perdidos.
Nesse momento, uma luz azulada penetrou no ambiente. Flaviana e Nicodemos fecharam um pouco os olhos porque aquele reflexo era muito forte e lhes doa s vistas. 
A luz foi reduzindo sua intensidade e apareceu no meio do claro a figura de uma mulher. Ela olhou para Flaviana e falou:
- Vim em nome de Deus, porque preciso lhe mostrar duas pessoas que muito a amam e h muito querem v-la.
- Diana?  voc?
- Sim, minha amiga. E estou acompanhada de pessoas das quais sua mente nem se lembra no momento. Nunca se perguntou onde estariam seus dois filhos que morreram no 
acidente?
- Filhos? Acidente? - Ela estava atordoada. - Meu Deus! Marcos e Alfredo! Onde esto eles? Como pude me esquecer?
- Voc se deixou levar pelos sentimentos negativos e esqueceu tudo o mais, porm eles jamais esqueceram de voc, dos seus carinhos de me, das noites insones que 
teve, dos zelos e cuidados, e esto aqui para v-la.
Era muita emoo para Flaviana. Do meio do claro, Marcos e Alfredo surgiram. Ela, sem lembrar de mais nada, correu a abra-los. Chorou muito e naquela hora a lembrana 
dos seus sofrimentos reapareceu com toda a fora. Lembrou-se do acidente terrvel, de como havia sofrido com a perda dos seus filhinhos amados. Recordou-se de Humberto 
se afastando do lar e, finalmente, de sua doena cruel.
- Meus filhos, deixe-me abraar cada um de vocs. Quanta saudade! Como estou sofrendo!
Marcos foi o primeiro a dizer:
- Me, venha conosco e esquea a vingana. S Deus tem o poder para julgar as pessoas e aplicar sua justia. Quem somos ns para condenar os outros? A vingana nunca 
trouxe felicidade a ningum; ao contrrio, nos leva a caminhos tortuosos de sofrimento e infelicidade.
- Voc diz isso porque  muito bom, sempre foi desde criana. Mas no posso deixar de matar aquela que me tirou a vida,  justo. Fiquem comigo, provem que me amam 
de verdade e me ajudem a trazer para o inferno essa mulher que roubou minha existncia.
Alfredo, muito paciente, explicou:
- No estamos aqui para nos vingar de ningum. H muito aprendi que no existem vtimas sobre a Terra e so nossos pensamentos e crenas que atraem todos os sofrimentos 
em nossa vida. Creia mame, a senhora passou pelo que era necessrio ao seu aprendizado e pelo que estava de acordo com sua maneira de ser. Ao contrrio de condenar, 
abenoe a mo que lhe deu, por meio do sofrimento, a chance de se melhorar e redimir. Flaviana pareceu no aceitar.
- Vocs dizem coisas estranhas. Pelo jeito, parece que ela estava certa em fazer o que fez e que a errada fui eu.
- No estamos dizendo isso. Claro que Isabela se comprometeu seriamente com as leis divinas quando agiu daquela maneira, mas j se perguntou como  senhora a atraiu 
para sua vida? Se no houvesse necessidade de a senhora passar por essa experincia, Isabela no teria conseguido o que pretendia e iria molestar outra pessoa.
Ela no queria entender e mudou de assunto.
- Como vocs esto crescidos! Eu queria tanto que todos ns estivssemos ainda na Terra, como antes.
Diana interrompeu:
- Flaviana, seus filhos desejam que voc siga conosco. Eles esto penalizados com sua situao e querem ver a me bem. Aceita?
- Isso no! No posso deixar essa mulher vulgar impune. Eles  que deveriam sair daquela colnia e estar aqui perto de mim, ajudando. Alis, esse  um dever de filho.
- Bom, aceitamos sua posio, mas aviso que Marcos e Alfredo no podero ficar. Vamos nos despedir; fique com Deus. Quando precisar de ns pense com fora que atenderemos.
Flaviana comeou a chorar.
- No me deixem, tenho me sentido muito sozinha. Voltem!
Os trs desvaneceram diante dos seus olhos e ela continuou a chorar. Mas o sentimento de vingana era mais forte que tudo, e Flaviana pensava em reencontrar os filhos 
depois que conclusse seus planos. Como estava enganada! A vingana nos afasta de Deus e dos espritos superiores. Jesus nos recomendou perdoar setenta vezes sete, 
querendo mostrar que o perdo  infinito. Esquecendo dessa elevada orientao, Flaviana ia se prender a espritos ignorantes e demoraria muito para rever os filhos. 
Passado um tempo, Marcos e Alfredo foram novamente visitar Diana, que sempre os recebia com amor.
- Continuamos preocupados com nossa me. Pensamos que nossa presena ia demov-la de seus intentos, mas foi tudo em vo.
Diana sorriu.
- O bem nunca  em vo. s vezes ficamos tristes quando fazemos o bem, orientamos pessoas e elas fazem justamente o contrrio; parece que no aprenderam nada e at 
pensamos em desistir. Ledo engano. Tudo que escutamos de bom, por mais que no usemos no momento, fica registrado em nossa alma e um dia o usaremos. H sementes 
que passam sculos para germinar e dar frutos; assim tambm somos ns. O que o Mestre de amor nos ensinou h mais de dois mil anos, e que ainda no conseguimos colocar 
em prtica, est dentro de ns como uma semente que um dia vai criar vida. Creiam amigos, todo o bem que plantamos no corao de algum, por mais dura, por mais 
rude que seja essa pessoa, um dia vai ser usado em benefcio dela prpria, e nessa hora ela se lembrar de quem o plantou, onde quer que esteja.
Alfredo comentou:
- H na Terra quem pense que a morte no modifica as pessoas e que elas continuam as mesmas. Pelo caso de minha me, posso perceber que no  uma regra geral. Quem 
diria que a dona Flaviana, uma mulher doce e cordata, estivesse depois da morte planejando uma vingana e um assassinato?
-  que as pessoas no conhecem as outras completamente, e no sabem do que elas so capazes. Ainda temos muito que conhecer a respeito de ns mesmos, imagine, ento, 
dos outros. Convivemos certamente durante vrias encarnaes com uma pessoa sem conhec-la profundamente. Flaviana mostra que tinha uma bondade apenas aparente. 
Bastou um pequeno golpe da vida para se rebelar e apresentar o outro lado de sua personalidade. Assim somos ns: caridosos, bondosos, doces e sorridentes at que 
um pequeno fato venha a mexer em nosso orgulho para a mscara cair. Temos muito que aprender para evoluir. Quantas vezes vemos pessoas aparentemente bondosas passarem 
por toda a sorte de privaes? Achamos injusto ou culpamos seus desacertos em vidas passadas, porm estamos enganados. Os sofrimentos decorrem das nossas atitudes 
atuais e de como estamos nos portando no presente. Quem  bom de verdade jamais sofre, pois a lei  justa.
Alfredo, com voz que o pranto embargava, disse:
-  difcil aceitar certas coisas, mas os fatos mostram que voc est certa, Diana. Todavia, desconfio que essa ligao entre Isabela e minha me vem de muito longe. 
Por que o esprito dela me induziu a matar minha me quando vivemos na Frana?
Diana foi falando com calma:
- Elas so inimigas de um passado remoto. Tudo comeou no incio do sculo XVIII. Isabela, naquele tempo, chamava-se Moema e Flaviana tinha o nome de Sebastiana. 
Viviam num pequeno arraial no Brasil e eram amigas. Certo dia conheceram um homem misterioso que as seduziu e lhes ensinou os segredos da magia negra. Tornaram-se 
satanistas. Em parceria com Leopoldo, elas cometeram muitos crimes para satisfazer entidades infernais, em troca de vida longa, sade e fortuna. Os trs viviam uma 
relao poligmica, mas Moema tinha grande cime da forma pela qual Leopoldo tratava  amiga e passou a odi-la. Em trato com os espritos das trevas, ela fez um 
encantamento e conseguiu que Sebastiana morresse. Foi uma morte lenta e sofrida. Moema a fez ingerir uma erva que tapava pouco a pouco o esfago, e ela morreu agonizante 
com insuficincia respiratria. Quando chegou ao astral e descobriu quem tinha sido sua assassina, era tarde demais. Por ter se envolvido com a magia, os espritos 
que a assessoravam prenderam-na para que servisse de cobaia em suas experincias. Tendo seu poder temporariamente suspenso, ela no conseguiu prejudic-los e o casal 
Leopoldo e Moema continuou vivendo bem e cometendo mais crimes. Anos mais tarde desencarnaram e sofreram muito. Os espritos de suas vtimas eram tantos que eles 
foram perseguidos cruelmente, chegando  loucura. Sebastiana, libertada dos seus algozes, ficou muito feliz com a cena, mas ainda assim no se sentia vingada. Queria 
mais. Por isso se juntou com o grupo e pretendia transform-los em massas disformes, at que um esprito superior, com ordem de Jesus, interferiu no processo e resgatou 
os espritos de Leopoldo e Moema, completamente loucos, do umbral. Havia no astral um esprito amigo do casal que todos os dias orava a Deus pedindo auxlio para 
eles, at que foi atendido.
Marcos e Alfredo ouviam sem querer perder nem uma palavra. Diana prosseguiu:
- Recolhidos a um manicmio do plano espiritual, padeceram. Nenhum tratamento surtia efeito. Um dos mentores chamou os encarregados do caso e avisou que s a reencarnao 
poderia amenizar um pouco o problema. Reencarnaram em completo estado de idiotia e viveram poucos anos na Terra. Os espritos que foram suas vtimas no passado os 
encontraram mesmo em corpos infantis, e, por intermdio de uma trama ardilosa, conseguiram assassin-los. As crianas apareceram mortas subitamente e ningum encontrou 
explicao plausvel. Ao regressarem para c, tinham melhorado e adquirido lucidez. O corpo de carne  uma vlvula que absorve as energias do perisprito e as extravasa. 
Eliminando esses resduos, os espritos voltam a ter sade. Reunidos conosco, Moema se mostrou muito arrependida e queria uma nova chance. Leopoldo reconheceu que 
usou seus potenciais medinicos a servio das trevas e queria uma reencarnao na qual pudesse usar esses dons para o bem. Foi aconselhado a esperar e desenvolver 
outros lados da sua personalidade. Eles acreditavam na fora da riqueza, ento decidiram ser nobres na Frana e contribuir com pessoas necessitadas dando trabalho 
e dignidade a elas. Muitos seriam suas vtimas reencarnadas. Felizes, voltaram ao mundo, ela como Nathalie e ele como Henry. Sebastiana no renasceu porque no tinha 
chegado  hora e ficaria no astral esperando o instante de nascer como filha do casal. Mas ela no aceitou o tratamento que queramos ministrar e fugiu de nossa 
colnia, indo em busca dos seus antigos parceiros para se vingar. Foi quando conseguiu, atravs de Luigi, matar Nathalie por asfixia, a mesma forma como tinha sido 
morta. 
Marcos interrompeu:
- O resto eu j sei. Eles falharam novamente e renasceram no Brasil. Mais uma vez, Isabela no perdoou minha me e a matou. Meu pai continua mergulhado no materialismo 
e esquecido de tudo o que programou para a prpria existncia.
Alfredo completou:
- Minha me continua querendo vingana e Isabela, no caminho dos crimes, vai certamente ter um final trgico. Meu Deus, quando essa sucesso de vinganas vai parar?
Foi Diana quem respondeu:
- Quando aprenderem o valor do perdo e a fora do bem. No sabemos at quando essa situao vai permanecer, todavia no podero permanecer eternamente estacionados 
e fazendo o mal; nada permanece para sempre do mesmo jeito e as pessoas no podem ficar desrespeitando as leis de Deus sem que sejam contidas. Um dia, por um sofrimento 
muito grande, eles vo aprender que s o bem tem fora e que o mal cobra um tributo muito grande daquele que o pratica.
- Por que meu pai no veio na ltima encarnao com as faculdades medinicas ostensivas? Afinal, ele precisava reparar o mal que tinha feito no passado. - Fora Marcos 
quem perguntara.
- Porque ele teve medo de falhar e pediu a Deus uma encarnao mais amena, na qual pudesse ir ganhando coragem para no futuro exercer esse mandato. Mesmo que demore, 
Humberto ainda voltar com as faculdades medinicas muito desenvolvidas para que, com o trabalho em favor dos sofredores, possa se redimir do passado de crimes.
- Quando eles vo encontrar a felicidade?
- Quando quiserem. A felicidade tem um preo que nem todos querem pagar para obt-la. As pessoas sempre preferem  comodidade, a lei do mnimo esforo, as iluses 
do materialismo a ter de se modificar no bem e disciplinar os pensamentos. Viver bem  fcil quando percebemos que j possumos tudo que  necessrio para ser felizes. 
Ao contrrio do que se pensa, a felicidade independe das coisas externas, pois  um estado interior de satisfao, de contemplao do belo, da natureza e de xtase 
com as coisas simples do dia-a-dia.  um erro procurarmos  felicidade em acontecimentos grandiosos que nem sempre trazem a alegria esperada, pois ela se encontra 
na vivncia de todos os momentos, e qualquer um pode, desde j, alcan-la, basta querer.
- E a busca pelo progresso, pelo bem-estar? Onde fica?
- Os acontecimentos materiais, o progresso vm apenas aumentar a felicidade de quem j a possui; so meros complementos.
J notou aquelas pessoas que tm tudo e no so felizes?  que ser feliz  uma arte, uma conquista do nosso esprito, e  um sentimento inato no ser humano, basta 
buscar que a encontraremos.
- Nossa, Diana, hoje voc nos elucidou bastante. Vivo colocando a minha felicidade para depois. A partir de hoje, quero ser feliz j, no vou esperar mais.
-  assim que se fala Alfredo. Agora vamos que o trabalho nos espera.
Abraados, eles saram rumo a outros departamentos daquela operosa colnia.
No elegante quarto de Madame Aurlia, na Manso de Higienpolis, a grande cama de casal se encontrava coberta de jornais e revistas. Ela, Morgana e Luana observavam 
tudo com muito dio. Eram fotos de Isabela e Humberto em colunas sociais.
- Acolhi essa miservel aqui e olhem como ela se porta, finge que nem existimos. J pensei em mil formas de destru-la e no encontrei nenhuma que possa realizar. 
Quando penso em minha impotncia, tenho ainda mais raiva.
Luana no perdeu a chance:
- Sempre avisei  senhora que estava colocando uma cobra aqui dentro. Mas ningum quis me escutar.
Na ponta da cama, Morgana chorava de raiva.
- O que mais me deixa magoada  a ingratido que ela teve para comigo. ramos amigas; alis, a nica amiga que ela tinha aqui dentro era eu. Era em meu ombro que 
Isabela chorava suas mgoas, revelava seus sonhos e me prometia que assim que melhorasse de vida ia melhorar a minha tambm.
Madame Aurlia sorriu ironicamente.
- Como voc  ingnua. Essa miservel s pensa nela mesma. Logo que teve a sorte de achar quem a quisesse, deixou-a sem sequer um adeus.
- Justo a mim, que era sua melhor amiga.
Madame Aurlia pensou um pouco e depois gritou:
- Morgana, tive uma idia perfeita! Sem querer, suas palavras acabaram me dando a chave.
Ela enxugou as lgrimas e Luana se aproximou para ouvir bem.
-  isso mesmo. Voc vai procur-la e dir que sentiu sua falta e que gostaria que fossem amigas novamente. Fale que no vai cobrar sua promessa, que se contenta 
em t-la por perto, conversando como antigamente. O resto lhe direi depois.
- Assim no, senhora. Quer dizer que serei a isca e no sei dos planos? Tem de me contar.
Luana interrompeu:
- Tem de contar a ns duas, pois tambm detesto aquela mulher.
- Bom, j que fazem questo, vou contar. Traga-me uma bebida forte, pois a idia que tive vai arrepiar as duas. Porm, aviso: se alguma de vocs trair esse segredo, 
o tmulo vir como resposta.
As duas perceberam que era algo pesado. Passou pela cabea de Morgana desistir, mas a madame j havia comeado a narrar e ela no teve mais como voltar atrs.
- Al?  voc? - Isabela, nervosa, perguntava.
- Sou eu, sim. Quando podemos nos ver?
- Amanh  tarde. Tenho um lugar onde podemos nos encontrar  vontade. Finja que veio buscar algo aqui de que precisa e eu passarei o endereo.
- Combinado.
Enquanto Fernando desligava o telefone, sua me entrou na sala.
- Estava falando com a Patrcia?
- Sim, era com ela mesma - mentiu. 
Marlia era uma mulher de meia-idade muito bonita. Havia criado o filho nico com dificuldades. Apesar de se manter num nvel em que o dinheiro no era o problema 
principal, ficara viva muito cedo e tivera de criar Fernando praticamente sozinha. Sabia que o filho era muito bonito e requestado pelas mulheres; apesar disso, 
at aquele momento ele no havia namorado com nenhuma delas. Quando o viu saindo com Patrcia Costa Aguiar, ficou muito feliz. Marlia havia educado Fernando para 
fazer um rico casamento; no toleraria que se juntasse com uma moa pobre ou do mesmo nvel que eles. Ela queria mais e Fernando acabou sendo o filho que ela sonhou, 
interesseiro e mercenrio. Mesmo assim, Marlia controlava sua vida, com receio de que ele se apaixonasse por uma garota sem posses ou de baixo nvel. Seu filho 
era um prncipe e, movida por esse pensamento, ela buscou informaes de moas solteiras e ricas, e orientava Fernando para que se aproximasse delas. O encontro 
dele com Patrcia no fora casual; tinha sido muito bem programado. Marlia sabia que nenhuma mulher resistia ao seu filho. Sentou-se no sof com uma expresso de 
tdio, pegou uma revista de moda e folheou-a sem interesse. Vendo o filho pensativo, comentou:
- Sabe como fao gosto nesse namoro com Patrcia. No sei no que est pensando, mas espero que no seja em nada que venha atrapalhar nossos planos.
Ele levantou e, com um sorriso que fazia covinhas em seu rosto, abraou e beijou a sua me.
- Tenha a certeza de que nada vai atrapalhar nossos planos.
- Fico feliz!
- Vou sair. No pego no servio hoje e quero aproveitar.
- Deus o acompanhe.
A porta bateu e Marlia sentiu muita raiva. Que vida humilhante ela levava, tendo de ver seu filho trabalhar se quisesse ter alguns luxos a mais. A penso de seu 
marido dava para manter um pouco do luxo que um dia haviam tido, mas a duras penas. Ela economizava no que podia para sempre estar no cabeleireiro e com roupas da 
moda, ou para manter Fernando impecvel. S assim ele encontraria uma noiva  altura. Sentindo-se depressiva, reabriu a revista e comeou a ler. Isabela havia pedido 
certa quantia em dinheiro a Humberto, alegando ter de comprar algumas roupas, quando, na realidade, seria utilizado para alugar temporariamente um apartamento onde 
iria se encontrar com Fernando. A quantia deu para pagar dois meses de aluguel e o apartamento foi alugado por Amaral, que a cada dia se envolvia mais com as tramas 
dela. Vrias vezes tinha pensado em se demitir daquele emprego, mas as ameaas da patroa o impediam. Depois de tudo marcado e combinado o local, Isabela esperava 
ansiosa a chegada de Fernando. O apartamento era mobiliado e ela mandou comprar bebidas para o barzinho, que ficava em um canto da sala. Quando Fernando chegou, 
ela j havia tomado vrias doses de usque e estava mais excitada do que o habitual. Nunca desejara tanto um homem em sua vida como desejava Fernando. Ia arrastando-o 
para o quarto quando ele a interrompeu:
- No sei se o que vamos fazer  certo. Tenho pensado muito a respeito desde que comecei a me sentir atrado por voc.
Ela se sentou com ele no sof e fez ar de vtima.
- Tambm tenho me questionado sobre isso, mas no tenho como evitar a atrao que sinto;  mais forte que eu. No gostaria que nada disso estivesse acontecendo, 
afinal, Humberto  um homem bom e no merece.
- Voc no gosta dele? 
- Casei-me por gratido. No tinha uma vida fcil e ele foi  nica pessoa que me estendeu a mo. Mas no me sinto realizada com ele, sou infeliz. - Ela deixou uma 
lgrima falsa escorrer por seu rosto.
Fernando sabia que ela estava fazendo um jogo, mas ele tambm jogava e queria ganhar, por isso tornou:
- A Patrcia tambm no merece. Gosto dela, mas preciso de uma mulher mais experiente, que saiba oferecer coisas que ela ainda no sabe.
- E como sabe que sou essa mulher? Tenho praticamente a mesma idade que voc. No sou to experiente assim.
- Mas  casada, conhece a vida conjugai. Patrcia no me permite muitas intimidades e eu fico muito carente. Sabe um homem sempre precisa de mais.
- O que sente por minha enteada?
- No sei ao certo, creio que coisas da juventude. Mas confesso que a admiro e que gosto de estar com ela. Com voc, entretanto,  uma atrao incontrolvel, no 
programei sentir isso.
- Esqueamos esse assunto por enquanto. Quero mesmo que me faa feliz. Venha!
Ele no falou mais nada e foram para o quarto. Quando terminou, ainda abraada a ele, Isabela jurou que jamais iria perd-lo. A partir daquele dia se tornaram amantes. 
As visitas quele lugar de encontros se tornaram assduas e logo Fernando comeou a se queixar de dificuldades financeiras. Ela sempre o auxiliava, pedia dinheiro, 
cheques a Humberto, e deixava nas mos dele. Quando Marlia soube, exultou de alegria. Ao mesmo tempo, teve receio de que isso viesse a atrapalhar o casamento do 
filho com Patrcia, ao que ele respondia:
- Nada vai atrapalhar nossos planos. Somos discretos e no posso perder essa mina de ouro que encontrei.
- Tambm acho. Mas tenha cautela; no ponha em risco o futuro brilhante que sonhei para voc. Depois de casado, poderemos pedir que Humberto lhe arranje um cargo 
em Braslia, de preferncia daqueles que  pessoa nem v l e mesmo assim ganhe bem. No governo existem milhes de funcionrios fantasmas, e voc ser um deles.
Os dois sorriram abertamente, mas ele retrucou:
- Mesmo assim, terei de trabalhar. No quero que minha mulher pense que sou um preguioso. Basta ter de inventar mil desculpas para explicar por que no fao curso 
superior.
- Essa menina  bobinha mesmo. Um rapaz com sua beleza precisa de curso superior para qu? Enquanto os bobos passam anos de suas vidas em bancos de faculdade para 
depois terem um emprego de msero salrio, voc  mais esperto e est cortando o caminho. Conseguir muito mais e sem nenhum esforo.
Ele sorriu, fazendo as covinhas no rosto, e colocou a cabea no colo da me. Continuaram a trocar idias. Marlia ignorava que conduzia muito mal o filho que Deus 
lhe confiara. Educando-o de maneira errada, as idias falsas e o egosmo prevaleciam, e ela se comprometia bastante com a prpria conscincia. Os dois estavam falindo 
mais uma vez sobre a Terra e me e filho sofreriam muito na hora do reajuste. Os pais que conduzem os filhos pelos caminhos do materialismo, do preconceito, do orgulho 
e do egosmo falham na misso da paternidade e encontraro a dor no caminho da redeno. Eles no so responsveis pelos atos dos filhos, mas so responsveis pelas 
crenas que cultivam e plantam em espritos que a vida enviou para ser educados para o bem. Sendo assim, passaro por duras provas at aprenderem  fora da bondade 
e cultivarem os valores eternos do esprito. Isabela brincava no jardim com Daniel e Eudsia quando viu uma figura de mulher aparecer no porto. Rapidamente a reconheceu: 
era Morgana. O que ela fazia ali? Nem lembrava mais que ela existia. Pediu que a deixassem entrar e ambas trocaram um longo abrao.
- Minha amiga, como est voc? Pensei que nunca mais fosse v-la.
- A saudade apertou e resolvi vir at aqui. Vi no jornal uma foto sua com Humberto e l se mencionava seu endereo. Resolvi arriscar, em nome de nossa velha amizade. 
Devo dizer que pensei em ser mal recebida.
- No diga isso, Morgana. Sempre a receberia bem. Afinal, naquele lugar onde eu vivia a nica pessoa que foi verdadeira comigo foi voc.
- Confesso que fiquei magoada. Em nossas horas de tristeza, voc disse que me ajudaria, mas bastou se casar para me esquecer. No estou aqui para me queixar, mas 
 que fiquei com esperanas de sair dali. Como voc mesma sabe, ningum  feliz naquela vida. - Dizendo isso, comeou a chorar.
- Morgana, no foi essa minha inteno. No queria mago-la. E que desde que casei no parei com as atividades. Vida de rica  muito trabalhosa, voc no imagina 
o quanto. Mas me lembrava de voc e pensava numa forma de tir-la dali e das mos daquela mercenria.
- Voc no imagina como sofro. Porm no posso sair de l. Meus pais so do Nordeste e no sabem a vida que levo. No tenho para onde ir nem a quem recorrer. Depois 
que voc se casou, fiquei deprimida. No gosto mais de exercer aquela tarefa repugnante e tenho sido punida por madame Aurlia. Tenho levado at tapas no rosto.
Um dio surdo brotou no peito de Isabela e ela sentiu que no poderia deixar sua amiga  merc de uma pessoa to ordinria.
- Morgana, saia de l e venha viver aqui. Tem espao de sobra e diremos a todos que voc  uma parente do interior que veio pedir ajuda.
Os olhos de Morgana brilharam. As coisas estavam saindo melhor do que ela poderia supor.
- Mas o que poderei fazer para ganhar dinheiro? No quero ser um peso para voc e tambm no posso ficar sem dinheiro para minhas coisas. No. Obrigado, amiga, mas 
no posso aceitar.
- Aceite Morgana. Voc vem morar aqui e trabalha como governanta. A Idalina j est velha mesmo, e voc pode substitu-la. Ou podemos ter duas. Humberto pode pag-la 
bem, tudo ser melhor, voc pode ajudar Eudsia com o Daniel e seremos felizes.
Morgana fingiu chorar de emoo e abraou-a.
- Deus a abenoe, Isabela. Nas circunstncias em que vivo essa  a nica soluo.
- O que vai dizer  megera?
- Que vou voltar a morar com meus pais no Nordeste. Direi que esto doentes e precisando do meu auxlio.
- Faa isso. Ainda quero ver aquela casa fechar suas portas e Aurlia morrer de fome.
Daniel se aproximou e comeou a brincar com Morgana. Vendo-o to inocente, ser que ela teria coragem de executar o planejado? Claro que sim! Isabela s a estava 
auxiliando porque fora procur-la. No fundo, agia mais movida pela promessa antiga do que qualquer outra coisa. Se no fosse esse plano ela iria envelhecer na prostituio 
e acabar no olho da rua. Sim! Isabela merecia uma vingana. Foi convidada a entrar e tomar um ch. Eudsia emocionou-se quando a viu e as duas se abraaram. Patrcia 
chegou e foi apresentada  "prima" de Isabela.
- Ela chegou hoje do interior e est num hotel. Amanh passar a viver conosco e ajudar a Idalina no comando da casa.
Patrcia achou aquilo bem estranho.
- Mas a Idalina cuida de tudo muito bem, no precisamos de mais ningum aqui.
Isabela foi rpida:
-  que minha prima veio do interior desesperada. Seus pais esto doentes e ela precisa desse emprego para enviar o dinheiro do tratamento.  mais uma questo de 
caridade do que de necessidade.
Fingindo entender, Patrcia deu as boas-vindas e subiu. Gostava de ter gente por perto. No fazia objees, mas algo a avisava de que aquela histria estava mal 
contada. Seu pai estava muito apaixonado por Isabela e fazia tudo que ela queria. Resolveu no pensar no assunto e entrou no banho. Morgana ficou impressionada com 
a beleza da casa.
- Nossa! Como o Humberto consegue manter o luxo daqui? O dinheiro de um senador d para tudo isso?
- Ah, mas Humberto tem seus meios de conseguir mais dinheiro.  brao direito do governo. Pensa que ele recebe s o salrio dele, ? Alm do mais, a dona Flaviana 
era muito rica e foi ela quem decorou tudo aqui.
- Teve muito bom gosto. Agora tenho de ir. Amanh cedo estarei aqui.
- Vou ligar para o Humberto e avis-lo. No fim de semana ele deve estar aqui e no quero que tenha nenhuma surpresa.
- Acha que ele pode no gostar?
- No! Ele est apaixonado, faz tudo que desejo; no haver problemas.
Morgana saiu muito feliz. Tomou um nibus e, durante o trajeto, ia pensando em como madame Aurlia ficaria satisfeita. O plano acontecera melhor do que o imaginado. 
Ela fora at l apenas com o intuito de reatar a amizade e passar a ter acesso a casa para facilitar a vingana. Mas morar l seria melhor ainda. Ela faria tudo 
e ningum ia desconfiar. Quando chegou  manso, foi logo se reunir com Luana e Aurlia no quarto.
- Ela caiu como uma patinha, nem acredito no que est acontecendo.
Aps contar todos os fatos em detalhes, ela finalizou:
- A ordinria ainda disse que quer ver essa casa fechada e a senhora passando fome.
Aurlia cerrou os punhos com raiva.
- Ela sentir o peso de meu dio. Ainda vai chorar lgrimas de sangue.
Morgana ficou um pouco triste, e Luana perguntou:
- Em que pensa?
- Senti uma angstia quando vi a criana brincando perto de mim, pegando meus cabelos. Quase pensei em desistir, mas sei que Isabela nunca foi minha amiga e merece 
sofrer.
Aurlia aquiesceu:
- Isso mesmo, mas h um detalhe: no posso liber-la do servio aqui. Sabe que est sendo exclusividade do doutor Estevo e ter de vir algumas tardes por semana 
para servi-lo.
Morgana no gostou.
- No vou poder sair de l assim sem explicaes. Isabela pode desconfiar.
- Isso no  comigo. Encontre uma desculpa, invente, sei l. Mas ter de vir aqui.
Morgana resolveu no discordar. Madame Aurlia era severa e no gostava de ser contrariada. As trs continuaram a conversa rindo da ingenuidade de Isabela, sem imaginar 
que eram assessoradas diretamente por espritos inferiores.

14 - A MORTE SE APROXIMA

Morgana se adaptou muito facilmente  casa de Humberto, que no fez nenhuma oposio  sua moradia l. Apaixonado, ele fazia tudo quanto Isabela queria. Naquela 
tarde, todos estavam calmos. A presena do senador em casa mudava a rotina e Isabela ficava diferente. Atenciosa, carinhosa, ela nem se aproximava de Fernando, que 
agora j estava noivo de Patrcia. Ela tinha de conter seu cime e agradar o mximo possvel ao marido. Eudsia, Morgana e Daniel estavam no jardim, Patrcia e Fernando 
no quarto e Isabela dialogava com Humberto, saboreando deliciosa bebida. Mas eles no estavam a ss. Flaviana e Nicodemos continuavam na casa tentando uma forma 
de aproximao com o casal.
- Estou ficando entediada aqui sem ter o que fazer. Preciso me vingar. Podem se passar anos, mas enquanto no conseguir o que quero no me afasto - Flaviana dizia 
cerrando os punhos.
Nicodemos estava pensativo. No agentava mais aquela situao. Mas tambm no tinha o que fazer. Sua vida na Terra terminara tragicamente por sua prpria culpa. 
No queria se vingar de ningum, mas o que lhe restava fazer? Pelo menos enquanto acompanhava aquela mulher vingativa passava seu tempo. De repente, vultos escuros 
surgiram na sala e eles reconheceram o homem forte que havia tentado sufocar Isabela acompanhado por mais dois espritos que traziam uma rede nas mos. Flaviana 
teve medo. O que eles pretendiam fazer?
- Nicodemos, vamos sair daqui. No gosto dessa gente, tenho medo.
- No, vamos ficar para ver o que eles pretendem. So da pesada e talvez nos ajudem em nossa vingana.  s observar e no fazer nada e eles nos deixam em paz.
Eles apuraram os sentidos e perceberam que a rede que eles traziam no estava vazia. Nela havia seis massas de formato arredondado, um pouco menores que uma bola 
mdia. Cuidadosamente, um deles colocou a mo na nuca de Humberto. No meio da conversa, ele interrompeu:
- Acho que essa bebida me deu sono. De repente, veio uma vontade grande de ir para a cama e deitar.
- Mas voc bebeu muito pouco, deve estar cansado. Venha eu o acompanho at o quarto.
- No precisa. V ficar com seu filho e sua amiga. Dormirei um pouco, o sono me domina. Estranho isso. Nunca fui de dormir nesse horrio.
- No sei... Mas v se deitar, sim. Aproveito e vou ultimar os preparativos para o jantar.
Humberto subiu as escadarias e o grupo das trevas foi junto. Ele mal conseguiu tirar a cala e em seguida caiu num sono profundo. De repente, ao sair do corpo, percebeu 
as entidades no seu quarto. Gritou-lhes:
- Quem so vocs? Como entraram em minha casa?
- Cale-se! Voc faz parte do nosso plano para destruir Clotilde e, se tentar atrapalhar, vai se dar mal.  melhor paralis-lo. Vamos, segurem-no ou vai nos dar trabalho.
Os homens paralisaram Humberto em esprito e colocaram-no  beira da cama. Flaviana e Nicodemos observavam tudo com pavor. O que iria acontecer? Os homens retiraram 
as formas arredondadas e cuidadosamente, por meio de fios magnticos, colaram-nas no corpo adormecido de Humberto na regio genital. Quando terminaram, disseram:
- O servio est pronto, Juvncio. A partir de hoje comea o fim do reinado de Clotilde.
- Tem certeza do que diz?
- Absoluta. Esse plano nunca falha.
Todos gargalharam e Humberto, sem nada entender, perguntou aflito:
- O que fizeram comigo? O que so essas bolas amarradas no meu corpo? Por que querem destruir Isabela?
O homem que chefiou a operao respondeu:
- Instalamos em voc os parasitas ovides. Esses seres disformes lhe causaro uma impotncia sexual to severa que nenhum mdico da Terra vai conseguir curar.
- O que so parasitas ovides?
- No importa. Voc no vai entender mesmo que eu lhe explique. O fato  que seu orgulho de macho vai acabar. Voc no conseguir mais ter relaes sexuais nem com 
sua esposa, nem com ningum.         
Humberto sentiu que era verdade e comeou a se desesperar.
- Por que fazem isso comigo? Deixem-me em paz!
Todos riram muito. Juvncio respondeu:
- Sua mulher destruiu a minha vida e agora vai pagar caro. Voc ser o nosso instrumento.
- Se a vingana  para ela, por que esto fazendo isso comigo?
- Sua mulher tem muito fogo. Se voc estiver impotente, ela vai precisar mais e mais do amante, at que, enlouquecida por uma obsesso sexual, no consiga mais esconder 
o relacionamento. Voc vai acabar descobrindo que  trado. Nessa hora, ser intudo a lavar sua honra com sangue, matando-a e a Fernando, que ser seu genro. Quer 
plano melhor?
Humberto sentia a cabea rodar e desmaiou. Na cama, seu corpo estava suado e agitado, mas ningum chegava ao quarto. Quando tudo terminou, o grupo foi embora muito 
feliz, deixando Flaviana e Nicodemos entre assustados e exultantes. Isabela teria o fim que merecia. Ficaram ss no quarto e viram Humberto desmaiado.
- Vou acord-lo.
- Humberto, Humberto! Acorde! 
Ele despertou.
- Flaviana, o que faz aqui? Voc no morreu?
- Sim, morri. Oh, como ainda o amo. Voc fez de minha vida um inferno. Por qu? Eu no merecia.
- No  hora para relembrar o passado. Ajude-me. No consigo me mexer.
Nicodemos interferiu:
- Vamos ajud-lo. Assim ele acorda mais rpido no corpo fsico.
Com esforo, eles ajudaram Humberto a se libertar. Depois ele olhou com pena para si mesmo.
- Vejam no que vo me transformar: num homem sem potncia. No vou ser homem para minha mulher.
- Isso  timo. Vai ajud-lo a perceber quem  a cobra que tem em casa, e o homem horrvel que sempre foi.
- No me acuse Flaviana. Apesar de tudo, sei que ainda me ama. Reze por mim. Sei que vou sofrer muito. - Dizendo isso, ele entrou no corpo que, assustado, acabava 
de acordar.
Humberto se levantou sem saber o que tinha acontecido com ele e qual fora o motivo daquele sono pesado e intenso que o havia acometido. Lembrava que tinha tido um 
pesadelo e que nele estava sua mulher, Flaviana. Lembrou tambm que vira uns homens com rostos crispados pelo dio, mas estava tudo muito confuso em sua mente. Havia 
suado bastante e resolveu tomar uma ducha morna para relaxar. Isabela foi  cozinha, verificou o jantar e, a pretexto de falar sobre a sade de Humberto, bateu  
porta do quarto de Patrcia. Ela queria evitar que algo de mais ntimo ocorresse entre o casal. Estava muito envolvida com Fernando e s em pens-lo nos braos de 
outra sentia uma onda enorme de rancor. Patrcia abriu e se surpreendeu:
- O que faz aqui? Algum problema?
Ela tentou disfarar, mas pelo que viu dava para perceber que os dois estavam apenas conversando.
-  seu pai. Estou um pouco preocupada com ele.
- Mas ele estava muito bem ainda h pouco quando o deixamos na sala. O que aconteceu?
Fernando havia se aproximado e ela sentia o corao disparar.
- Ele sentiu um sono estranho de repente e falou que ia deitar. Pensei que tivesse sido pela bebida que tomvamos, mas ele bebeu muito pouco. Acho que est doente. 
Fui ao quarto e ele est se revirando na cama. No acordou nem quando o chamei.
- O senhor Humberto me parece um homem muito sadio. Se est assim, realmente  porque adoeceu. Por que no chamam um mdico? - sugeriu Fernando timidamente.
- No acho que necessite. Papai anda muito cansado. Essas viagens de Braslia at aqui no o deixam bem. Deve ser isso. Daqui a pouco vai estar melhor.
Isabela encerrou a conversa:
- Se voc acha assim, ento vamos esperar.
Humberto no descia e Isabela estava ficando inquieta. Eudsia e Morgana entraram com Daniel e Patrcia e Fernando tambm estavam na sala.
- Vou ver como ele est. Estou ficando preocupada - disse Patrcia, levantando-se e indo em direo ao quarto do pai.
Em poucos segundos, Isabela e Fernando trocaram significativo olhar, que foi percebido por Morgana. Em seu pensamento uma desconfiana comeou a aparecer. O que 
havia entre aqueles dois? Ela resolveu averiguar. Pretextando ir ao banheiro, Fernando saiu. Logo depois, Isabela resolveu ir  copa beber gua e Morgana achou aquilo 
muito estranho. Na copa, Isabela conversava nervosamente com Fernando.
- Essa situao est ficando horrvel para mim. No agento v-lo. O nico homem a quem realmente amo nos braos de uma outra mulher! E terrvel para mim. No sei 
se suportarei v-lo casado.
Ele colocou suas mos em seu corpo e ela estremeceu.
- Tem de aceitar, pelo bem de ns dois. Sabe que a amo e que estou com Patrcia porque me  conveniente. Preciso ficar bem de vida e com voc no conseguiria. Precisa 
entender; mais tarde, quando for oportuno, traaremos um plano e eliminaremos Humberto e Patrcia de nossa vida. Seremos felizes.
- Como eu gostaria de acreditar em voc. Sinto que posso perder tudo que conquistei por causa dessa paixo que me consome. Beije-me agora. Prove que me ama e me 
beije aqui.
- Mas  muito perigoso. Podem estranhar nossa demora e nos pegar em flagrante.
- Vamos, tenha coragem.
Fernando no resistiu e a beijou longamente. De repente um grito abafado:
- Isabela?! Fernando? No posso acreditar!
Eles se separaram rapidamente e sem flego olharam para Morgana. Isabela apressou-se em se defender:
- No  isso que est pensando. Por favor, Morgana, tente entender...
- Calma amiga. Sabe que somos unidas e no direi o que vi. Mas, assim como fui eu, poderia ter sido outra pessoa, e voc estaria perdida. Tenham mais cuidado.
Fernando saiu e voltou para a sala, onde j estavam o senador e Patrcia. Morgana conseguiu convencer Isabela de que nada falaria e que lhe seria fiel. Ela acreditou. 
Mal sabia que tinha sob seu teto uma grande inimiga que, a qualquer momento, a apunhalaria pelas costas. Todos se reuniram na sala e ouviam Humberto contar seu pesadelo.
Patrcia sentiu que alguma coisa estava errada com o pai e o aconselhou:
- Por que no vai conosco ao centro? O senhor precisa de uma consulta. Os sonhos, em sua maioria, so as lembranas do que vimos e vivemos no mundo astral. Se o 
senhor viu a minha me e alguns espritos com semblantes negativos,  sinal de que ela no tem boas companhias.
- Voc sabe que no acredito nessas coisas de espiritismo. O que tive s foi um pesadelo mesmo. No nego que me impressionou, mas sonhos so iluses da mente, e 
no tm nenhum significado.
Patrcia encerrou a conversa e foram jantar. Isabela mal conseguia se conter e olhava muito para Fernando, porm s Morgana percebia. Juvncio, seu acompanhante 
espiritual, havia cedido ao grupo poderoso de Romrio, e agora fazia parte do plano. Naquele momento, ele lhe inspirava idias sensuais:
- Voc precisa fazer amor ainda hoje com Fernando, mas, se no conseguir, faa com seu marido mesmo. Pense no Fernando e use o Humberto.
Isabela sentia seu desejo aumentar; estava quase incontrolvel. Mal conseguiu comer. Quando todos se despediram e ela foi para o quarto, agiu impetuosamente e levou 
Humberto para a cama. Beijaram-se com paixo e, quando tudo estava para acontecer, Humberto parou. Ela, percebendo o que ocorria, perguntou:
- Por que, Humberto? Nunca isso nos aconteceu. Por que logo hoje, que estou to carente?
Ele estava com muita vergonha. Sentou-se do outro lado da cama e colocou as mos no rosto. Orgulhava-se de ser conquistador e viril. Nunca, em todas as suas conquistas 
aquilo havia acontecido. Estaria ficando velho? O certo era que ele estava com receio de olhar o rosto de Isabela. Limitou-se a dizer:
- No sei, hoje no foi um bom dia pra mim.  tarde aquele pesadelo, e agora esse fato horrvel. No sei o que lhe dizer. Devo estar cansado ou, como diz a Patrcia, 
devo ter um encosto.
Ela se irritou:
- No v que isso no existe? Voc est com problemas e deve procurar um mdico.
- No! Isso jamais! Vamos tentar outra vez.
Mais uma vez se deitaram e Isabela se esmerou, utilizando todos os truques que aprendera com madame Aurlia, mas nada deu resultado. Humberto fez um grande esforo 
para no chorar. Sentia-se humilhado. Levantou-se, vestiu o roupo e foi fumar um charuto na sacada. Isabela tambm se vestiu e foi para o bar. Ingeriu dois copos 
de usque e seus pensamentos estavam em Fernando. Como ele era viril! Se no fosse pobre, deixaria Humberto e iria viver com ele. Mas ela jamais abdicaria de sua 
vida atual para novamente viver na pobreza. E se aquele problema com Humberto continuasse? Ela no poderia prescindir de sexo e teria de se encontrar mais vezes 
com Fernando. Sentindo o desejo aumentar, tomou mais uma dose da bebida e voltou ao quarto. J na cama, percebeu que Humberto fingia dormir. Ela tambm fez o mesmo 
e fechou os olhos, mas era em Fernando que pensava. O domingo amanheceu bonito e Humberto agiu como se nada tivesse acontecido com ele. Tomou caf e foi sentar-se 
 beira da piscina, lendo o jornal. Isabela aproximou-se e falou em tom spero:
- No pense em fingir que nada aconteceu. Amanh no volte a Braslia e v consultar nosso mdico de confiana. Quero voc como antes.
- E eu? Pensa que est sendo fcil para mim? Estou me sentindo o pior dos homens, tenho vergonha at de procurar um profissional.
- Mas  isso que ter de fazer.
A conversa encerrou com a chegada de Daniel, que vinha nos braos de Eudsia.
- Onde est a Morgana?
- Precisou sair. Falou que precisava repor algumas coisas na despensa e que ia ao supermercado.
- Mas justo num domingo?
- ... Tambm achei estranho, mas no quis discordar.
Daniel comeou a balbuciar algumas palavrinhas e logo Isabela esqueceu aquele acontecimento. Todos os domingos Patrcia ia visitar sua av, mas naquele dia a visita 
era especial. Ela iria levar uma amiga muito querida que havia conhecido no centro para conversar e tentar reanimar Augusta, que agora praticamente no saa da cama 
em profunda depresso. Slvia era mdium e trabalhava dando consultas e orientando as pessoas para que levassem uma vida melhor. Tinha quarenta anos e estava separada. 
No tinha filhos e seu trabalho como voluntria no centro a deixava muito feliz. Quando elas chegaram, a manso estava s escuras. Patrcia perguntou a uma empregada 
o porqu daquela escurido, ao que ela respondeu:
- A dona Augusta no quer que abram as cortinas; diz que o sol tem lhe feito mal.
- Pobre vov, no sei mais o que fao para ajud-la. Tenho medo que morra por causa desse estado.
Silvia tentou anim-la:
- Vamos confiar em Deus. Tudo Ele pode resolver, basta que para isso tenhamos f. Mas estou preocupada. Pelo que me consta sua av  muito catlica. Como permitiu 
que eu, uma espiritualista, viesse at aqui?
- Apenas mencionei que  terapeuta e que deseja ajudar. Realmente minha av  muito preconceituosa e, se soubesse que freqenta um centro esprita, no iria permitir 
sua visita. Ela perdeu muita coisa com essa depresso, menos os preconceitos.
Elas entraram no quarto. Dona Augusta nem de longe parecia quela senhora bonita, elegante, que gostava de passeios, viagens, que era ativa e falante. Agora se assemelhava 
a um farrapo humano. Jogada na cama, parecia ter envelhecido uns dez anos. Branca feito cera e com profundas olheiras, ela saudou as visitas:
- Sempre voc, Patrcia, que nunca me deixa s. S no morri ainda porque tenho o seu amor.
- No diga isso, vov. A senhora ainda vai viver muito. Agora vou lhe pedir para abrir essas cortinas. Est escuro e a Slvia gostaria de conversar com a senhora.
Ela fez sinal afirmativo com a cabea e o quarto se iluminou. Augusta fechou um pouco os olhos mostrando que estava incomodada com a claridade. Slvia fez intimamente 
uma prece e pediu auxlio de Deus e dos amigos espirituais. Ela viu a freira que estava colada a Augusta e observou que ela percebeu que tinha ido l para ajudar. 
Logo um crculo de luz azulada cobriu o corpo de Slvia e irm Celeste no conseguiu envolv-la.
- Como se sente dona Augusta?
- Bem. S quero que me deixem em paz e sozinha.
- Ningum pode estar bem deitada em uma cama o dia inteiro, sem querer sair, ver a luz do sol e participar desta vida que  to bonita. A senhora est desistindo 
de viver e isso  muito ruim. Tem de reagir.
Ela comeou a chorar.
- No consigo. Sinto que minha vida acabou. No tenho mais o que fazer, minha filha morreu, tudo est sem sentido. S me resta ficar na cama at que a morte me chegue 
como alvio.
- E um direito que a senhora tem, mas essa escolha est deixando-a muito infeliz, e a infelicidade  um estado antinatural. Fomos criados para a felicidade. Deus 
nos colocou em um mundo bonito, rodeado de plantas, flores, com um lindo sol que nos aquece e ilumina. Deu a cada um o direito de ser feliz, evoluir, e a senhora 
est desperdiando isso. No acha que est sendo ingrata com a vida?
- No diga isso, tenho muita f. Mas j estou velha e os velhos no servem para nada. Como  horrvel o entardecer de uma existncia!
Slvia no se deu por vencida.
- A senhora est sendo dramtica e preconceituosa. A velhice  a fase de maturidade espiritual de todos ns. Longe de ser ruim, ela  um bem. E a fase na qual podemos 
ser o que somos sem preocupaes ou medos;  o tempo de colher os frutos de nosso aprendizado sobre a Terra. Ademais, quem envelhece  o corpo, porque o esprito 
fica sempre jovem e todos ns somos jovens, seja em que idade for. A senhora se engana quando diz que os velhos no servem para nada, o que conta mesmo  a idade 
mental que cada um tem. H jovens que j envelheceram e h idosos com a mente muito jovem, so ativos, vivem rodeados de amigos, trabalham e tm o respeito de todos. 
Tudo vai da crena de cada um. Acreditar na velhice atrai falta de oportunidades, desrespeito, rejeio, mas tudo depende de ns. Sua vida no acabou porque a senhora 
tem sessenta ou setenta anos; h coisas agradveis e boas para se fazer em qualquer idade, basta que deixemos o preconceito de lado, no acha? Dona Augusta parecia 
pensar.
- Voc diz coisas bonitas, mas a velhice  um fato, e com ela chegam s doenas, os remdios, o desprezo dos mais jovens...
- Isso tudo depende do pensamento de cada um. H pessoas idosas que tm excelente sade, at mais do que certos jovens. So respeitadas e ouvidas pelos mais novos. 
Aonde vo tm amigos das mais diferentes idades. J se perguntou por que isso acontece? Por causa das crenas que elas carregam. Quem acredita na velhice como um 
mal, como um fardo doloroso e difcil, realmente vai atrair as doenas, o desprezo e o abandono. A senhora quer viver assim?
- Na verdade no,  que no tenho foras. Ando to desanimada...
- Para sair dessa situao  necessrio fora de vontade e colocar Deus em seu corao. Procure se ligar a ele por meio da prece; esse ser o primeiro passo.
- Mas eu rezo todos os dias.
- No falo da orao mecnica e decorada, digo da orao que vem de dentro, aquela feita com o corao; essa funciona de verdade. O segundo passo  levantar dessa 
cama e retomar sua vida de antes. Volte a ser a pessoa que era: elegante, arrumada, ativa, bem-disposta, e logo vai se livrar dessa depresso que a invade.
- No tenho foras...
- Tem sim. Todos temos a fora do mundo quando realmente queremos alguma coisa. Sua fora reside em seu corao, e seu corao quer a felicidade.
Ela esboou um sorriso.
- Muito obrigada. Sinto-me melhor.
Slvia se despediu e saiu do quarto, mas dona Augusta fez questo de lhe pedir que voltasse outras vezes. J na sala lanchando com Patrcia, ela disse:
- No se anime muito. Hoje ela ficar um pouco bem, mas amanh voltar aos mesmos problemas. O que ela est passando  difcil e demorado para curar.
- Ela est obsediada?
- Est com depresso profunda, acima de tudo. Claro que nesses quadros h sempre a interferncia de obsessores, mas sua av est clinicamente depressiva. J lidei 
com muitos casos assim e sei que s um bom psiquiatra pode resolver.
- E a ajuda espiritual?
-  tambm essencial, mas no dispensa a ajuda mdica, de forma alguma. A depresso  uma doena sria e tratada no meio esprita com preconceito. Acha-se que qualquer 
manifestao dela  obsesso e, s vezes, impede-se que o paciente recorra  medicina terrena, que  indispensvel em muitos casos.
- Mas no h casos em que o problema  s espiritual?
- H sim, e os mdiuns experientes sabem diferenciar uma situao da outra. Nos casos em que h apenas obsesso, o tratamento mdico pode at piorar os sintomas, 
mas no  esse o caso de sua av.
- No caso dela, que adoeceu apenas no fsico, o que causa a depresso?
- Alguns estudiosos teimam em dizer que a depresso  o produto da disfuno das substncias qumicas responsveis pelo humor e dos neurotransmissores. Mas, pelo 
conhecimento espiritual que temos adquirido, podemos afirmar que eles esto trocando o efeito pela causa. A depresso  uma doena da alma e acontece quando as pessoas 
se sufocam e no atendem aos anseios mais ntimos de seu esprito. A alma se agita e quer se libertar; a depresso  o grito da alma sufocada.
- Toda depresso comea na alma?
- Sim. Quando estamos distantes de nossa essncia, magoados, fazendo coisas por obrigao, vivendo uma vida diferente daquela que nossa alma pede, aparece o vazio, 
a solido e depois a depresso. Mesmo quem diz no ter motivos para estar deprimido, se for olhar para dentro de si com realismo, vai saber a causa.
Patrcia estava surpresa:
- E o que pode ter levado a minha av a esse estado? Ela vivia to bem!
- No sei, mas, pelo que pude perceber, ela est assim por mgoa. Algum a magoou profundamente e ela tem se sentido pequena, inferior. Com isso sufocou a alegria 
e entrou em depresso.
- Ento vamos tentar extrair isso dela.
- No  bom. Para quem est em depresso profunda, revolver as mgoas s vai piorar o estado. O melhor que temos a fazer  esperar essa fase passar e, quando ela 
estiver melhor, voltaremos a esse assunto. Quando o paciente melhora, ele tem condies de perceber como atraiu a doena e modificar a causa. Mas isso s pode acontecer 
quando essa fase severa passar.
As duas continuaram conversando at a hora do almoo. Slvia voltou para casa e Patrcia almoou na casa da av, que no saiu do quarto. Morgana no foi ao supermercado, 
como havia dito, e sim  Manso de Higienpolis. Nos fins de semana as mulheres se arrumavam mais que o habitual e madame Aurlia tinha trabalho dobrado. Mesmo assim, 
quando Morgana chegou, foram para o quarto. Luana tambm no perdia a ocasio e estava junto. Nunca simpatizara com Isabela e v-la feliz e rica causava-lhe grande 
inveja. Auxiliar naquela vingana seria um prazer ao qual ela no se poderia furtar.
- Madame, tenho algo importante a lhe contar - comeou Morgana com expresses de mistrio para valorizar ainda mais o que iria dizer. - O que tenho a dizer pode 
mudar completamente o curso dos nossos planos.
Madame Aurlia estava curiosa.
- O que pode ser?
- Descobri ontem que Isabela trai o senador com Fernando, um rapazinho que est noivo da Patrcia, filha dele. Com essa informao nas mos, podemos desistir de 
envolver a criana inocente e acabar com ela de outra forma.
Aurlia pareceu refletir, depois disse:
- E uma informao e tanto, mas acho que no devemos desistir de nossa estratgia. Queremos ver Isabela sofrer, e, se contssemos a Humberto dessa traio, o mximo 
que poderia acontecer seria ela ser expulsa de casa. No! Eu quero mais, quero v-la amargar a dor de perder um filho e, mesmo rica, no poder ser feliz.
Luana concordou.
- Tambm acho, no podemos desistir. - Olhando para Morgana fixamente, Luana completou: - Estou vendo que est toda medrosa em matar uma criana e est querendo 
voltar atrs. Saiba que se isso acontecer ns a consideraremos uma traidora e aqui no colocar mais os ps.
Madame Aurlia vociferou:
- E, se nos trair, no viver para saborear sua traio. Sabe muito bem do que sou capaz. Se tenho coragem suficiente para tramar a morte de um menino inocente, 
imagine o que no farei com voc.
Ela sentiu um arrepio percorrer seu corpo. Por que fora se meter naquilo?
- Mesmo assim, sua informao no foi intil - comentou Aurlia. - Assim que Daniel morrer, acharemos uma maneira de fazer Humberto saber que sua mulher o trai. 
Da, sem o filho e sem riqueza, ela acabar com a prpria vida.
Morgana estava estupefata com tamanha crueldade.
- Para que tanto? Afinal, o que Isabela lhe fez no foi to grave. Humberto agiu muito pior. Foi ele quem tirou ela daqui com toda a arrogncia - ponderou.
- No sei... Sinto um dio muito grande por ela. Sua arrogncia e falta de escrpulos merecem punio. J Humberto eu no consigo odiar. Compreendo os homens, sei 
como so quando se envolvem com mulheres da espcie de Isabela.
Morgana no protestou; sentia medo de ficar contra uma mulher to perigosa. Quando deixou a Manso, sentia-se mal. Sua cabea rodava e seu estmago estava enjoado. 
Como fora entrar numa vingana to srdida como aquela? Mas agora tinha de ir at o fim. Se recuasse, coisas horrveis poderiam acontecer com ela. Foi ao supermercado, 
pois no podia chegar em casa sem algumas compras. No caminho, ia pensando no dio de Aurlia e no conseguia entender como atitudes aparentemente pequenas de Isabela 
tinham despertado uma sede de vingana to grande naquela mulher. Ela no sabia que o dio de Aurlia vinha do inconsciente, estava enraizado em acontecimentos de 
vidas passadas, quando vivera na Frana e tivera seu filho morto por culpa de Nathalie, que era Isabela reencarnada. Inconscientemente, queria se vingar por ter 
perdido o filho matando Daniel, o ser que sua inimiga mais amava no mundo. Tambm ela no conseguia odiar Humberto porque naquele passado longnquo ele fora seu 
filho, Henry.
Chegando em casa, Morgana deu algumas explicaes que logo foram aceitas por sua amiga. Foram almoar e Morgana insistiu em dar a comida a Daniel, tarefa que era 
de Eudsia. O menino, muito alegre e com olhos vivos, comeou a comer. Sem que ningum percebesse, Morgana destampou um pequeno frasco de vidro que continha um p 
e o derramou sobre a comida. Ningum viu nada. Uma hora depois da refeio, Daniel comeou a vomitar. Fizeram chs, mas nada resolveu. Levaram-no ao mdico, que 
diagnosticou perturbaes estomacais. Prescreveu alguns medicamentos e a criana melhorou. Isabela abalou-se muito e, preocupada, nem procurou o marido durante a 
noite, o que para ele foi um alvio devido a sua impotncia. A semana transcorreu calma, exceto por Daniel, que se mostrava aptico, no brincava como antes e quase 
no comia. Na quinta-feira, ele piorou. Isabela ficou desesperada. Ver seu filho sofrer era o que mais a deixava abalada. Outra vez foi ao mdico, que a aconselhou 
a ter calma e falou que esses fatos sempre acontecem uma vez ou outra na infncia. Todavia, no pouco que Daniel comia o veneno terrvel e que matava lentamente era 
inserido. Ele voltava a vomitar e passar mal, mas ningum podia supor que Morgana estivesse por trs daquilo. Isabela entrou em depresso e Humberto voltou de Braslia 
para ficar com ela. O menino foi internado, mas depois de trs dias veio a falecer. Ningum suspeitou de envenenamento e os mdicos disseram que o menino tinha o 
aparelho digestivo fraco e por isso sucumbira. Isabela parecia viver um sonho. Nada a fazia parar de gritar e chorar; ela entrou em terrvel desespero. Abraada 
com ele no pequeno caixo, ela dizia:
- Meu filhinho, por que isso aconteceu? Voc era a minha razo de viver, tudo que fiz na vida foi por voc. Por que me deixou? 
O corpinho inerte estava banhado de lgrimas daquela mulher que, pela primeira vez na vida, despertava ante a dor e o sofrimento. Ela continuava:
- No me deixe filho. O que vou fazer sem voc? Sem seu sorriso, sua alegria, suas brincadeiras?
Naquele instante, os espritos de Juvncio e seus amigos riam muito do sofrimento de Isabela. Todavia, Flaviana estava profundamente abalada e desistiu de sua vingana. 
Ela sabia muito bem o que era perder um filho e Isabela j havia sido punida devidamente. Vendo-a sofrer daquela forma, ela percebeu que nada mais poderia fazer 
ali e resolveu ir embora, no sem antes acompanhar o sepultamento de Daniel. Diana e Gabriel estavam l e traziam Daniel adormecido no colo. Eles sabiam que muito 
teriam de fazer at que ele recuperasse a forma adulta e pudesse ajudar sua me.

15 - ENCONTRANDO A ESPIRITUALIDADE

Isabela entrou em profunda depresso aps a morte do filho. Materialista, ela acreditava que tudo acabava com a morte e no conseguia entender por que seu filho 
to pequeno havia morrido daquela maneira. Passava os dias na cama e nem a companhia de Morgana lhe dava um pouco de nimo. Ao seu lado, assediando-a, estavam Juvncio, 
Romrio e outros espritos que faziam aumentar sua sensao de desespero. Flaviana havia ficado muito condoda com o que Isabela passara e resolvera abandonar a 
casa. Naquela tarde, andando com Nicodemos por uma rua movimentada, ela no sabia o que fazer.
- No sei para onde vou agora que me sinto vingada. Descobri que no estou mais feliz por isso, muito pelo contrrio, sinto uma insatisfao, um vazio no peito, 
ainda mais quando lembro o que  perder um filho.
Nicodemos retorquiu:
- Vocs mulheres no sabem o que querem, sempre esto insatisfeitas. Mas agora tenho de lhe dizer que seu tempo terminou. Ter de nos servir em nossa cidade. Eu 
lhe acompanhei durante meses nessa situao e agora ter de retribuir. Teodoro est mandando busc-la.
 Ela ficou assustada. No queria morar naquele lugar horrvel e sem higiene.
- No posso, no vou.
- E o que veremos. Sou seu amigo, mas, se no fizer o que  certo, quem vai se dar mal sou eu.
Nicodemos parou perto de um banco, sentou e colocou as duas mos na cabea, fechando os olhos. Parecia estar em concentrao. Flaviana no entendeu o que ele fazia. 
De repente, um vulto escuro apareceu e ela reconheceu o rapaz a que fora apresentada quando chegara  cidade do umbral. Era o chefe.
Ele a olhou com olhos de dio e vociferou: 
- Voc ocupou um dos nossos servidores a longo prazo. No pense que agora vai escapar e fazer o que quer. Vir comigo e trabalhar at pagar todas as horas que Nicodemos 
ficou com voc. Se no vier por bem, vir por mal. Tenho como lev-la mesmo contra a sua vontade.
Ela estava aterrorizada. Nunca havia lidado com pessoas como aquelas. Tentou correr, mas Teodoro lanou-lhe uma energia que a fez se sentir imvel. Quanto mais tentava 
se mexer e fugir, mais percebia que era intil. De repente lembrou-se de Deus e percebeu que s ele poderia salv-la naquele momento. Num gesto desesperado comeou 
a rezar: "Deus, meu pai, vem em meu socorro nesse momento de aflio. Estou arrependida. Sei que a vingana no me trouxe felicidade e quero mudar desejo encontrar 
a paz. No permita que o mal invada minha vida, me protege, livra-me desses inimigos".
Aquela orao simples teve o poder de deter Nicodemos e Teodoro, que j se aproximavam para captur-la. Uma luz azulada a envolveu e eles no puderam se aproximar. 
Do meio de uma luz branca muito forte surgiu Diana.
Finalmente, Flaviana, encontrou o caminho certo. Seu arrependimento sincero muito a ajudou nesse momento. 
- Agradea a Deus; pode vir conosco.
Flaviana chorava muito. Diana retirou as correntes que a prendiam e as fez desaparecer; junto com elas, Teodoro e Nicodemos tambm sumiram.
Abraadas, Flaviana soluava:
- No sei como agradec-la, amiga. Sei que no mereo tanta ajuda. Fui vingativa e desejei o mal a Isabela. Hoje sei que estava errada. Vendo-a sofrer to amargamente, 
no fiquei feliz. Como estava enganada!
Diana sorriu.
- Voc buscou a vingana porque acreditava que tinha sido vtima. Mas vtima ningum . Quem busca pagar o mal com o prprio mal tem muito que sofrer. Felizmente 
se arrependeu na hora certa, se no fizesse assim no a poderamos defender e iria sofrer na escravido com aqueles irmos menos esclarecidos. Toda vingana prejudica 
primeiro a quem a pratica; hoje voc sabe disso.
- Agora desejo ir para aquela colnia onde esto meus filhos. Vamos?
- Ainda no ser possvel. Primeiro voc vai permanecer num Posto de Socorro muito prximo da Terra e, quando for possvel, viremos busc-la.
Flaviana ficou triste.
- Esperava ver logo meus filhos.
- Dever ter pacincia. Voc acaba de sair de uma situao muito precria. Estava se alimentando por intermdio dos encarnados, sugando as energias dos alimentos; 
emagreceu e est em um estado que no lhe permite ainda viver em nossa colnia. No Posto de Socorro Aliana voc receber os primeiros socorros, aprender a ajudar 
e, quando estiver melhor, viver conosco.
Ela recomeou a chorar. Diana a abraou e juntas desapareceram em meio aos transeuntes. Isabela estava sozinha e em pranto copioso quando ouviu batidas leves na 
porta de seu quarto. Ela gritou spera: 
- Deixem-me em paz!
A porta se abriu e Fernando entrou. Aproximou-se da cama e sentou. Quando ela percebeu que era ele, seu rosto se alegrou. Ele a abraou e trocaram longos beijos. 
Olhando-o firme nos olhos, ela disse:
- Veja como estou. A mulher que voc conhecia morreu junto com aquela criana. Peo que me esquea, que este seja nosso ltimo beijo.
Ele, muito nervoso, retrucou:
- No diga isso. Voc vai levantar dessa cama e reviver para mim e para o nosso amor. Nada pode ser maior do que o que sentimos um pelo outro.
Aquelas palavras tiveram o dom de acalmar a alma sofrida de Isabela.
- Sinto que no tenho mais foras para nada. Descobri que a riqueza e o luxo de nada valem sem meu filhinho to inocente. No quero mais viver.
- No diga isso. Voc  cheia de vida e me ensinou o que  o verdadeiro amor. Tenho de confessar que estou amando voc.
Ela no podia acreditar.
- Voc nunca disse isso para mim. No brinque com meus sentimentos, no quero que diga que me ama s porque estou numa cama em depresso.
- Eu a amo de verdade. O que era apenas uma atrao e uma aventura transformou-se num sentimento verdadeiro dentro de mim. Voc acha que estaria me arriscando a 
estar agora em seu quarto sozinho com voc se no fosse por amor? 
- Voc me fez sentir bem, mas no posso ser mais quem eu era. Meu filho foi a maior razo dos meus atos. Tudo o que fiz foi por amor a ele. Queria que crescesse 
e se tornasse um homem, para ensin-lo a ser duro, inflexvel, pisar em todos que fossem obstculos para seus planos. Mas no pude v-lo crescer. Esse Deus mau e 
cruel o tirou de mim. - Dizendo isso, ela voltou a chorar compulsivamente.
Fernando, apressado, pois estava aproveitando que Patrcia estava no banho, finalizou:
- Tenha foras. Seu filho se foi, mas eu estou aqui. Ns nos amamos e esse amor  mais que motivo para voc continuar vivendo. Amanh vamos nos encontrar no lugar 
de sempre. Estarei esperando-a as trs.
Ele saiu e Isabela levantou-se. Entrou na banheira e comeou a meditar. Seus pensamentos estavam confusos. Ter visto Daniel morrer sem que pudesse fazer nada a deixara 
em um estado muito grande de tristeza. Ela nunca havia sentido uma dor to grande. Mas tambm tinha o amor de Fernando; se ele havia se declarado era porque realmente 
a amava. De repente, pensou que poderia ainda ser feliz, mesmo com o vazio que seu filho ia fazer em seu peito. Mesmo com todo o dinheiro e com todos os recursos 
da medicina, ningum o salvara. Naquele instante, ela sentiu um grande dio de Deus e da vida. Se ela j era dura e m, de agora por diante seria pior. Quando saiu 
da banheira estava decidida a destruir Patrcia para ter Fernando s para ela; sabia que conseguiria. S outro filho poderia suprir a falta de Daniel, mas ela nem 
pensava em t-lo com Humberto. Decidiu naquele momento que teria um filho com Fernando. Horas mais tarde, quando desceu, todos se surpreenderam. Ela estava bonita 
e bem produzida. Morgana e Patrcia, que no esperavam v-la assim em to pouco tempo, tiveram de se conter e nada perguntar. Se ela estava melhor no queriam mago-la 
com recordaes do filho. No dia seguinte, quando estava pronta para ir ao encontro de Fernando, a empregada veio lhe dizer que havia uma mulher querendo falar com 
ela e que a aguardava na sala. Isabela no podia imaginar quem seria e desceu apressada, no poderia perder a hora. No alto da escada seu corao disparou e ela 
parou estarrecida. Madame Aurlia estava  sua frente. Sorrindo ironicamente, ela comentou:
- Muito bonita esta manso. E uma pena que no lhe pertena. Qualquer dia desses Humberto vai voltar a freqentar minha casa e colocar outra em seu lugar;  apenas 
uma questo de tempo.
Isabela trincou os dentes de dio.
- O que deseja aqui? Saiba que no  bem-vinda. Retire-se imediatamente ou mandarei os seguranas a arrancarem  fora. O que prefere?
- No fique nervosa. S vim para lhe dizer que est sendo castigada por Deus, por isso perdeu seu filho. No sabe como fiquei alegre quando soube que ele morreu, 
e no podia deixar de vir aqui lhe dar meus psames.
Isabela, com muito dio ia avanando para agredi-la quando se lembrou do seu encontro. Mesmo assim, proferiu com a voz rouca de dio:
- Um dia lhe disse que no viveria muito para me humilhar ou rir de mim. Pois hoje assinou sua sentena de morte. Saia agora de minha casa e me espere; vai saber 
do que sou capaz.
- No tenho medo de suas ameaas. Sairei porque estar com voc me causa nuseas. Passe bem.
Ela saiu e Isabela chegou a chorar de dio. Aquela mulher tivera coragem de ir at sua casa tripudiar sobre a morte de uma criana inocente. Mas, a partir daquele 
dia, ela viveria para lev-la  morte. J havia matado duas pessoas e no haveria problema em matar mais uma. Tambm queria se livrar de Patrcia, mas no pensava 
em mat-la. Tinha outros planos para ela. Levantou-se e foi refazer a maquiagem; queria estar impecvel para Fernando. J na sada, quando ia entrando no carro, 
viu uma mulher de aspecto miservel que passava sobre sua calada, certamente esmolando. Seus olhares se encontraram e ela reconheceu sua me, Lourdes. A velha e 
doente senhora deixou uma lgrima cair dos seus olhos e, virando-se para ela, falou emocionada:
- H quanto tempo no a vejo, Clotilde. Onde voc est? Por que est com essas roupas, filha?
Ela ficou nervosa. O que menos queria era um encontro com algum de sua famlia. Fingiu no conhec-la.
- A senhora  uma louca que est me confundindo com outra pessoa. Saia da minha calada, aqui no  lugar para mendigos.
- Por que est agindo assim comigo? Sou sua me, fui eu quem a colocou no mundo. Abrace-me; sinto muito sua falta. Desde o dia que desapareceu, vivo na esperana 
de encontr-la. - Ao falar isso, Lourdes se aproximou e abraou Isabela, mas ela foi mais gil e a empurrou to forte que a velha senhora caiu no cho. Virando-se 
para o motorista, ordenou:
- Vamos, j estamos atrasados. No tenho tempo a perder com esses pedintes.
O carro partiu e Lourdes ficou jogada no cho, chorando e se sentindo humilhada. Patrcia estava acabando de chegar e, ao v-la, correu para auxili-la.
- O que faz a nesse cho?
Ela ficou sem jeito, quem seria aquela moa?
- Eu ca. Mas no se preocupe, estou bem.
- No quer entrar e tomar um pouco de gua? A senhora deve estar com fome.
Lourdes sorriu. Uma estranha tratava-a bem, enquanto sua filha a humilhava profundamente. Quem seria essa moa com rosto angelical?
- No desejo entrar. Estava andando, tentando encontrar alguma coisa para comer. No quero incomodar.
- No ser incmodo algum. A senhora entra comigo e vou lhe arrumar uma cesta com alimentos, assim no precisar andar mais. A senhora tem idade! Por que no manda 
seus filhos pedirem em seu lugar?
Lourdes olhou para um ponto distante e comentou:
- J no tenho ningum. Meus filhos foram embora, alguns morreram. Tinha uma filha que desapareceu. Moro s num barraco, mas no quero que se preocupe comigo. Voc 
 moa e no tenho o direito de envolv-la em meus problemas.
Patrcia teve compaixo daquela alma pobre e solitria e se calou, pois percebeu que falar daqueles problemas estava sendo penoso para ela. Quando entraram na manso, 
o segurana olhou para Patrcia e alertou:
- Seu pai no vai gostar nada de saber que colocou uma mendiga dentro de casa. Essas pessoas so perigosas, no  prudente o que a senhora vai fazer.
- No se preocupe Albano. Assumo a responsabilidade. Olhe bem para ela, acha mesmo que  perigosa e capaz de fazer algum mal?
Albano concordou a contragosto. Patrcia levou Lourdes para a manso e ela ficou encantada. Nunca, nem em seus maiores sonhos havia imaginado um lugar como aquele. 
O que Clotilde fazia ali? Tentaria descobrir. Na cozinha, Patrcia lhe serviu um lanche, enquanto mandou que fizessem uma cesta com mantimentos. Enquanto comia, 
Lourdes de uma forma que procurou parecer casual, perguntou:
- Vi quando a dona da casa saiu muito arrumada e bonita. Ela no tem idade para ser sua me. Ser sua irm?
- No, ela  minha madrasta. Minha me morreu h algum tempo e meu pai se casou novamente.
- Muito bonita sua madrasta. Como se chama?
- Isabela e  realmente muito bonita.
Lourdes se calou. Por que sua filha usava outro nome? Resolveu no insistir com as perguntas. Terminou o lanche e agradeceu o que Patrcia lhe tinha feito. Quando 
saiu da manso, estava se sentindo muito humilhada e infeliz. A vida lhe havia tirado tudo, at o amor de sua filha, que agora era casada e no queria mais saber 
dela. De volta ao barraco, Lourdes chorou. Sentiu dores fortes no peito e teve um infarto fulminante. Desencarnou e foi levada a um Posto de Socorro ainda prximo 
da crosta terrestre. No carro, Isabela ia enraivecida. Aquele no tinha sido um bom dia. Primeiro a visita incmoda de Aurlia, logo depois sua me. O que iria fazer 
se ela insistisse em procur-la novamente? Se isso acontecesse, a procuraria e lhe daria uma boa quantia em dinheiro, mas se a me insistisse, teria de usar meios 
mais drsticos para afast-la. Tentou no pensar mais naquele assunto, todavia de hora em hora, as imagens de Aurlia e Lourdes voltavam a sua mente. Pediu ao motorista 
que a deixasse em uma loja como de costume e logo depois tomou um txi, indo em direo ao apartamento que havia alugado para os encontros com o amante. Quando chegou, 
encontrou Fernando bebendo usque. Ela o abraou e o beijou repetidas vezes nos lbios, depois falou emocionada:
- S voc foi capaz de me tirar da depresso. Sem voc no seria feliz.
Novamente se abraaram e esquecidos do mundo l fora, foram para a cama. Quando terminaram, Isabela, deitada a seu lado, confessou:
- No quero perd-lo. Quero que jure que, mesmo casado com Patrcia, vai continuar com o nosso amor.
- J lhe disse que a amo e que estou me casando com ela porque preciso ter uma vida estvel. Continuaremos como sempre at que, de posse de tudo que desejo, possa 
me separar dela.
Isabela demonstrou tristeza.
- Minha vida est uma infelicidade! Pelo menos no vou ter de me sujeitar a ter relaes com o Humberto. Voc sabia que ele no tem conseguido?
Fernando sorriu maliciosamente.
- Quer dizer que meu sogro ficou impotente?
- Isso mesmo, para minha felicidade. S nos seus braos me sinto completa.
- Eu tambm, meu amor. Pelo menos agora, com o Humberto "pra baixo", no vou ter de dividi-la com outro homem. No sabe como me sinto mal em saber que todas as noites 
ele a tem. Mas mudemos de assunto. Fale-me como anda sua cabecinha. Sei que melhorou daquela depresso que estava querendo envolv-la.
Enquanto ela comentava a infelicidade de ter perdido o filho, ele pensava na maneira como se livraria dela no futuro. Ele havia comeado a gostar sinceramente de 
Patrcia e pensava em usar Isabela at quando lhe fosse conveniente. Queria trabalhar em Braslia, casar em comunho de bens e contava com Isabela para ajud-lo. 
Enquanto a estivesse satisfazendo, ele sabia que poderia contar com ela. Mas jamais se separaria de Patrcia. Ela era tudo o que ele realmente tinha sonhado para 
a vida dele: uma mulher rica, culta, bonita e inteligente. O que ele poderia querer mais? Os dias foram passando e Humberto, sempre que tentava ter relaes com 
a mulher, no conseguia. Isabela se esmerava para tentar tir-lo daquela apatia, mas nada que ela fizesse estava tendo efeito. Humberto se sentia desesperado. Estava 
triste e resolveu se ausentar de Braslia para tratar da sade. No podia deixar um receio ser mais forte do que seu bem-estar. Procurou doutor Caldas, que o atendeu 
prontamente.
- Voc est com inapetncia sexual. Melhor dizendo, est impotente. Isso  normal e acontece com todos os homens em algum momento da vida. Na maioria dos casos, 
a causa da impotncia masculina est ligada a problemas psicolgicos, contudo h tambm problemas fsicos que podem ocasion-la.
Humberto retrucou:
- No estou com nenhum problema grave. Sempre fui viril, me orgulhava disso. No sei por que isso foi acontecer comigo.
O doutor Caldas era um senhor de meia-idade muito simptico. Sorridente, explicou:
- No se preocupe. At rapazes podem ter esse problema. Vou lhe prescrever um medicamento que tem resolvido praticamente todos os casos de impotncia masculina. 
Mas voc vai fazer todos esses exames. Precisamos ver se h algo em seu fsico.
Naquele dia Humberto saiu animado do consultrio. Comprou o medicamento com uma certa vergonha e, ao chegar em casa, esperou ansiosamente  noite. Mas qual no foi 
sua surpresa quando nada de diferente aconteceu. Mesmo tendo tomado o remdio, como o mdico lhe indicara, o problema continuava. Humberto estava cada vez mais envergonhado 
perante Isabela. Naquela noite, enquanto estava sentado de costas fumando seu costumeiro charuto, ele disse:
- No sei o que est acontecendo. Fui ao mdico, tomei os remdios e nada mudou.
- No se desespere meu bem. O mais importante voc j fez que foi a consulta com o doutor Caldas. O remdio no fez efeito hoje, mas certamente far amanh.
Isabela fazia carinho nele sentindo-se aliviada. Depois que conhecera a intimidade de Fernando, estava lhe sendo penoso manter relaes com o marido. Ainda assim, 
tentava se mostrar compreensiva e tolerante, como toda boa esposa deve fazer. Foi com desespero que Humberto viu o problema continuar todas as noites, mesmo fazendo 
tudo que o mdico recomendara. Assim seguiram-se semanas. Os exames deram resultados satisfatrios e ele no entendia por que continuava doente. J ia tentar a alternativa 
extrema de implantar uma prtese quando o mdico, mais srio que o habitual, lhe disse:
- Humberto, sei que somos amigos e, como amigos, tenho a liberdade de lhe dizer que seu problema pode ter uma outra causa. Algo em que talvez voc no acredite, 
mas peo que pense nessa causa com seriedade. Seu problema pode ser espiritual. Como sabe, sou esprita h muitos anos e tenho estudado certos fenmenos de interferncia 
de seres desencarnados. Sei que eles podem causar problemas fsicos os mais variados at mesmo  impotncia. Voc no tem nada no corpo fsico, tambm no tem passado 
por problemas graves que o possam estar deprimindo. Tudo leva a crer que seu problema seja obsessivo.
Humberto ouviu com ateno. Caldas era um homem srio, dedicado, responsvel; se estava dizendo aquilo, com certeza tinha um fundamento. Mas ao seu lado estavam 
os espritos de Juvncio e Romrio, insuflando-lhe idias:
- No acredite nesse velho louco. O que ele diz no  verdade. Logo voc, um homem da poltica, vai acreditar em tamanha bobagem? - soprava um ao seu ouvido.
- Seja racional, Humberto! Essa idia de espritos  falsa. Esses seres no existem, so crenas de pessoas desocupadas - sugeriu o outro.
Imaginando estar pensando sozinho, Humberto protestou:
- Sei que o senhor  um homem de cincia, um homem sensato, mas no posso acreditar no que me diz. Alis, nem sei como um doutor pode se deixar levar por uma seita 
de pessoas desocupadas. Isso  bobagem que s serve para mocinhas como minha filha, Patrcia. Ela tambm acredita nisso. 
O mdico insistiu:
- Sei que est tentando ser racional, mas se estou lhe dizendo  porque quero seu bem. Somos amigos de longa data e no desejo v-lo ir de mdico em mdico sem obter 
uma soluo. Se for realmente o que imagino, a medicina nada poder fazer. S um tratamento espiritual adequado pode sanar o problema. Sei que sua filha tambm tem 
esses pensamentos. Quase sempre a vejo no centro que, por coincidncia,  o mesmo que freqento.  uma jovem muito inteligente e sensvel. No se deixe levar por 
preconceitos, Humberto. Faa uma consulta. Caso no se convena, ento faa como achar melhor.
- Consulta?
- Sim. L no centro que freqento temos mdiuns capacitados que do consultas gratuitamente, mas jamais atendem problemas mesquinhos ou sem importncia. Eles atuam 
na rea da desobsesso e, atravs de seus amigos espirituais, aconselham o tratamento mais oportuno. s vezes um tratamento de limpeza com passes magnticos pode 
ajudar de forma definitiva; em outros casos  necessria uma interveno mais direta com os espritos que esto assediando a pessoa. Se for at l, garanto que no 
vai se arrepender. Tenho visto casos de meus pacientes que s se resolveram com ajuda espiritual. Pense nisso. Ele cocou o bigode e respondeu:
- Prometo pensar. Todas as noites tenho esperanas de que tudo se regularize, mas nada acontece. Vou dar mais alguns dias; caso no melhore, volto a procur-lo. 
Mas no desejo que minha filha saiba de nada; sinto receio.
- No se preocupe. A discrio  natural quando trabalhamos com a espiritualidade. Pense bem, sua sade est em suas mos.
Quando Humberto saiu, o doutor Caldas rezou e pediu a Deus proteo para seu amigo, que sentiu estar envolvido por entidades sombrias. Sua orao surtiu efeito e 
envolveu Humberto em uma camada de energia que os espritos no conseguiram penetrar. Juvncio chamou o seu chefe em pensamento e logo ele apareceu. Muito nervoso, 
ele falou:
- Nosso plano pode estar perdido. Aquele mdico idiota est tentando levar Humberto para um centro onde poder se libertar de nossa influncia. O que faremos?
O homem sorriu de maneira macabra.
- Eles no conseguiro to facilmente e at l nosso plano de matar Isabela j estar realizado. Temos de impedir que Humberto freqente esse centro. Contudo, ainda 
que v, os seres da luz no conseguiro libert-lo rapidamente. Pensa que  fcil afastar os ovides?
Juvncio pareceu pensar.
- Estou mais calmo. O que devemos fazer agora?
- Continuem seguindo Humberto. No permitam que ele v a esse lugar horroroso e encontre a espiritualidade. Quero-o do nosso lado, quando desencarnar.
Dizendo isso desapareceu deixando Juvncio e Romrio, que se preparavam para voltar  casa de Isabela.

16 - DE VOLTA AO MUNDO MAIOR

Foi com dedicao e amor que Diana e seus amigos recolheram o esprito de Daniel ainda em forma infantil e o conduziram  colnia onde viviam. Ele ficou em uma cmara 
de vidro adormecido, recebendo no perisprito pulsos magnticos que o faziam pouco a pouco recuperar a forma adulta. Foi no hospital da Terra que esses espritos 
amigos desfizeram os laos que prendiam Daniel ao corpo fsico antes mesmo que ele exalasse o ltimo suspiro. Diana levara em seus braos aquele esprito que vivera 
pouco mais de trs anos terrenos at o hospital que se encontrava no astral. A porta se abriu e Gabriel entrou.
- Como ele est hoje, Diana?
- Est muito bem. Continua adormecido, mas, como pode ver, j est recuperando a forma adulta e voltando a ser fisicamente quem foi na ltima encarnao.
Gabriel observou Daniel e notou que ele estava praticamente com as feies de Thierry, exatamente igual a quando vivera reencarnado na Frana.
- Por que ele est voltando a ser como era antes?
-  que ele no teve tempo de se tornar adulto na presente encarnao, ento seu inconsciente est plasmando a ltima aparncia adulta que teve. Ademais, aquela 
reencarnao trouxe-lhe experincias muito fortes;  natural que isso acontecesse.
Gabriel perguntou a Diana o que tinha curiosidade desde quando ajudara Daniel a se livrar do corpo fsico.
- Por que ele no teve tempo de crescer para viver os desafios necessrios  sua evoluo?
Diana explicou com sua pacincia caracterstica:
- J falamos outras vezes sobre as causas das mortes prematuras, e Daniel no foge  regra. Antes de nascer, ele pediu que desencarnasse cedo caso tivesse uma m 
educao que o fosse influenciar negativamente. Mais uma vez, foi o medo de falir que ditou essa escolha. Isabela prometeu levar vida digna e o instruir para o bem, 
de modo que, quando os desafios aparecessem, ele, munido de uma boa educao, pudesse venc-los. Todavia, Daniel se lembrava da personalidade de Isabela e com medo 
de cometer mais erros devido a uma orientao equivocada, solicitou voltar rapidamente.
- Mas no seria melhor ele continuar vivendo, vencer os valores errados e reajustar-se consigo mesmo?
- Era o melhor que poderia acontecer, mas infelizmente as pessoas no mundo agem pelo medo. Esse sentimento tem impedido nosso crescimento como espritos, nossa realizao 
como pessoa, e atrasado nossa evoluo espiritual. O medo paralisa, e quem pra atrai o sofrimento. No dia em que todos vencerem seus medos, aprenderem que o mundo 
no  mau, que  um lugar seguro, de paz e felicidade, certamente daro um passo definitivo rumo  evoluo. Infelizmente, as crenas negativas das pessoas tm causado 
todo o sofrimento que h em nosso planeta. Quando entenderem que no nasceram para a infelicidade, tudo mudar;  apenas uma questo de tempo.
- At quando Daniel vai ficar fugindo sem querer enfrentar os desafios que a vida vai lhe trazer?
- O livre-arbtrio  respeitado, mas at certo ponto. No podemos esquecer que quem comanda tudo no universo  Deus, por leis perfeitas e imutveis. Um dia vai chegar 
 hora de ele enfrentar o que  preciso e acabar evoluindo; se no for pelo amor, ser pela dor.
Gabriel no estava satisfeito.
- Como o Departamento de Reencarnao permite que esses espritos escolham vidas que em nada vo contribuir para seu progresso?
Diana elucidou:
- Aqui temos condies de escolher melhor do que quando estamos na Terra, envolvidos pelos problemas materiais. Todavia, ainda sim podemos fazer escolhas erradas, 
movidas por valores falsos. Se muitos escolhem corretamente os desafios que iro enfrentar no mundo, outros escolhem baseados em crenas negativas e acabam vivendo 
vrias reencarnaes que outros julgam perdidas, mas que na realidade no so. Na vida nada se perde e, em cada uma delas, mesmo quando escolhemos supostamente errado, 
estamos nos tornando mais fortes, estamos nos imunizando. Toda reencarnao  aprovada por Deus. Se Ele permite que nos equivoquemos com as escolhas  porque sabe 
que delas vamos retirar lies preciosas. O preguioso, que escolheu uma vida na ociosidade descobrir, no alm-tmulo, o quanto estava enganado e aprender a valorizar 
o trabalho. O egosta que escolheu a dor para apagar suas culpas descobrir decepcionado que o amor cobre a multido dos pecados e que  unicamente por ele que se 
apaga o mal que se fez. O medroso que escolheu a pobreza com receio de enfrentar as tentaes da riqueza acabar percebendo que enterrou seu talento e ter de voltar 
atrs, aprender a produzir, ajudar a sociedade, conduzir ao progresso. O vido pelo poder que escolheu a riqueza unicamente para satisfao de seus desejos aprender 
que dinheiro  progresso espiritual, e no fonte de paixes e egosmos, que nada produzem.
- Quer dizer que no era para existir o sofrimento?
- No. O sofrimento e a dor so criados pelo prprio homem e pela sua condio inferior. O mal s existe para aqueles que acreditam nele. H humanidade um dia entender 
isso e a Terra se transformar num paraso.
- E onde fica a lei de ao e reao? No devemos sofrer para pagar o mal que fizemos aos outros?
Diana sorriu.
- Essa  uma inverso de valores perigosa e que no nos leva ao bem verdadeiro. A lei do retorno no visa punir, mas educar. Quando agimos mal  porque no temos 
condies de fazer diferente. Quem faria o mal se soubesse os seus resultados? 
Para Deus, os maldosos, os assassinos, os mentirosos, os cruis, os corruptos so crianas espirituais que esto agindo de acordo com o nvel de evoluo que lhes 
 prprio. Como pai bom e justo que , criou para essas pessoas a reparao pelo bem e pelo amor ao prximo.  dessa forma, na boa ao e na mudana de atitudes, 
que temos a nica chance de nos redimir completamente e aprender o valor da bondade. A dor s aparece para quem insiste no mal, para quem se culpa para os que cultivam 
pensamentos negativos, para quem acha que tem de sofrer para pagar por enganos cometidos durante sua infncia evolutiva. Eis a grande causa do sofrimento humano. 
Gabriel havia entendido. Nesse momento, Daniel estava abrindo os olhos. Finalmente havia despertado. Diana se aproximou, abriu a cmara e perguntou:
- Como se sente?
- Um tanto atordoado. Quem so vocs?
- Amigos que esto aqui para ajudar. Voc est dormindo h dias. No quer sair conosco? Nosso parque  muito bonito.
- Sim, aceito. Sinto que preciso andar um pouco.
Os trs saram e ele, como quase todos que desencarnam, fazia perguntas, sem entender o que se passava. Diana e Gabriel respondiam com evasivas. Eles sabiam por 
experincia que no podiam contar a todos que haviam morrido; em muitos casos tinham de esperar que a prpria pessoa descobrisse sua real situao. Depois do passeio, 
pararam diante de uma casa pequena e Diana explicou:
- Aqui ser seu novo lar a partir de agora. Entre e descanse; depois conversaremos.
Daniel ainda estava um tanto confuso:
- No vou voltar quele quarto?
- Voc no precisa, no est doente. Mas aqui h um quarto onde poder deitar e dormir.  bom que descanse.
Ele no insistiu. Aps entrar e examinar seu novo lar foi para a cama e deitou. Mais uma vez um torpor o invadiu e ele dormiu e sonhou. Sonhou que estava em uma 
cabana tendo um encontro amoroso. As cenas se sucediam e ele se lembrou de Nathalie, percebendo que era com ela que se encontrava. Sonhou que estava invadindo um 
castelo e que tirava a vida de um homem, depois surgiu  imagem dele assassinando uma senhora. Outras cenas seguiram-se e ele se viu pequenino nos braos de Isabela 
e reviu a agonia de sua morte. Nesse instante acordou com um susto e, com os olhos abertos, falou em voz alta para si mesmo:
- Lembrei, lembrei de tudo! Minha me, Isabela,  a mesma Nathalie de antes. Fui assassino, traidor e cruel. - Em seguida, caiu em pranto sentido. Chorou por horas.
No outro dia pela manh, Diana e Gabriel foram visit-lo. Acomodados em uma espcie de sof prximo  cama, eles iniciaram a conversa:
- Pelo visto, lembrou-se de tudo. Como se sente? - perguntou Diana amavelmente.
- No me sinto bem. Muito pelo contrrio, estou me sentindo culpado por tantos crimes que cometi no passado. Minha morte foi uma fuga dos problemas que ia enfrentar 
no mundo. Sinto-me perdido - confessou desalentado.
- Procure no cultivar a culpa. Tente elevar-se com suas experincias para poder auxiliar quem realmente precisa de voc: Isabela.
- Sinto que preciso auxili-la, mas no sei como.
- Viemos aqui lhe dizer que voc pode fazer isso e que vai contar com uma pessoa muito especial para ajud-lo: sua av, Lourdes. Ela acaba de desencarnar e, assim 
que passar pelo sono reparador, vamos nos reunir e encontrar a melhor maneira de auxiliar aquela que foi sua me. Sou muito amiga dela de outros tempos e sei que 
no conseguiu ainda vencer suas fraquezas, porm no podemos desanimar. Um dia ela vai despertar. Contudo, at l, temos muito que fazer.
Daniel se emocionou e naquele instante jurou para si mesmo que tudo faria para ver Isabela se regenerar. Sentada em luxuoso sof, Isabela chorava lembrando-se do 
filho que havia morrido. A manso estava silenciosa e naquele instante ela se sentiu muito s. Nada tinha para reclamar da vida. Era rica, estava casada, tinha um 
amante, mas nada daquilo servia para faz-la feliz naquele momento. Lembrou-se da me e de quando sentavam num tronco seco de rvore em sua favela para conversar. 
Sentiu saudades dela naquele momento e chorou ainda mais. "A vida me transformou num monstro, mas no tive culpa. Tudo que fiz foi pensando no meu filho", refletia, 
tentando consolar-se. A luz do abajur foi acesa e ela percebeu que Morgana havia chegado com uma bandeja que continha ch e biscoitos.
- Coma, vai lhe fazer bem - aconselhou Morgana tentando levantar o nimo da outra por se sentir culpada.
- No sei o que se passa dentro de mim. Sinto um vazio, um buraco que nada pode preencher. Sinto que sem meu filho jamais terei a mesma alegria.
- No vai lhe fazer bem ficar assim. Pense que  rica que possui bens e que pode usufruir de tudo isso. Alm do mais, h Fernando. Quer motivo maior para a felicidade?
- Confesso que s ele me d nimo para prosseguir nessa jornada.
A outra procurou conversar sobre o amante, pois sabia que lhe fazia bem.
- Pense que um dia voc vai se ver livre do Humberto para sempre e poder viver com ele onde quiser.
Isabela fez um ar de descrena.
- Essa vida me ensinou muitas coisas, e sei perceber o que vai ao corao dos homens. Apesar de tudo, sinto que Fernando no me ama e desconfio que est comeando 
a gostar da lambisgia da Patrcia. Sinto que est comigo apenas por interesse, mas no consigo deix-lo, mesmo sabendo disso. Infelizmente, estou apaixonada.
Morgana fingiu compreender.
- Sei como so essas coisas. Tambm j me apaixonei uma vez, pouco antes de voc chegar  manso. Ele era casado, mas me contentava apenas em ser sua amante. Ns, 
prostitutas, no temos o direito ao sonho de amor e sempre soube que ele no iria ficar comigo. Felizmente voc teve sorte, encontrou Humberto, que a assumiu integralmente.
- Mas no o amo. Confesso que sentia uma atrao sexual por ele a princpio, mas, depois de conhecer a intimidade de Fernando, no posso suportar que me tome. Tenho 
de dizer que estou adorando o fato de Humberto estar impotente.
- Ele no est conseguindo ter relaes com voc?
- No, e estou dando graas a Deus. Amanh  o dia de ele chegar; espero que no tenha melhorado.
Patrcia chegou sorrindo com Fernando, aparentando muita felicidade. Cumprimentaram as duas e subiram as escadas. Isabela, com muito dio atirou longe a xcara que 
segurava. Morgana assustou-se.
- Voc tem de se controlar; eles quase perceberam. Quer colocar tudo a perder? Se a Patrcia desconfiar, voc estar perdida. Fernando no vai admitir que tem um 
caso com voc e ela vai acreditar nele, e vocs vo se afastar. E isso que quer?
Ela chorava agora de inveja e dio. Professou entre dentes:
- Vou tirar essa menina do meu caminho ou no me chamo Isabela; ou melhor, Clotilde. - Virando-se para Morgana, asseverou: - Voc vai me ajudar. Traarei um plano 
e na hora exata vamos coloc-lo em prtica. J perdi meu filho e no vou suportar perder o homem que amo.
- Conte comigo. Mas, se quiser que as coisas dem certo, dever ser fria; no pode demonstrar o que sente por Fernando, principalmente quando Humberto estiver por 
aqui.
- Esse  um bom conselho. Sinto que voc  um anjo que a vida colocou em meu caminho.
As duas terminaram o ch e Isabela subiu sem sequer imaginar que iria ser trada por aquela que mais julgava ser sua amiga. No outro dia, Humberto chegou e ela tentou 
ser paciente e estar bem-humorada. Fernando estava cada vez mais ntimo da casa e da famlia, e durante o almoo parecia mais falante do que o habitual. Isabela 
ficou desconfiada. Quando foram para a sala, ele se virou para Humberto e, em tom solene, comeou:
- Senhor Humberto, como j  do seu conhecimento, eu e Patrcia nos amamos. Estamos h certo tempo juntos e gostaramos de oficializar nossa relao. Estou pedindo 
a mo de sua filha em casamento. Gostaria de ouvir um sim de sua parte.
Humberto no estava surpreso. Percebia que a filha estava apaixonada e sabia que mais cedo ou mais tarde isso ia acabar acontecendo, mas no deixou de dar seu discurso 
de pai.
- Antes de dar a resposta, gostaria de dizer que eu e Flaviana criamos Patrcia para a felicidade. Se ela escolheu voc, acredito que tem condies de faz-la feliz, 
pois minha filha tem bom senso e no iria gostar de um rapaz que pudesse fazer sua infelicidade. Como pai, toro para que ela seja feliz. Se ela quer s-lo ao seu 
lado, que assim seja, e que tenham muita felicidade. Tm a minha bno. Mas saiba que, se um dia fizer Patrcia sofrer, ter um inimigo.
Mesmo com o tom spero das ltimas palavras de Humberto, todos ficaram muito felizes. Patrcia levantou-se, beijou o pai repetidas vezes, depois voltou a se sentar 
perto de Fernando. Humberto indagou:
- O que voc faz da vida? Suponho que tenha uma boa profisso, uma vez que deseja se casar.
Fernando esperava por aquela pergunta e estava bem preparado.
- Trabalho numa grande empresa e fui promovido. Tenho o suficiente para dar um lar a sua filha e uma vida digna. Mas no posso oferecer o conforto e o luxo aos quais 
ela est acostumada. Ns conversamos e ela insiste para que moremos aqui depois do casamento. No quero, tenho minha dignidade.
Humberto cocou o bigode e retorquiu preocupado:
- S posso conceder a mo de minha filha se voc passar a morar aqui. Esta manso  muito grande, e era o sonho de Flaviana que Patrcia, quando casada, viesse a 
morar na casa que ela mesma ajudou a construir com seu bom gosto. Alis, essa manso  de Patrcia. Antes de Flaviana morrer, ns a colocamos em seu nome, como nica 
filha viva de nosso casamento. Se no vier morar aqui, no posso concordar que se casem.
Patrcia, passando a mo pelos cabelos castanhos dele, falou com voz que a paixo tornava doce:
- Concorde, meu amor. S falta voc deixar sua teimosia de lado e aceitar.
Era tudo que Fernando queria ser adulado ao mximo. Fingiu demorar a pensar, depois reconsiderou:
- Tudo bem. Se for essa a condio, aceito.
Patrcia, muito carinhosa, o beijou vrias vezes, at que todos na sala pararam quando escutaram o barulho de vidro quebrando. Isabela, com feies que o dio modificava, 
havia quebrado a taa que segurava entre os dedos, dos quais jorrava sangue. Humberto se aproximou preocupado:
- O que h com voc? Por que fez isso?
Ela percebeu que havia se excedido e rapidamente encontrou a sada:
- Estava alheia a tudo que acontecia aqui. Pensava na morte de meu filho e sentia muito dio da vida, por isso sem querer esmaguei essa taa em minhas mos. No 
se preocupem; pedirei a Morgana que faa um curativo.
Patrcia, que havia se levantado, olhou para as mos dela e assustou-se.
- Mas ainda esto muito cortadas. Ter de ir ao mdico. Precisa de pontos.
Um dio surdo brotou em Isabela que, com feies colricas, bradou:
- Sei do que preciso, no  necessrio se meter. - Ao dizer isso, fulminou-a com o olhar e saiu da sala.
Patrcia e os outros no entenderam a sbita agresso de Isabela, a qual Humberto tentou atenuar:
- Perdoem a minha mulher. Ela est assim desde que o filho morreu; daquele dia em diante, nunca mais foi  mesma.
Naquele dia eles estavam por demais alegres para imaginar o que na realidade se passava com aquela mulher cheia de inveja. Voltaram a conversar normalmente, apenas 
Fernando parava s vezes para pensar com certo receio. Algo lhe dizia que Isabela ainda iria lhe dar trabalho. Morgana acompanhou a amiga at a cozinha, onde recebeu 
os primeiros socorros. Quando se viram a ss, Morgana comentou:
- Desta vez voc passou dos limites, mas confesso que esperei coisa pior. Precisa se cuidar para no fazer coisa parecida outra vez ou colocar seu relacionamento 
com Fernando a perder. De preferncia, nem v ao casamento. D uma desculpa, invente alguma coisa, sei l.
Ela vociferou:
- Esse casamento no vai acontecer; antes, eu acabo com essa alegria. No posso perder o homem de minha vida para uma pirralha qualquer. Tenho de imaginar algo, 
preciso agir.
Isabela rodava pela cozinha muito nervosa. Morgana tentou acalm-la:
- No acho prudente voc tentar acabar com esse casamento. O melhor  que ele venha morar aqui e que vocs continuem como sempre. Se acabar com o casamento, no 
vai poder ficar com ele, pois h o Humberto e, alm do mais, se Fernando descobrir que foi voc, poder vir a odi-la.
- Voc tem razo. Estou me deixando levar pelas emoes. Permitirei que esse casamento acontea, mas depois vou agir para que ele seja um inferno. Agora mande o 
motorista tirar o carro, pois esses cortes voltaram a sangrar. Vamos ao mdico.
Minutos depois ambas saram. Fernando tambm havia deixado  manso e Patrcia ficou s com o pai. De sbito, ela comentou:
- Senti que Isabela no ficou feliz com o meu casamento. No foi normal aquela reao de dio quando falou comigo. S no consigo entender o porqu.
Humberto, j com outro copo de usque nas mos, concordou:
- Tambm no achei normal, alis, venho notando que Isabela no fica bem quando est na presena de Fernando. s vezes fala demais, em outros momentos fica retrada... 
Hoje mesmo, enquanto vocs comunicavam a deciso do casamento, percebi que ela os olhava com rancor.
Patrcia no conseguia entender. Apesar de ser muito intuitiva, ela havia se deixado levar pela paixo. Nesse estado geralmente perdemos contato com nossa essncia 
e tudo quanto se refere  pessoa amada de modo negativo costumamos ignorar. Algumas vezes Patrcia havia sentido que Fernando no estava sendo sincero com ela, todavia, 
por no querer acreditar, no dava ouvidos  intuio e acabara perdendo o contato com ela. Tanto que nunca poderia supor que ele a estivesse traindo. A conversa 
mudou de rumo e Patrcia ficou feliz quando o pai comunicou-a de que finalmente iria ao centro naquela noite para fazer uma consulta.
- Fico feliz que tenha tomado essa deciso. No poderei acompanhar o senhor hoje, mas garanto que iremos juntos outras vezes. Quem vai l uma vez sempre deseja voltar.
Ele, meio envergonhado, confessou:
- Estou indo empurrado pela vida. Tenho passado por muitos problemas ultimamente e h muito no me ligo a essas coisas de religio. Nem sei h quanto tempo fiz uma 
orao.
- Sempre  tempo para nos dedicarmos  espiritualidade. O senhor falou em religio, mas posso garantir que espiritismo e espiritualidade nada tm a ver com religio. 
Ao freqentar o centro,  senhor vai descobrir que  muito mais que isso; trata-se do estudo das leis de Deus e da vida.
Humberto queria mesmo descobrir como tudo isso funcionava e foi com ansiedade que esperou a noite chegar. Isabela passara o resto do dia deitada pretextando uma 
dor de cabea e ele saiu sem avisar. O centro iniciava suas tarefas s oito da noite em ponto e ele no queria se atrasar. Com o endereo em mos, partiu. Ao chegar 
na frente do prdio, se surpreendeu. Era muito grande e a fachada moderna indicava que as pessoas tinham bom gosto. Quando entrou, logo sentiu uma sensao agradvel 
de paz. Mesmo assim, procurou sentar em uma das ltimas filas; no queria encontrar nenhum conhecido. A despeito disso, viu o doutor Caldas, que acenou com a mo. 
As luzes se apagaram, ficando acesas apenas pequenas lmpadas verdes. O dirigente fez uma prece a Deus evocando a presena dos amigos espirituais e falou sobre a 
importncia da f. Uma moa distribuiu um papel com o nmero que indicava a ordem das consultas, e Humberto percebeu que teria de esperar um pouco. Mas a espera 
foi agradvel. O ambiente em penumbra, com msica relaxante, provocou em Humberto uma sensao de bem-estar como h muito ele no sentia. Todos ns nos sentimos 
felizes e serenos quando entramos em contato com a espiritualidade. No turbilho do mundo, envolvidos pelos problemas materiais e com as regras da sociedade, muitas 
vezes nos esquecemos desse contato e de como ele nos beneficia. E por isso que todo ser, ao meditar, orar ou freqentar lugares onde mora a espiritualidade superior 
sente sensaes de paz e alegria que no esto acostumados a ter na rotina do dia-a-dia. Humberto ignorava que para estar ali naquele momento muito esforo fora 
empreendido pelos seus amigos espirituais e por Flaviana, que agora procurava auxili-lo a encontrar o caminho do bem. Juvncio, Romrio e Nicodemos tudo tentaram 
para impedir que ele chegasse ali. Primeiro planejaram mexer no mecanismo do carro para que ele no conseguisse dirigir, depois pensaram em induzi-lo a um sono profundo, 
tambm cogitaram visitas de amigos da poltica e, por fim, uma terrvel dor de cabea. Nada conseguiram porque os espritos do bem estavam em alerta e havia em Humberto 
o desejo sincero de melhorar. Mas nem sempre isso acontece. As pessoas, quando chamadas a um lugar de orao e espiritualidade, costumam ter toda espcie de problemas 
corriqueiros: dores de cabea e mal-estar, visitas inesperadas, falta de vontade de ir, acidentes domsticos, desnimo, entre outros.  preciso o desejo sincero 
do bem para obter proteo. Finalmente chegou sua hora e ele, um pouco envergonhado, entrou em pequena sala iluminada apenas por uma lmpada azul. A atendente perguntou:
- Qual o motivo de sua consulta? Aqui estamos dispostos a ajudar em nome de Deus e no deve temer confessar seus problemas. Somos todos seres humanos e necessitamos 
em algum momento da ajuda espiritual.
Ele estava tmido, mas a voz doce daquela mulher lhe inspirou confiana. Alm do mais, o ambiente em penumbra facilitava  timidez inicial se transformar em coragem, 
afinal, ele j no agentava mais lidar com a impotncia.
- Eu... Estou com problemas de sade. Procurei um mdico, fiz exames, tomei remdios, mas nada adiantou. Minha filha acha que pode ser problema espiritual, at meu 
prprio mdico, que  trabalhador desta casa, afirmou que posso estar sendo assediado por espritos perturbadores. Por no agentar mais a situao, venho pedir 
ajuda.
- Em primeiro lugar, gostaria que soubesse que todas as nossas doenas vm de atitudes negativas que estamos tendo para conosco. A depender do tipo de doena que 
atramos, acabamos por descobrir sua causa. O que se passa com voc?
Ele hesitou um pouco, depois, tomando coragem, revelou:
- Estou impotente h vrias semanas. Voc deve saber como  difcil para um homem falar sobre esse problema, mas a situao tem piorado. Como os espritos podem 
ajudar?
A atendente demorou um pouco e respondeu:
- Voc j procurou a medicina terrena e no conseguiu se curar. Os amigos espirituais esto dizendo que o problema est na parte energtica. Voc atraiu esse problema 
porque precisava desenvolver sua conscincia.
- H espritos envolvidos no assunto?
- Sim, mas no precisa se assustar com isso. A interferncia dos espritos em nossa vida  mais constante do que se pode imaginar, e todas as pessoas so envolvidas 
por eles, mesmo que no percebam. A impotncia sexual aparece quando o homem comea a se sentir fracassado na vida ou quando se sente inferior a sua parceira. Tambm 
pode acontecer quando ele gosta de manipular e dominar as pessoas  sua volta, ento a vida manda esse problema para que ele acorde e se torne melhor. Mas seu caso 
no  esse; sua impotncia tem origem espiritual. Tudo indica que espritos ainda presos aos interesses que deixaram na Terra esto tentando baixar seu padro energtico, 
levando-o  depresso e ao complexo de inferioridade, por objetivos que estamos longe de saber.
Humberto estava um pouco assustado; aquilo era muito novo para ele. Ainda assim, arriscou uma pergunta:
- Por que eles conseguiram me atingir?
- Uma obsesso pode acontecer por diversos motivos, mas em todos os casos foi o obsediado quem abriu suas energias para essa invaso. No seu caso, foi para que despertasse 
para a vida espiritual. Voc precisa deixar o materialismo que o vem infelicitando h muitas vidas. - Ela falava com voz levemente modificada. - Pelas iluses da 
matria voc sofreu e fez sofrer, mas chegou o momento da mudana e do amadurecimento. De agora por diante, se quer ficar bem e curar-se do mal que o aflige, dever 
cultivar a espiritualidade, estudar as leis das energias e aprender a se defender. Todas as pessoas tero de passar por esse momento.
Ele estava confuso.
- Mas eu no acredito muito nessas coisas. Depois, no quero ser mdium nem servir aos espritos. O que mais desejo  ter minha vida de volta.
- No estou dizendo que voc precise trabalhar com os espritos, mas s conseguir curar-se se inverter os valores em sua vida, colocar os espirituais acima dos 
materiais, fazer uma reformulao no mundo interior. Sua hora chegou Humberto. Pense nisso com carinho.
A consulta parecia ter terminado e Humberto estava insatisfeito.
- Quer dizer que s vim aqui para conversar? No vou fazer nenhum tratamento?
- Vai sim. Vou colocar seu nome no caderno para os trabalhos de desobsesso e agora voc vai para a cmara de passes, mas dever voltar nesses dias para o tratamento. 
- Ela lhe deu um papel, que ele guardou no bolso. Depois sorriu e falou: - Fique com Deus, Humberto!
Ele ficou encantado com aquele sorriso e com a delicadeza daquela mulher; algo nela mexera profundamente com ele desde que entrara na sala.
- Posso saber seu nome?
- Chamo-me Slvia. Foi um prazer conhec-lo.
Humberto se despediu, foi para a sala de passes e depois saiu. Mesmo no sendo como ele esperava, uma esperana nova brotou em seu corao. Contudo o que mais o 
intrigava eram a voz e o sorriso de Slvia, que no lhe saam do pensamento.

17 - INTRIGA

Alguns meses se passaram e Humberto continuou seu tratamento. Todavia os resultados no apareciam e ele comeou a ficar triste e depressivo. Vendo a alegria de sua 
filha preparando o enxoval para o casamento e a harmonia que aparentemente reinava em seu lar, ele nada dizia a ningum e sofria calado. Isabela fingia compreender 
e no se importar com a falta de relaes entre eles, dizendo am-lo mesmo que nada acontecesse entre os dois. Ele se enternecia pelos sentimentos dela e prosseguia 
esperanoso, mas nada o fazia melhorar. Por outro lado, Isabela continuava com os encontros com Fernando, agora com mais intensidade. Fingia aceitar o casamento, 
mas o fizera prometer continuar sendo seu amante mesmo depois de casado. Era um final de tarde e Marlia estava ansiosa para que o filho chegasse do trabalho. Precisava 
ter uma conversa sria com ele. Desde que pedira a mo de Patrcia em casamento e as famlias tinham estreitado suas relaes, Marlia conhecera Humberto e Isabela 
num jantar e sentira que aquela mulher era perigosa e poderia colocar seus planos a perder. Impaciente, ela esperou. Quando finalmente Fernando chegou, ela mal o 
deixou afrouxar a gravata e foi logo dizendo:
- Precisamos conversar seriamente. Sou sua me e sinto que sua vida pode desmoronar a qualquer momento, caso no termine seu relacionamento com aquela mulher vulgar.
Ele no esperava ouvir isso da me e sentou-se ao seu lado. Costumava ouvir e seguir tudo que Marlia lhe dizia. Se ela o estava alertando, certamente sabia algo 
importante.
- Por que a senhora diz isso? Afinal, foi a primeira que me incentivou a manter esse relacionamento. Sabe de algo que no sei?
- Eu no a conhecia, mas depois que a vi percebi que essa mulher vai lhe causar muitos aborrecimentos. Ela tem gnio e  voluntariosa, pode at separ-lo da Patrcia.
- Tambm sinto isso, mas no tenho coragem de romper a relao que temos. Apesar de tudo, gosto do prazer que ela me proporciona, alm das facilidades financeiras.
Marlia o olhou seriamente.
- Se quer ter um belo futuro, status e estabilidade ao lado de sua mulher, dever romper com Isabela o quanto antes. Tenho pressentimentos de que algo de ruim vai 
acontecer. Prometa a mim neste momento que ainda hoje por fim a essa relao.
Marlia falava severamente, e Fernando se impressionou.
- Prometo fazer o que me pede, mas sei que no ser fcil. Isabela far de tudo para me prender a ela.
- Resista, negue, mas se afaste dessa mulher.
- Temo que ela possa revelar nossa relao. No posso mais viver sem Patrcia.
- Ela no vai ter essa coragem. Poder ser vista como adltera e perder seus direitos no rico casamento que fez. E melhor fazer o que estou dizendo, e rpido.
Fernando estava realmente impressionado. Deitou no sof e colocou a cabea no colo da me, que acariciava seus cabelos lisos. Estava decidido: entre ele e Isabela 
nada mais poderia acontecer. Aps tomar um banho e jantar, ligou para ela e marcou um encontro para a prxima tarde. Era sbado e ele estaria de folga. Isabela estranhou; 
geralmente quem marcava os encontros era ela. Conversou com Morgana, que a fez acreditar que ele estava cada vez mais apaixonado, por isso estava marcando para se 
encontrarem. Isabela esperou o outro dia chegar com ansiedade. Na hora marcada, estava l. Quando Fernando entrou, ela, como sempre, correu para abra-lo e beij-lo 
nos lbios, mas desta vez ele no correspondeu.
- O que est havendo com voc, meu amor?
- Isabela, precisamos conversar. Tenho repensado minha vida, estou noivo, vou casar daqui a um ms... - Ele parou, hesitando. No sentia coragem para dizer o que 
queria.
Isabela, percebendo o que ele iria dizer, o encorajou:
- Vamos, diga, quero que v at o fim.
- No sei como lhe dizer isso. Voc  uma pessoa muito especial para mim, me auxiliou muito, nossa relao  boa, mas no devemos continuar com ela. A partir de 
agora, no teremos mais nada. Acabou.
Isabela ouvia sem querer acreditar. Seu corao batia descompassado; o ar parecia faltar-lhe aos pulmes. Mesmo assim, reuniu foras para continuar.
- Quando tomou essa deciso? H menos de trs dias estvamos juntos e tudo parecia bem. Voc jurou que ficaria comigo mesmo depois de casado. Chegamos a fazer planos. 
Como pode dizer isso agora? - Ela estava desesperada. Realmente amava Fernando, e no queria a separao. Porm ele, instrudo pela me, deu o golpe final:
- Descobri que amo Patrcia e  com ela que quero ficar. Desejo ser fiel, am-la como ela merece. No amo voc; desde o princpio nossa relao no passou de uma 
aventura.
Cada palavra dita por ele parecia atingir o corao de Isabela como um punhal. Ela comeou a sentir um dio surdo e deu uma bofetada no rosto dele. Fernando, envolvido 
pela raiva, comeou a esbofete-la. Ela foi revidando e ele, dominado por uma fora estranha, comeou a chut-la e acabou jogando-a no cho. Ele tinha fora duplicada 
e logo ela estava toda sangrando. Ainda com muito dio, ele disse:
- Espero que isso sirva para aprender a me respeitar. No gosto de mulheres vadias como voc.
Fechou a porta e saiu. Isabela estava louca de raiva, decepo e angstia. Seu sonho de amor havia chegado ao fim. Mas isso no ficaria assim. Ela encontraria uma 
maneira de se vingar e acabar com aquele casamento. Seu corpo doa e os cortes estavam sangrando. O que iria dizer quando chegasse em casa? Havia sado sem Amaral, 
o que no costumava fazer. Tentou se levantar e foi com dificuldade que conseguiu. Ao descer, tomou um txi e foi para casa. Todos se espantaram com o estado de 
Isabela. Ela, muito hbil, contou que tinha sido assaltada e tentara reagir, por isso fora violentada. Morgana, muito desconfiada, conseguiu a verdade da amiga, 
que chorava muito e, com feies animalescas, planejava vingana. Humberto estava em Braslia e s estaria em casa no outro fim de semana, o que em muito aliviou 
Isabela. No queria que o marido a visse com aqueles ferimentos e aquelas manchas roxas. J bastavam as perguntas de Patrcia, de Eudsia e dos empregados. Morgana 
aproveitou que estava de folga e foi visitar madame Aurlia. Ao entrar naquela casa, sentiu saudades do tempo em que morava l. Aurlia e Luana chamaram-na para 
o quarto onde trocavam confidencias. Morgana comeou a relatar os ltimos fatos.
- Foi isso mesmo que aconteceu. Fernando terminou tudo com ela e ainda a espancou. Nosso plano de denunci-la a Humberto no vai dar certo e, alm de tudo, ela quer 
meu auxlio para separar o casal.
A cafetina pensou um pouco, ento respondeu:
- Esse plano no est perdido e podemos ainda fazer com que Humberto saiba a verdade. Voc ser a encarregada.
- Como poderei fazer algo, se eles no esto mais unidos?
- Voc colocar na mente de Isabela a idia de que ainda pode se reconciliar com Fernando. Eles precisam se encontrar, mesmo que seja apenas uma vez, para conversar, 
e da voc contar a Humberto toda a verdade e indicar o local onde se encontram. Far mais: descobrir o dia que vo se encontrar far uma cpia da chave do apartamento 
e dar a Humberto. Ele ouvir tudo e a expulsar de casa. Seja amiga dele, insista em que ele precisa fazer um flagrante de adultrio; s assim ela perder o que 
adquiriu com o casamento e terminar mais pobre do que nunca.
Luana anuiu:
- Isso mesmo. Ela jamais desconfiar de voc. As pessoas confiam muito mais nos falsos amigos do que nos amigos verdadeiros, sempre foi assim. Faa isso e aposto 
que Humberto ainda a recompensar financeiramente.
Morgana era falsa, mas no ntimo no gostava do que estava fazendo. Ela no via motivo para tanto dio por parte de Aurlia e no podia compreender como uma pessoa 
como Luana praticava o mal somente por inveja. No fundo, no via a hora de tudo isso acabar para que pudesse voltar ao interior e viver ao lado dos pais. Morgana 
ficou pensativa. Aurlia percebeu.
- No adianta tentar fugir de nossos planos. Voc quis ser to vingativa quanto ns duas e agora no poder voltar atrs.
J cometeu um crime, matou uma criana e, se no cumprir o que prometeu quem terminar morta  voc.
Sentindo-se ameaada, ela tentou contemporizar:
- No estou querendo fugir madame. Apenas pensava no motivo to pequeno que transformou a mim e a senhora em assassinas cruis.
- E que voc  muito ingnua e no sabe do que o ser humano  capaz. Todos ns carregamos no ntimo sentimentos que desconhecemos. Isabela me transformou no que 
sou hoje.
Morgana no insistiu. Aps ouvir mais uma vez o meticuloso plano, voltou para a manso. Ao chegar, foi logo procurar a amiga, que escondia o rosto entre almofadas.
- Como voc est?
- No consigo pensar em outra coisa, a no ser em vingana - falou Isabela demonstrando dio. - Amo Fernando demais para ter de perd-lo. Se ele no for meu, no 
ser de mais ningum.
- Compreendo que queira se vingar, mas o amor de vocs foi muito grande. Fernando pode ter feito o que fez movido por alguma presso. Nunca lhe ocorreu que ele pode 
estar arrependido?
Isabela pareceu pensar, depois comentou:
- No acredito. Senti muita deciso nas palavras dele. E ele foi violento, coisa que no costuma ser. Sei que a situao est perdida, mas no posso deixar esse 
casamento acontecer, e, se acontecer, tenho de encontrar uma forma de afast-lo de Patrcia, custe o que custar. Agora s me resta a vingana. Mas tenho de tomar 
cuidado para que Humberto jamais saiba que estou por trs.
Morgana comeou a sentir que Isabela estava decidida. Ela precisaria ser muito persuasiva para tentar faz-la mudar de idia. Resolveu continuar apelando para sua 
paixo. Ela conhecia muito bem esse sentimento; sabia que, quando uma mulher se apaixona, se ilude com muita facilidade e qualquer esperana, mesmo falsa, reacende 
a chama. Com voz meiga, ela tornou:
- Ainda no acho que voc esteja certa. Movidos pelo dio podemos cometer atos dos quais vamos nos arrepender futuramente. Sei que voc o ama e tambm senti que 
ele ama voc; percebi pelos olhares que ele lhe lanava. Uma paixo assim no termina de uma hora para outra. Insista; se quer ser feliz, dever lutar por ele.
O rosto de Isabela se iluminou. Ela gostou muito de ouvir tudo aquilo.
- O que acha que devo fazer? Tenho medo at de voltar a me aproximar dele depois de tudo o que me fez. E se voc estiver errada? E se estiver mesmo disposto a me 
abandonar?
- Voc sabe que no me engano com as pessoas. A vida num bordel pode nos ensinar muitas coisas, inclusive a perceber quando um homem est apaixonado de verdade. 
Acredite, ele est se casando por convenincia, mas ama realmente voc. Vai deixar essa chance escapar? Procure o Fernando, marque com ele um encontro, fale que 
ser a ltima vez. Quando estiverem frente a frente, diga que o ama que o perdoa que deseja um retorno. Faa alguma coisa, mas lute por esse amor! Tenho certeza 
de que ele vai ceder e voltar para voc.
Morgana falou com tamanha empolgao que Isabela se convenceu de que era verdade. Sua vaidade falou mais alto e naquele momento ela realmente acreditou que Fernando 
a amava e que ambos tornariam a viver a paixo de antes. Aquela conversa teve o dom de animar Isabela, e ela passou a planejar tudo. Morgana estava muito feliz; 
sua parte no plano estava sendo perfeitamente desempenhada.  noite Fernando apareceu, mas Isabela continuou reclusa em seu quarto. S queria aparecer quando os 
hematomas estivessem desaparecidos. Mesmo assim, foi  sacada e de l viu Patrcia e ele fazendo planos para o futuro e se beijando apaixonados. De repente pensou 
que Morgana estava enganada e que realmente ele havia deixado de am-la, mas, envolvida pelos seus companheiros espirituais, logo estava pensando nas mesmas iluses 
de antes. Teve de buscar foras ao ver Patrcia e Fernando dirigirem-se ao quarto, mas pensava que logo as coisas estariam como antes. Os dias foram passando e as 
marcas no corpo de Isabela j haviam desaparecido ento ela comeou a sair. Ao rever Fernando lembrou que fora gravemente violentada, mas tambm imaginou que ele 
agira por impulso e imediatamente o perdoou. Tratou-o como se nada tivesse acontecido e o fez to bem que o prprio Fernando imaginou que a surra havia servido para 
que ela o esquecesse de vez. Mas qual no foi sua surpresa quando, ao se vir a ss com Morgana, ela comentou:
- Fernando, no quero que ache que estou sendo abusada, mas sei tudo que aconteceu entre voc e Isabela. A princpio ela ficou desesperada, porm agora reconhece 
que foi imprudente envolvendo-se numa relao como essa. Ela me pediu que conversasse com voc e quer que lhe diga que, apesar de tudo, ainda o ama e deseja um ltimo 
instante com voc antes que se case.
Fernando pareceu perceber que se tratava de um jogo e respondeu em voz baixa, com receio de que algum mais escutasse:
- No sei o que vocs pretendem, mas diga a sua amiga que nada mais existe entre ns. Essa relao foi um erro; amo Patrcia e pretendo ser fiel a ela. Se voc realmente 
sabe o que aconteceu, nem deveria estar aqui falando comigo.
Ele ia se levantando do sof, mas Morgana segurou em seu brao e pediu splice:
- Acredite, Isabela est modificada. Ela no deseja um retorno, apenas quer ter um instante em que possa falar o que sente e dizer pessoalmente que quer sua felicidade 
e que no est contra seu casamento. Aceite v-la uma ltima vez, s vocs. E muito importante para ela e  o mnimo que voc pode fazer depois do que aconteceu.
- Prometo pensar. Agora me deixe ir, no quero que minha futura mulher me veja de cochichos com voc.
- Prometa me dar a resposta o mais rpido possvel. Faa isso em nome de tudo que a Isabela fez por voc.
- Est bem - disse secamente, e saiu.
Morgana puxou Isabela para o quarto e mentiu:
- Ele aceitou rapidamente. Falou que est arrependido pelo que lhe fez e confessou que a ama. S lhe pede um tempo, pois ainda est envergonhado pelo que ocorreu.
Isabela parecia flutuar. Ento era verdade: o homem que ela amava tambm lhe correspondia. Fizera aquela desfeita porque se encontrava em um mau momento, e ambos 
podiam voltar a se amar. A felicidade era tanta que ela sorria e abraava Morgana.
- Obrigada pelo que me fez. Sem seus conselhos talvez agora estivesse perdida numa vingana que s ia me afastar da pessoa que mais amo neste mundo.
Morgana fez um ar de superior e respondeu:
- Sou experiente. Sei reconhecer quando um homem est amando. Agora vamos aguardar ele marcar a data.
Muito feliz, sem imaginar a teia que estava sendo tecida, Isabela saiu s compras e s muito tarde retornou ao lar. Morgana estava preocupada e temerosa; no queria 
que Fernando marcasse o encontro para um dia que Humberto estivesse em Braslia, contudo tinha algo em mente para usar caso isso acontecesse. Humberto s chegaria 
na sexta pela manh e o esperado aconteceu: Fernando disse que queria ver Isabela na quinta  tarde. Morgana fingiu aceitar, no entanto falou  amiga que o encontro 
seria no sbado. Quinta-feira, Fernando estava no apartamento esperando quando Morgana apareceu.
- Vim para dizer que Isabela est passando mal em casa, com uma terrvel enxaqueca. Pede que a perdoe e quer remarcar o encontro para o sbado neste horrio. Amanh 
Humberto chega e ela no quer sair no primeiro dia em que ele est em casa.
Fernando, nervoso, passou a mo pelos cabelos lisos.
- No sei o que ela ainda tem para me dizer. Fui muito claro da ltima vez que estive com ela. Diga que no volto mais.
Morgana sentiu-se irritada. Se o plano sasse errado, madame Aurlia no a perdoaria; tinha de ser rpida.
- Tambm no concordo com esse encontro, mas ela quer ter a chance de lhe dizer que est arrependida e disposta a levar uma vida de paz com voc e Patrcia, afinal 
todos vo morar na mesma casa.
- Se  s isso que ela quer me dizer, ento diga que no precisa. J sei do que se trata e estou informado.
Morgana lanou a ltima cartada:
-  que ela quer lhe dar um presente como lembrana do que viveram.
Ele sorriu.
- E essa agora! Diga que no quero mais nada.
- Trata-se de algo valioso, um presente muito caro para selar a paz!
Fernando pensou: "Ser o relgio de ouro com o qual tanto sonho?" A esse pensamento, resolveu aceitar.
- Diga-lhe que aceito, mas, se no aparecer no sbado, no voltarei atrs.
Morgana, muito satisfeita, esperou Fernando sair e depois foi fazer uma cpia da chave. Precisava dela para dar continuidade ao seu plano. Quando chegou em casa, 
o jantar estava sendo servido. Mesmo assim, conseguiu subir e recolocar a chave do apartamento onde Isabela a guardava; s ela sabia o local. A sexta-feira transcorreu 
calma. Apenas Isabela demonstrava uma ansiedade fora do normal. Humberto chegou e foi recebido com alegria por todos, inclusive por Fernando, que se encontrava na 
manso. Morgana estudava uma maneira de falar com Humberto a ss, mas no via como. Na medida em que as horas foram avanando e eles foram se recolhendo, ela decidiu 
ficar acordada. Sabia que Humberto tinha o costume de acordar  noite para um lanche, e ela o esperaria de viglia. No quarto de Isabela, mais uma vez Humberto no 
havia conseguido fazer amor e os dois estavam tensos e nervosos. Ele resolveu comentar:
- Acho que esse tratamento espiritual no est fazendo efeito. Estou nele h mais de dois meses, e nenhuma melhora aconteceu.
Isabela fingiu ser compreensiva e se interessar pelo assunto.
- Voc sabe que no acredito em nada disso, mas acho que deve ter pacincia. Patrcia fala que esses tratamentos so demorados e no se resolvem de uma hora para 
outra.
- A Slvia tambm diz a mesma coisa. Mas  que d uma vergonha... Sinto-me o pior dos homens!
Ela comeou a fazer carinhos forados nele, enquanto dizia com voz dengosa:
- No fique assim. Sou sua mulher e no me importo, portanto no tem com que se preocupar. A no ser que queira mostrar seu desempenho com outra...
- Nada disso. S penso em voc. Acho que traa a Flaviana porque no a amava, mas com voc  diferente. No penso em ter mais ningum. Tambm no gostaria de ser 
trado. A Slvia sempre diz que recebemos os resultados das nossas atitudes, porm confesso que me  muito penoso pensar em receber a traio de volta.
Isabela no estava gostando do rumo que a aquela conversa tinha tomando e resolveu inverter a situao:
- Jamais trairia voc, mas vejo que est muito empolgado com essa Slvia. J falou nela duas vezes. Vou avisando que no tolero traies; no sou como a mosca morta 
da sua ex-mulher.
- A Slvia  uma mulher que muito admiro,  uma das terapeutas do centro que freqento nada de mais. Est com cimes?
- Sim. Nem todas as mulheres tm a chance de estar com um homem como voc.
Humberto se sentiu valorizado. Mesmo estando impotente, sua mulher o amava e o respeitava; at cimes estava sentindo. Os dois resolveram dormir, mas Humberto no 
conseguiu. Sentiu a fome costumeira e a vontade de "assaltar a geladeira" o fez levantar e ir at a cozinha. Isabela dormia profundamente e nem percebeu que ele 
se levantara. A casa estava s escuras e ele, mesmo conhecendo o caminho, sentiu certa dificuldade para chegar  cozinha e acender a luz. Quando conseguiu, levou 
um verdadeiro susto. Sentada em uma cadeira que circundava uma mesa pequena estava Morgana, com olhos muito abertos a fit-lo. Quando o viu, falou em voz baixa, 
mas com firmeza:
- Humberto, esperei todo esse tempo porque sei que durante a noite costuma se levantar e vir at a cozinha. Contive meu sono porque preciso lhe falar com urgncia. 
No d mais para segurar esse segredo, est me fazendo mal.
Humberto coou o bigode com curiosidade. Ela estava realmente nervosa, e se o tinha esperado quela hora era porque deveria ser algo srio. Perguntou:
- Mas o que pode ser to grave que no pde me dizer durante o dia?
- Sente-se que a histria  um pouco longa e o senhor tem de saber tudo.
Ele puxou a cadeira para ouvi-la, sentindo-se cada vez mais curioso.
- Para iniciar devo lhe dizer que no sou prima da Isabela coisa nenhuma. Ela no tem parentes no Nordeste, pois, como o senhor mesmo sabe, saiu de uma favela aqui 
mesmo de So Paulo, direto para a casa de madame Aurlia. Sou uma das meninas que trabalha na Manso de Higienpolis, o senhor no me reconheceu porque no freqentava 
o lugar com assiduidade e as poucas vezes que esteve l s tinha olhos para Isabela. Pois bem, madame Aurlia, preocupada com sua vida, pois muito o estima, pediu 
que eu mentisse para Isabela dizendo que fui expulsa de l e que no tinha para onde ir. O plano deu certo e ela me chamou para morar com vocs. Na verdade, estou 
aqui como espi. A madame achava que Isabela poderia a qualquer momento prejudic-lo e eu, como melhor amiga dela, saberia de tudo com antecedncia e poderia inform-lo. 
Mas nunca pensei em descobrir algo to terrvel...
Humberto se impacientou. No estava gostando nada daquilo. Uma espi em sua casa? Com que inteno?
- Onde est querendo chegar?
- No sei como lhe dizer isso, mas h alguns dias descobri que Isabela o trai.
Humberto corou.
- Como?
- Isso mesmo. Sem querer, acabei sabendo de tudo. Flagrei Isabela e Fernando se beijando aqui mesmo nesta cozinha.
Pressionei e ela me contou tudo: so amantes h muito tempo. Tentei guardar esse segredo, mas vendo o senhor to justo e bom no consegui me conter. Fernando, seu 
futuro genro, tem um relacionamento com sua esposa e, pelo que sei, pretendem continu-lo mesmo depois que ele se casar com Patrcia.
Humberto sentia a cabea rodar. Pensamentos contraditrios passavam por sua mente. S podia ser mentira. Aquela mulher estava ali para fazer intriga, para se vingar 
por Isabela ter conseguido um bom casamento e ter deixado o bordel.
- Voc est mentindo; Isabela  fiel. Aurlia a mandou aqui apenas para fazer intriga e se vingar de mim e de minha mulher. Conheo-a bem para saber que jamais se 
preocuparia comigo a ponto de enviar uma das suas meninas somente para me proteger. Agora saia daqui e amanh a quero fora de minha casa. Alm de mentirosa,  falsa; 
est a todo instante com minha mulher e a trai covardemente inventando uma farsa como esta. Fernando  um bom rapaz e tambm no merece o que voc est fazendo.
- Oua-me pela ltima vez. Sei que a madame tem o desejo de ver Isabela mal, mas eu jamais inventaria uma trama como essa. Esta chave abre a porta do apartamento 
onde eles se encontram. Tomei a liberdade de tirar uma cpia para que o senhor possa entrar primeiro e se esconder para ouvir o que vo dizer. Acredite em mim: eles 
vo se encontrar amanh s trs da tarde, e aqui est o endereo. - Ela pegou um papel e o entregou junto com a chave.
Humberto estava confuso, parecia ser mesmo verdade. Morgana falava com seriedade e estava tentando mostrar-lhe a prova. Um grande dio brotou dentro dele. Se Isabela 
o estivesse traindo com Fernando, no saberia qual seria sua reao. Pegou a chave da mo dela e a guardou.
- No vou mand-la embora enquanto no verificar se o que diz  mesmo verdade. Agora v dormir. J me disse tudo que tinha para dizer.
- Antes, quero lhe fazer uma sugesto: por que no faz um flagrante de adultrio? Isabela perderia todos os direitos do casamento e voltaria pobre para o olho da 
rua.
Humberto estava irritado demais para pensar naquilo.
- V dormir,  o melhor que tem a fazer.
Ela saiu radiante, deixando Humberto pensativo. Se Isabela o trasse seria para ele o fim. Tinha uma arma em casa, e decidiu lev-la. Como ela poderia ter coragem 
de tra-lo e, alm de tudo, com Fernando? Era demais para a honra de um homem, e ele resolveu que a lavaria com sangue. De volta  cama, vendo Isabela ressonar, 
pensou em mat-la ali mesmo, mas resolveu esperar o outro dia para confirmar a histria. Sabia que as prostitutas eram muito invejosas e gostavam de prejudicar umas 
s outras. Poderia ser uma armao para destruir seu casamento. O resto da noite virou na cama, s conseguindo adormecer quando o dia clareou por completo.

18 - A NOVA REALIDADE

O sbado amanheceu bonito e na manso tudo corria como sempre. Humberto no saiu pela manh e,  tarde, pretextando uma visita a amigos, se ausentou de casa. Isabela 
ficou feliz, pois, com o marido fora de casa, no tinha de dar satisfaes quando sasse. Em seu quarto, ela se arrumava com esmero. Precisava estar o mais bonita 
possvel para Fernando. S em pensar que novamente poderiam se encontrar, um arrepio percorria todo o seu corpo. Ao descer as escadas, Morgana elogiou sua beleza, 
o que a deixou ainda mais animada. Assim ela saiu. Pediu que o motorista a deixasse no lugar de sempre e dali tomou um txi, indo em direo ao apartamento. Enquanto 
isso, Humberto, de posse da cpia da chave, entrou no apartamento e o que viu foi lhe tirando o flego. Havia fotos de Fernando e Isabela espalhadas pelos aposentos, 
algumas com cenas de intimidade, mostrando claramente que mantinham um romance. Ele no conseguia acreditar e pensava: "Como pude me deixar enganar por uma mulher 
desse tipo? Depois de tudo que fiz para ela, de ter lhe dado um nome, posio, ela me retribui com uma traio, e com o pulha do meu genro?! Canalhas! Pagaro caro 
o que esto fazendo comigo e com minha filha. Por que no pensei em fazer um flagrante? No fundo, eu no acreditava que isso fosse verdade, mas agora  tarde. Os 
dois pagaro com a vida o que esto fazendo". Ao pensar nisso, sombras escuras se aproximaram e o abraaram com prazer. Humberto examinou cada detalhe do apartamento 
e, ao lembrar que ele era mantido com seu dinheiro, sentiu a raiva aumentar. De repente, ouviu barulho de fechadura e se escondeu atrs de um mvel. Do local onde 
estava percebeu que Fernando havia entrado, ido at o bar e se servido de uma bebida. Depois o viu se acomodar no sof e teve gana de mat-lo naquele momento. Mas 
tinha de ser os dois. Humberto sentia tanto dio que no pensava na sua posio como poltico, como pai, como homem da sociedade; s a vingana prevalecia. Ele havia 
amado Isabela de verdade, mas seu amor era possessivo e no admitia uma traio como aquela. De repente, a porta se abriu e Isabela entrou. Vendo-se to prxima 
de Fernando, ela no resistiu e correu a abra-lo e beij-lo repetidas vezes.
- Meu amor, eu sabia que voc ia me perdoar, que tudo voltaria a ser como antes. Vem, quero amar voc.
Ele no retribuiu e afastou-a bruscamente.
- O que significa isto? No vim aqui para fazer as pazes com voc. J disse que em breve vou me casar e que nosso caso ficou no passado. O que est armando para 
mim agora?
Isabela estava sem entender.
- Como? Voc no me perdoou e no deseja voltar? Por favor, no brinque comigo. Sei que me ama e deseja voltar para mim a fim de vivermos como antes. Por que est 
fazendo esse jogo agora?
- No estou fazendo jogo nenhum. Sua amiga Morgana me procurou e disse que voc estava arrependida, que nosso caso havia sido uma loucura e que queria conversar 
comigo como uma despedida. Tambm falou que me traria um presente, como recordao dos momentos que vivemos juntos.  voc que est fazendo jogo comigo. Agora entendi 
tudo. O que voc quer  uma reconciliao e usou essa artimanha para me reconquistar. Sabe o que voc merece? Outra surra como aquela que lhe dei outro dia.
Isabela estava nervosa. Algo estava muito errado.
- Fernando, preste ateno, h um compl contra ns. Morgana disse que voc havia me perdoado que me amava e desejava estar novamente comigo. Foi ela quem marcou 
nosso encontro para hoje. Tambm achei estranho, depois daquela sua atitude, essa mudana to repentina. Estava perdendo as esperanas, quando a vida pareceu se 
iluminar novamente.
- Essa sua amiga vagabunda quer aprontar alguma para ns dois, mas no entendo o qu.
- Eu vou explicar - era a grossa voz de Humberto, que acabava de aparecer, com o revlver em punho e dedo no gatilho. - Chegou o fim de vocs, mas antes quero lhe 
dizer Isabela, que voc  a pior pessoa que conheci nesta vida, uma ingrata. Depois de tudo que fiz,  assim que me retribui? Aurlia me avisou que voc no prestava, 
mas envolvido por seus feitios no ouvi a voz da razo e agora paguei o preo. Contudo, ter o fim que merece.
Fernando, estupefato, tentou falar:
- No tive culpa. Ela me seduziu, me prometeu muito dinheiro e acabei cedendo por inexperincia. Mas acordei para o erro que estava cometendo e terminei tudo com 
ela, como o senhor pde ouvir. Poupe minha vida, estou arrependido. Desejo casar com sua filha e faz-la feliz.
Humberto gritou com os lbios crispados de raiva:
- Voc s serve mesmo para prostitutas como essa mulher a. Jamais para uma moa honrada como minha filha. Agora cale-se; prepare-se para conhecer o inferno.
Humberto mirou a arma na cabea de Fernando, que no tinha com o que se defender e esperava a hora do tiro. Isabela chorava, ajoelhada no cho. De sbito, o esprito 
de Diana envolveu Humberto com muito amor e lhe sugeriu:
- Lembre-se do que aprendeu com a Slvia; matar s vai lhe trazer infelicidade.
Humberto atirou uma, duas, trs vezes, todas para o teto. Fernando e Isabela no entenderam, mas o rapaz aproveitou, abriu a porta e correu em disparada. Ela continuou 
chorando e, nesse instante, Humberto bradou:
- Saia da minha frente! A partir de hoje no colocar mais os ps na minha casa. No consegui matar vocs como mereciam, porm nunca mais conte comigo para nada. 
Vou pedir o divrcio, e de agora em diante ter de contar apenas com o pouco que conseguiu ao meu lado. Quando o dinheiro acabar, voltar s ruas para pedir esmola 
ou para o bordel, de onde jamais deveria ter sado. Agora saia. - Humberto lhe dava chutes violentamente, at que, vencida pelos pontaps, Isabela saiu porta afora.
Humberto permaneceu ainda no apartamento e atirou em tudo que encontrava pela frente. Quando deixou o lugar, ele estava destrudo. No carro, guiava sem saber o que 
fazer. Rodou por vrias ruas at que anoiteceu. Ele no imaginava como contar a verdade  sua filha. No ntimo queria que aquilo fosse uma mentira. Patrcia j havia 
feito todo o enxoval do casamento, redecorado o quarto onde iam dormir e tecia sonhos de felicidade. Mesmo assim, tinha de arranjar coragem para falar. Ao chegar 
em casa, percebeu que a filha estava com um brilho diferente nos olhos, demonstrando estar muito feliz. Tanto que nem percebeu a aparncia transtornada do pai. Como 
sempre fazia, beijou-lhe o rosto e o chamou para conversar.
- Tenho uma notcia para dar que em muito vai agradar-lhe. Primeiramente quem tinha de saber era o Fernando, mas ele no apareceu aqui esta tarde e estou ansiosa, 
no posso guardar tanta felicidade s para mim. H alguns dias estava me sentindo enjoada, tinha nuseas, tonturas e minhas regras haviam atrasado. Imaginei que 
pudesse estar grvida, mas mesmo assim no contei a ningum; queria a comprovao. Fiz um exame de laboratrio e hoje recebi o resultado: estou realmente grvida! 
No  uma felicidade muito grande, papai?
Humberto ouvia as palavras da filha sem querer acreditar. Como iria lhe falar sobre o que tinha acabado de vivenciar? Sentiu a cabea rodar e o estmago embrulhar, 
depois tonteou e caiu desmaiado. Patrcia tentou faz-lo reagir ao mesmo tempo em que gritava. Logo todos estavam ao redor de Humberto. Eudsia afastou Patrcia 
enquanto dizia:
- Precisamos chamar uma ambulncia. Ele no est bem. Algum tem o telefone?
- Naquela agenda tem o nmero do hospital onde o doutor Caldas trabalha. Liguem e peam que ele venha com a ambulncia - explicou Patrcia, que estava nervosa e 
chorava. - Ser que ele vai morrer? No posso agentar ficar sem meu pai. O que farei sem ele? E Fernando, que no aparece?
Eudsia tentava consol-la:
- Fique calma, menina. Seu pai ficar bem e as coisas voltaro a ser como antes, tenha f.
- No consigo acreditar. Ele estava bem e sadio. De repente foi ficando plido e caiu dessa forma. O que ser que ocorreu?
Morgana e outros empregados da casa tambm estavam ali ansiosos para saber o que tinha acontecido com Humberto. Ela tinha a intuio de que a revelao de que Isabela 
o traa tinha feito Humberto adoecer. Estava curiosa, ser que ele a tinha assassinado? O tempo passou e logo a ambulncia chegou. O doutor Caldas fez os primeiros 
socorros e o conduziu ao interior do veculo. Patrcia e Eudsia seguiram em outro carro em direo ao hospital. Quando chegaram, tiveram de aguardar mais de uma 
hora na sala de espera. Finalmente o doutor Caldas apareceu. Patrcia se levantou rapidamente e foi ao seu encontro.
- Como est meu pai? O que aconteceu com ele?
- Fiquem calmos. Humberto teve um AVC, ou seja, um acidente vascular cerebral, mas foi socorrido a tempo. Estamos fazendo exames para saber a extenso da rea cerebral 
atingida e se ele ficar com seqelas. A notcia no muito boa  que ele est em coma profundo e, em casos como este, no podemos prever quando ir acordar, nem 
como.
Patrcia assustou-se.
- Mas meu pai estava muito bem. Como isso foi ocorrer de uma hora para outra?
- As causas do AVC so vrias e na maioria das vezes ele no apresenta sintomas preliminares. Seu pai teve alguma contrariedade ultimamente?
- No, ele estava muito bem. Ainda hoje passou a manh inteira em casa conversando como sempre, se bem que notei algo estranho em seu olhar. Por que essa pergunta?
-  que, como mdico, tenho percebido que esse problema tem como causa principal algum desgosto muito profundo. Contudo, ainda no investiguei melhor o assunto. 
No entanto, se Humberto resistir bem s prximas quarenta e oito horas, estar completamente fora de perigo.
O doutor Caldas ainda conversou mais um pouco e depois autorizou uma breve visita de poucos minutos  UTI. Patrcia estava se sentindo completamente s naquele momento. 
Fernando no apareceu e ela s podia contar com o ombro amigo de Eudsia. Quando aconselhada pelo mdico, resolveu voltar para casa. Era madrugada. Foi ao quarto 
de Isabela e no a encontrou, o que achou muito estranho. Chamou Morgana, que fingiu nada saber:
- Ela saiu dizendo que iria s compras e, como faz isso sozinha, no a acompanhei. Tambm estou preocupada. Ela no costuma demorar tanto. Ser que foi novamente 
assaltada?
- Meu Deus! Isso no pode ter acontecido justo hoje.
- Mas devemos levantar essa hiptese. Isabela nunca ficou uma noite fora, j passa das duas, e nem sinal dela.
Patrcia se sentia fraca, no conseguia raciocinar direito. Resolveu se deitar.
- No vamos conseguir resolver nada agora. S podemos dar queixa  polcia se uma pessoa estiver sumida por mais de quarenta e oito horas. Se formos l agora, de 
nada vai adiantar.
- Temo pela vida de minha amiga. O motorista a levou para a mesma loja de sempre e a esperou no horrio combinado, e ela no apareceu. Entrou na loja e perguntou 
se dona Isabela Aguiar tinha estado por l e todos disseram que ela nem chegou a entrar. No acha isso estranho?
- Acho sim e estou preocupada. Meu pai a ama e ela  fundamental para sua recuperao. Mas vou descansar, por hoje estou exausta.
Morgana resolveu fazer o mesmo e minutos depois  manso estava s escuras.
Desde que fora expulsa a chutes do apartamento, Isabela vagou sem rumo pelas ruas de So Paulo, chorando muito. Seu sonho de amor estava desfeito; seu casamento, 
arruinado. O que ela poderia fazer de sua vida? Tinha uma conta em seu nome na qual pde economizar algum dinheiro, mas achando que sua situao era boa no se preocupou 
muito em poupar. Foi ao banco e retirou uma quantia que dava para hosped-la num hotel at pensar no que iria resolver. Depois de instalada, tomou um banho e olhou-se 
no espelho; achou-se feia e velha. Deitou-se na cama e pensou em como se vingar de Morgana e de Fernando. Certamente madame Aurlia estaria por trs daquela situao, 
elas no perderiam por esperar. Com o pouco dinheiro que tinha, iria arquitetar uma vingana da qual nenhum dos trs escaparia vivo. Teria de raciocinar muito friamente 
para que fossem crimes perfeitos. Jamais ela iria permitir que Fernando vivesse feliz ao lado de algum. Rolou na cama e pensou tambm que poderia ainda reconquistar 
Humberto, s no sabia como. Durante toda a noite no conseguiu dormir e os pensamentos fervilhavam em sua mente, parecendo enlouquec-la. Pela manh ligou a TV 
e, ao ouvir o noticirio, levou grande susto. O jornalista dizia:
- O senador Humberto Costa Aguiar sofreu um acidente vascular cerebral e se encontra em estado de coma no hospital. Sua filha informa que tudo aconteceu muito rpido, 
mas que ele pde ser atendido a tempo. Segundo os mdicos, seu estado  estvel.
A reportagem continuou e mostrou uma entrevista com Patrcia. Logo aps, com seus colegas de partido que mostravam solidariedade. Isabela deixou o caf que estava 
tomando e pensou em como fazer para voltar para casa. No sabia se Humberto havia revelado a verdade  filha, mas precisava tentar. De repente pensou: fingiria que 
tinha sido assaltada novamente e levada para longe, e s ento conseguira voltar. Tambm ia fingir nada saber sobre a doena do marido. Sorriu abertamente pensando 
em como a sorte havia lhe favorecido. Humberto provavelmente morreria e ela poderia tomar conta de toda aquela manso como sempre sonhara. Intimamente agradecia 
a Deus pelo fato de o marido estar em coma numa UTI; tudo lhe seria facilitado. Pagou a conta do hotel e saiu. Na rua, ela caprichou no visual: desfiou suas roupas 
e sujou-se de terra, sem se importar com os olhares das pessoas que a observavam achando a cena descabida. Fazendo-se de arfante, ela chegou  manso. O hotel no 
era to longe e ela conseguiu ir a p. Os seguranas quase no a reconheceram e em poucos instantes ela estava na sala da manso. Chamou a todos, mas s Eudsia 
apareceu. Olhando assustada para sua aparncia, perguntou:
- O que aconteceu com voc? Esta casa est cheia de problemas, estvamos preocupados com seu sumio, principalmente agora que o senhor Humberto adoeceu to seriamente.
- O que Humberto teve? Como foi ficar doente?
- Ele estava na sala conversando com Patrcia quando se sentiu mal e desmaiou. Levamos ele para o hospital e est em estado de coma. Como voc foi desaparecer num 
momento como este? Fernando tambm sumiu e Patrcia est se sentindo muito s. No sai do hospital um instante sequer. Temo pela sade dela.
- Desapareci porque ontem, quando fazia compras, dois homens me pegaram, colocaram um revlver em minha cabea e me colocaram dentro de um carro. Achei que estava 
sendo seqestrada e chorava muito. Eles me levaram para um lugar distante e ermo. L chegando tiraram o que eu tinha minha bolsa, minhas jias, relgio, fiquei sem 
nada. Tentaram abusar de mim e nem sei se conseguiram, pois, de tanto medo, acabei desmaiando. Quando acordei no sabia onde estava. Vaguei pelas ruas parecendo 
uma mendiga; nenhum txi atendia a meu chamado. Andei bastante at que acabei achando o caminho.
Eudsia estava impressionada com a narrativa.
- Quanta coisa ruim acontecendo nesta casa de uma s vez. At a Morgana resolveu ir embora.
- Ir embora? Ela no est mais aqui?
- Est no quarto dela fazendo as malas. Num momento como esse em que ela deveria estar do seu lado, resolveu partir.
Isabela nem terminou de ouvir o que Eudsia dizia e subiu as escadarias, indo em direo ao quarto de Morgana. Invadiu-o com rapidez e Morgana, assustada, comeou 
a tremer. Isabela a olhou com dio e esbravejou:
- Como ousou me trair? Como teve tamanha coragem? Diga-me!
Morgana tremia muito e com voz que o medo abafava balbuciou:
- No tive culpa. Ela me obrigou me perdoe!
- Eu sabia. Tinha certeza de que madame Aurlia estava por trs disso. Mas nunca esperava uma traio dessas vinda de sua parte. A partir de agora ganhou uma inimiga 
para o resto de sua vida. O plano de vocs deu errado e eu continuo nesta casa, sendo senhora absoluta. Humberto morrer e ficarei com o que  meu, e serei muito 
rica. Quanto a voc, nunca mais ter paz. Vou cuidar para que sua vida se transforme num inferno, a sua e a daquela mulher infernal. Avise-a de que ouvir falar 
muito de mim. Agora voc vai sair sem nada. Esquea suas malas. Daqui voc no levar nada, pois nada lhe pertence.
- Espero um dia conseguir seu perdo - falou Morgana com a voz fraca.
- Nunca, e voc saber agora do que sou capaz! Acompanhe-me.
Morgana acompanhou Isabela at o jardim sem saber o que ela faria. L chegando, Isabela falou algo com Amaral que ela no entendeu, porm rapidamente percebeu do 
que se tratava. Amaral se aproximou e comeou a violent-la com chutes e socos. Morgana estava sangrando e com manchas arroxeadas no corpo quando Isabela ordenou 
que parasse. Amaral pegou o corpo quase inerte de Morgana e jogou na calada. Mais tarde, quando Isabela saiu arrumada para o hospital, ela ainda estava l, desmaiada. 
Amaral retornou e, condodo com a situao, levou-a para um pronto-socorro, onde foi atendida e medicada. Ele no gostava de espancar as pessoas, mas sabia que se 
no cumprisse as ordens da patroa, perderia o emprego que era o sustento de sua famlia. Isabela chegou ao hospital e encontrou Patrcia na recepo. As duas se 
abraaram e Isabela perguntou:
- Como ele est?
- O quadro  estvel, mas ele continua em estado de coma profundo. Temo muito pela vida dele. Tenho me sentido muito s. - Patrcia comeou a chorar e Isabela a 
abraou mais fortemente. Depois que se acalmou, ela perguntou:
- Onde voc estava? J amos dar queixa  polcia sobre seu desaparecimento.
-  uma longa histria. Ontem, seu pai e eu corremos riscos de vida. - Na seqncia, comeou a repetir a mesma histria que tinha contado a Eudsia. Patrcia estava 
to preocupada com o pai que nem prestou muita ateno, pois, se assim o fizesse, perceberia que se tratava de outra mentira mal contada. Depois de terminar a histria, 
Isabela quis saber:
- Onde est o Fernando? A Eudsia me disse que ele no tem estado com voc.
- Tenho ligado para a casa da dona Marlia e ela me disse que o filho precisou viajar a trabalho, mas que logo estar aqui.
- Estranho Fernando nunca viajou a trabalho... - completou Isabela com maldade.
- Sei disso. Tambm achei estranho, mas algo deve ter acontecido para ele precisar viajar. Quando chegar, me explicar tudo, tenho certeza. 
Isabela teve de esperar muito at que o mdico aparecesse e autorizasse sua entrada na UTI. L chegando, fingiu tristeza e chorou copiosamente. Patrcia, que a acompanhava, 
aconselhou:
- No  bom que tenhamos emoes muito fortes prximos de algum nesse estado. Os mdicos afirmam que, apesar do coma, a pessoa pode ficar num estado semiconsciente 
em que pode sentir nossas emoes e at registrar nossas palavras. No chore, ele ficar bem.
- Como eu queria acreditar nisso! Depois que perdi meu filho, achava que Deus no ia me tirar mais ningum, mas vejo que Ele no  to bom quanto dizem. Que vou 
fazer se Humberto morrer?
Patrcia estava surpresa com tamanho sentimento.
- No pense assim, vamos acreditar no melhor. Deus no  ruim e, se meu pai est passando por isso, deve ter um motivo justo.  um homem bom; depois que minha me 
ficou doente ele tem se esforado para melhorar. Creio que ter outra chance, mesmo que fique com seqelas.
- Seqelas? Como assim?
- Segundo o doutor Caldas afirmou, todo acidente vascular cerebral pode deixar alguma seqela no sistema nervoso do paciente, de forma que ele pode ficar sem movimentar 
alguns membros do corpo, um lado inteiro, ou ficar sem falar. Mas isso so apenas hipteses, s quando ele acordar  que saberemos.
As duas saram da sala porque o tempo havia se esgotado e foram para casa. Quando chegaram, cada uma foi para o seu quarto. Isabela estava muito feliz por a vida 
ter lhe dado uma segunda chance, e pensava: "Nasci para viver no luxo e na riqueza. Estou torcendo para que Humberto jamais volte desse coma ou, se voltar, fique 
paralisado para sempre. A poderei ter minha vida de volta. No sei se Fernando vai retornar a esta casa, mas se voltar lutarei para reconquist-lo e sei que conseguirei. 
Depois disso saberei como fazer para me livrar da Patrcia". Com esses pensamentos, entrou na banheira e permaneceu l por horas. Em seu quarto, Patrcia pensava 
e no conseguia entender por que Fernando havia viajado sem lhe dar explicaes e mesmo com o pai doente no aparecia para v-la. Novamente ligou para a casa dele 
e Marlia atendeu.
- Ah, sim, querida. Fernando j chegou um momento.
Alguns segundos de espera e logo a voz grave de Fernando se fez ouvir:
- Meu amor, como est? No consigo ficar mais um instante sem v-la. Assim que fiquei sabendo do que houve com seu pai, voltei imediatamente.
- Oh, Fernando, como pde ter feito isso comigo? Estou me sentindo completamente sozinha. Meu pai est mal e voc desaparece assim?
- No tive culpa, precisei resolver um problema de uma das filiais de nossa empresa. Mas voltei quando soube o que aconteceu. J estava indo at a quando o telefone 
tocou.
- Venha logo. Tenho algo a lhe dizer que  muito importante e no pode ser adiado.
- Uma surpresa?
- No posso falar pelo telefone. Ao chegar, ficar sabendo.
Fernando colocou o fone no gancho e percebeu os olhos de sua me a mir-lo ansiosamente.
- O que ela lhe disse?
- Parece no saber de nada. Isso me d um alvio muito grande. Por outro lado, temo que o pai possa melhorar e contar o que descobriu.
Marlia olhou-o profundamente e disse:
- Para nossa sorte, Humberto adoeceu antes de ter revelado o que sabia. Se melhorar, pode no ficar como antes. Essas pessoas que tm esse problema nunca voltam 
a ser as mesmas.
Mas, ainda que fique bom, ao ver a filha feliz saber se conter e nada falar. Ele passou a mo pelos cabelos, num gesto nervoso.
- A senhora me tranqiliza, mas ela disse que tem algo srio a me dizer. Ser que o pai no deixou escapar nada que a deixou desconfiada?
- No acredito. Se desconfiasse de algo, deixaria transparecer pelo telefone. V confiante. Esta ns no perdemos.
Fernando sorriu, beijou a me e saiu. Marlia estava entediada e foi para o quarto. Deitada em sua cama, ela pensava: "Meu filho encontrou a mulher ideal e eu farei 
de tudo para que ele permanea com ela at o fim. Desejo ter uma vida melhor e tambm no criei meu prncipe para se casar com uma mulher qualquer e comum. Ele merece 
a melhor". Continuou a pensar sem perceber que sombras escuras se aproximavam comungando com seus pensamentos e lhe passando energias doentias. Diana, Gabriel, Flaviana 
e os filhos estavam ansiosos no quarto esperando que Humberto despertasse. Dali a poucos instantes ele acordaria. Permaneceram esperando at que ele se mexeu e lentamente 
comeou a despertar. A princpio no reconheceu o lugar, mas ao abrir melhor os olhos, disse assustado:
- Flaviana? Meus filhos? Como pode ser? Todos esto mortos!
Flaviana, com voz doce, o acalmou:
- Engana-se, querido. Todos estamos mais vivos do que antes. No se sente bem em estar conosco?
Ele parecia confuso, mas falou:
- No entendo. Quer dizer ento que eu morri tambm?
Alfredo respondeu:
- Ainda no, pai. Sua hora no chegou. Seu corpo de carne est doente num hospital da Terra. Enquanto os mdicos de l cuidam dele, ns o trouxemos aqui para que 
seu esprito seja curado tambm.
Humberto, completamente acordado, comeou a entender:
- Como isso  possvel?
- Quando nosso corpo de carne dorme ou entra em um estado de coma, como  o seu caso, o esprito fica parcialmente livre e pode visitar o astral, rever amigos, ou 
entes queridos que ficaram aqui - disse Flaviana sorrindo. - Voc talvez nem v se lembrar disso quando acordar na Terra, mas vamos aproveitar essa oportunidade 
que Deus nos deu. D-me um abrao.
Humberto, emocionado, levantou e a abraou fortemente. Unidos ao abrao, Marcos e Alfredo choravam de emoo. Diana e Gabriel observavam tudo e em prece agradeciam 
a Deus aquele momento. De repente, Humberto comeou a chorar. O choro foi crescendo e aumentou tanto que ele se sentou no cho. Todos ficaram penalizados. Flaviana 
passou a mo sobre sua cabea.
- Entendo o que sente. A dor do remorso  muito grande, mas para ela existe o remdio: o autoperdo.
Diana completou:
-  isso mesmo, Humberto. O remorso e a culpa so sentimentos que nos colocam em profunda depresso, mas s quando aprendemos a nos perdoar  que nos libertaremos 
dele.
Ele murmurou entre soluos:
-  que no consigo controlar o sentimento de culpa quando vejo Flaviana e meus filhos. Lembrar que fui um mau marido e um pai materialista me atormenta muito. Sinto 
que falhei gravemente.
Diana foi firme ao dizer:
- Quem de ns nunca errou nessa vida? Os erros fazem parte da aprendizagem e so naturais. Voc fez o que achou certo no momento, quando no tinha maturidade para 
agir diferente. Na vida  preciso aprender que cada pessoa age de acordo com o nvel de evoluo que lhe  prprio e que s o tempo vai modificar. O retorno das 
nossas aes vai fazer com que aprendamos pouco a pouco, e assim chegaremos a Deus. Mas esse caminho  longo e, como seres humanos, ainda vamos errar outras vezes. 
Portanto, no se condene dessa forma para no atrair mais dores em sua vida.
Humberto pareceu se acalmar. Voltou para a cama e todos se sentaram ao redor em espcies de sofs que havia espalhados pelo quarto. Flaviana iniciou:
- Trouxemos voc aqui para que seu esprito seja curado e para que seu corpo possa despertar na Terra com poucas limitaes. J se perguntou como atraiu todos esses 
problemas para sua vida?
- Eu no atra nada. Os outros foram os culpados. Casei-me novamente achando que era amado. No auge de minha felicidade, fiquei impotente e descobri que era trado. 
Minha filha nem desconfia que o noivo dela  um patife que a trai com a prpria madrasta. Como posso ter atrado esses problemas para mim?
Flaviana aproximou-se e explicou com voz doce:
- Quando cheguei aqui tambm pensava como voc. Achava que eram os outros os culpados pelos meus sofrimentos. Entrei em confuso, me envolvi com pessoas que queriam 
meu mal. S queria me vingar. Sofri muito e hoje descobri que nunca fui vtima e que ningum na Terra o . Diana e outros amigos queridos me ensinaram que somos 
criadores do nosso prprio destino e tudo que nos acontece  responsabilidade nossa.  duro aceitarmos essa verdade, mas, quando passamos a enxerg-la, as coisas 
ficam mais fceis. Eu mesma h muito o perdoei pelo que me fez. Hoje sei que, se no precisasse passar por tudo aquilo, Deus teria me poupado.
Humberto estava ouvindo sem querer acreditar: ento Flaviana o havia perdoado? Ela, lendo seus pensamentos, respondeu:
- Perdoei, mas o perdo dos outros no  to importante quanto o nosso prprio. O que lhe aconteceu foi porque voc no se perdoou pelos erros do passado.
Humberto estava confuso.
- Como assim?
Diana comeou a explicar:
- A culpa  um sentimento aprendido. Ela no nasce com o nosso esprito. J o arrependimento, sim,  parte integrante de nossa alma. Sempre que agimos contra a nossa 
natureza, sempre que cometemos os chamados "erros", nossa conscincia nos mostra, por meio de sensaes desagradveis, que no estamos no caminho certo. Uma vez 
observada, a sensao desaparece. Aprendemos  lio e passamos a agir diferente.  o que chamamos de reparao. Todavia, muitas pessoas aprenderam  filosofia do 
crime e castigo; acham que tm de pagar pelos erros cometidos durante sua ignorncia espiritual e programam o subconsciente para atrair sofrimento quando errarem. 
Essas pessoas no acreditam que podem apagar seus erros pelo amor e pelo bem; crem que s sofrendo  que voltaro ao equilbrio.  por isso que h tanta dor na 
Terra.
Humberto parecia entender, mas ainda assim questionou:
- E o que isso tem a ver comigo?
Diana sorriu.
- Voc  assim,  um cobrador inveterado de si mesmo. Aprendeu que as pessoas devem ser castigadas quando errarem. Agora est provando do prprio veneno.  preciso 
rever suas crenas uma a uma para que mude. E chegada  hora de voc deixar o homem velho morrer para que o homem novo nasa principalmente para que possa perdoar 
Isabela e ajud-la a voltar para o caminho do bem.
- Nunca farei isso! Ela me traiu covardemente, no merece perdo.
- Voc atraiu uma mulher como ela porque acreditava que merecia passar pelas mesmas traies que cometeu com sua mulher. Atraiu a doena porque se culpava pela morte 
de Flaviana, achando que ela adoecera por sua culpa. E preciso deixar a vaidade de lado e perceber que voc no  to poderoso assim para fazer os outros sofrerem. 
Ningum tem o poder de ferir uma pessoa; os outros  que se ferem com o que ns fazemos.
- Pelo que voc diz, foi at certo o que fiz.
Diana o olhou com seriedade.
- No foi certo nem errado. Voc agiu como sabia. Se hoje reconhece que poderia ter feito melhor, no pode se culpar. Deve se preparar para agir melhor de agora 
por diante. No somos responsveis pelo sofrimento de ningum; somos, sim, responsveis pelas nossas crenas e pelos prprios sofrimentos. Se sofremos, no foi porque 
fizemos mal aos outros, mas porque fizemos mal a ns mesmos com nossas crenas inadequadas. Nunca ouviu dizer que quem faz o mal aos outros prejudica primeiro a 
si mesmo?
Marcos e Alfredo permanecerem calados o tempo inteiro. Quando Diana terminou, Marcos disse:
- Vamos lev-lo para participar de um curso no qual  ensinado o poder do bem como fonte de reparao e depois a uma palestra cujo orador explica como nos livrarmos 
da culpa e reprogramarmos o subconsciente positivamente, para que o senhor aprenda a nunca mais se castigar pelos seus erros.
Humberto estava feliz. Poder recomear, ser um novo homem... Aquilo estava sendo muito bom. Indagou:
- Quanto tempo ficarei em estado de coma na Terra?
- Ficar por uma semana;  o tempo que vai estagiar aqui - respondeu Diana amavelmente. - Agora vamos, h muito o que estudar.
Humberto abraou os filhos e a ex-mulher. Quando ia saindo, comentou:
- Lembrei que h algum tempo vrios homens me amarraram enquanto eu dormia e colaram em meu corpo fsico algumas formas arredondadas. Lembro-me de que eles disseram 
que elas seriam a causa de minha impotncia. Isso  real?
- Com certeza! Essas formas que chamamos de ovides so responsveis por inmeras doenas na Terra. Mas no precisa se preocupar. Quando se libertar da culpa e se 
render ao amor, conseguir se libertar delas.
- Vai demorar muito?
- O tempo suficiente para que voc mude interiormente.
Humberto entendeu e seguiu com eles, rumando para um dos pavilhes de cursos daquela colnia. Em sua mente, a esperana comeava a brotar.

19 - CONHECENDO A VERDADE

Isabela havia chegado em casa com Patrcia. Ficaram no hospital muito tempo, mas por recomendao mdica resolveram descansar. Era noite e, ao entrarem em casa, 
depararam com Fernando, que as esperava com ansiedade. Patrcia o abraou e ambos se beijaram com paixo. Com muito dio, Isabela observava a cena. Ao terminarem 
de se beijar, Patrcia comentou:
- No sei como agentei todo esse tormento sem voc. Nunca mais desaparea assim, sem dizer onde est.
Fernando fuzilou Isabela com o olhar, enquanto respondeu:
- Quando viajei, no imaginava o que vocs todos iriam passar. No costumo viajar para as filiais da empresa. Tive de ir de ltima hora, mas, assim que soube pelos 
noticirios o que tinha acontecido, voltei imediatamente. Sabe como a amo e o que mais quero  v-la bem e feliz.
Isabela estava se sentindo muito mal com aquela cena. Ia se retirar, mas Patrcia a chamou:
- Por favor, Isabela, no suba agora. Tenho uma notcia maravilhosa para dar a vocs, principalmente a Fernando.
Ela ficou ainda mais irritada.
- No vejo o que pode ser maravilhoso com Humberto entubado numa UTI de hospital.
Patrcia, com semblante alegre, colocando as mos sobre o ventre e olhando emocionada para Fernando, comunicou:
- Descobri que estou grvida. Vou ter um filho do homem que amo! Quer motivo maior para minha felicidade?
Fernando, com os olhos marejados, a abraou com fora e ambos se beijaram novamente. Muito feliz, ele dizia, beijando a barriga de Patrcia:
- Um filho! Tudo que mais queria ter na vida. Meu Deus, quanta felicidade. Sei que no mereo, mas estou muito feliz. Alm de tudo, a me de meu filho  a mulher 
que mais amo no mundo. Como posso fazer para agradecer tamanha felicidade?
Isabela sentiu-se tontear e quase foi cho, no fosse o mezanino no qual se amparou. Patrcia percebeu e correu para socorr-la.
- O que aconteceu com voc? Parece que vai desmaiar. Venha, sente-se no sof.
- Senti-me mal de repente. No sei o que me deu. No se preocupe, vai passar.
Fernando, com ar de ironia, indagou:
- Por acaso seu desmaio ocorreu por causa da notcia da gravidez de Patrcia?
Ela, mesmo com dio, fingiu.
- Talvez. Desde que Daniel morreu, fico mal com qualquer assunto ligado a crianas. Por favor, me perdoem, vou me retirar. Peam a Eudsia que me leve um copo com 
gua, preciso tomar um calmante.
- Quer ajuda para subir? - Era a voz irnica de Fernando mais uma vez.
- Oh, sim, ainda estou muito tonta. Acredito que minha presso tenha cado.
Ele foi subindo com Isabela lentamente pela longa escada. Quando se viram a ss, ela falou entre dentes:
- No pense que isso vai ficar assim. Nunca ser feliz com a Patrcia enquanto eu viver. Antes, ela ou voc ter de morrer.
Fernando sentiu vontade de esbofete-la at a morte, porm teve de se conter. Ainda assim, completou com voz que o dio enrouquecia:
- No tente atravessar meu caminho ou quem vai sair morta dessa histria ser voc. Sabe muito bem do que sou capaz. Esqueceu as bofetadas que lhe dei? Usei voc 
at quando foi conveniente, agora acabou. Amo Patrcia de verdade e  com ela que vou ficar, custe o que custar. Esquea que eu existo ou ter srios problemas. 
Se acontecer qualquer coisa com Patrcia, voc pagar caro.
- Sabe que posso revelar a ela tudo que tivemos juntos. Se eu o fizer, voc estar perdido. Patrcia nunca vai perdo-lo. Ou volta para mim ou acabo com sua vida 
- exclamou Isabela transtornada.
- Vai ser sua palavra contra a minha. Posso dizer que me assediava e que, por no ter sido correspondida, inventou essa histria. Alm do mais, voc est perdida 
de qualquer jeito. Quando Humberto melhorar e voltar para casa, voc ser expulsa daqui a pontaps. Eu vou me dar bem, pois quando Humberto vir  filha feliz e grvida 
jamais ter coragem para revelar o que soube. Como v, voc  a nica perdedora.
O dio tomava conta de Isabela, e ela rangia os dentes dizendo com voz entrecortada:
- Isso se ele acordar. Daqui para l muita coisa pode acontecer. Tenho como mat-lo no prprio quarto sem que ningum desconfie.
- Faa isso e eu serei o primeiro a denunci-la.
Patrcia chamou Fernando e eles deram por encerrada a conversa. J no quarto, Isabela teve um acesso de dio e perdeu a cabea. Desarrumou a cama, quebrou arranjos 
e bibels, atirou uma porcelana no espelho. Quando Eudsia entrou com a gua, encontrou-a em um estado deplorvel.
- O que aconteceu aqui? Por que fez tudo isso?
- Estou com dio, muito dio. Eles me pagam, e vo pagar com a vida - dizia ela fora de si.
- Eles quem?
- Os malditos que me roubaram  felicidade. Mas eu juro que eles nunca sero felizes.
Eudsia no sabia do envolvimento de Isabela com Fernando, por isso no conseguia entender de quem se tratava. Tentou acalm-la.
- Venha para a cama, deite-se e tome um comprimido. Vai lhe fazer bem. Aqui todos esto nervosos com a doena do senhor Humberto. Quando se acalmar, ver que no 
h motivo para tanto dio. Seu marido vai ficar bem, voc est rica e ter condies de ser feliz.
Isabela tentou se acalmar, mas as palavras de Eudsia a irritavam ainda mais.
- Saia daqui e me deixe s! - exclamou num grito.
Eudsia obedeceu e foi rezar na cozinha. Havia alguns dias tinha comeado a freqentar o centro aonde Patrcia ia e havia aprendido que, quando tudo se agita, quando 
as dores aparecem,  hora de orao. Aprendeu que a prece, quando sincera, nos deixa ligados aos espritos do bem e a Deus. Naquele momento ela fez uma sentida orao 
pedindo sade para Humberto, paz para Isabela e felicidade para Fernando e Patrcia. Ela no viu, mas seres radiosos estavam ali cobrindo-a de luzes coloridas. Um 
deles se aproximou e disse-lhe ao ouvido:
- Confie em Deus, Ele no desampara ningum. Tudo ser dado assim como pediu!
Uma brisa leve passou ao seu redor e Eudsia se sentiu muito bem. Na sala, Fernando e Patrcia comemoravam. Ele estava muito empolgado em ser pai e ela, muito feliz 
em poder estar ao lado do homem amado.
- Vamos oficializar nossa unio assim que seu pai sair do hospital - comentou Fernando cheio de planos.
- Sim,  o que mais quero. Mas nossa unio ser apenas civil. Sou espiritualista e no gosto dessas cerimnias em igrejas. Respeito  religio catlica, mas no 
acredito que seja preciso um intermedirio para que Deus nos abenoe.
Fernando tornou um pouco preocupado:
- Minha me  conservadora e, apesar de no ir muito  igreja,  catlica e sempre sonhou comigo casando com a bno de um padre em uma cerimnia bonita. Ela sonha 
com isso para a minha vida. Por favor, quero que entenda...
Patrcia no queria discutir aquilo naquele momento, mas sabia que acabaria cedendo.
- Tudo bem, vamos pensar nisso depois. Agora vamos subir que estou morrendo de saudades.
Felizes, os dois foram para o quarto, onde se amaram com muita paixo. No outro dia pela manh, antes de ir ao hospital, Patrcia foi visitar a av. Sempre passava 
por l para ver como ela estava. As visitas de Slvia haviam feito um bem enorme a dona Augusta, que j se levantava da cama e quase tinha voltado  vida normal. 
Ao entrar na enorme sala encontrou a av ainda no desjejum.
- Que boa visita a essa hora da manh. Venha tomar caf comigo.
- Muito obrigada, vov. Termine sua refeio, pois hoje quero compartilhar uma alegria muito grande com a senhora.
Augusta ficou curiosa.
- Alegria? Bem que estou precisando...
- No fale assim, vov. A senhora j melhorou tanto que est irreconhecvel. Achei que nunca mais iria se levantar daquela cama. No sabe o quanto fiquei desesperada, 
mas hoje as cores j voltaram ao seu rosto. Vejo que voltou a arrumar o cabelo e j soube que foi visitar algumas amigas.
- Graas a sua amiga Slvia foi que pude sair do buraco em que eu mesma me coloquei. Com ela tenho aprendido muitas coisas, inclusive como atra aqueles fatos que 
me colocaram em depresso.
Patrcia retorquiu:
- Sei que houve um motivo muito srio para a sua depresso. Por que no me conta? Sei que a Slvia j sabe.
Augusta sentiu que ainda no podia revelar a verdade. Estava aprendendo que o perdo consistia em calar os defeitos alheios, e ela no queria falar mal de Isabela 
naquele momento. Resolveu dar uma desculpa.
- No estou preparada para lhe contar, mas fique certa de que um dia o farei. Um dia voc ficar sabendo o que me levou a querer desistir da vida. - Ela parou de 
comer e continuou falando. - Descobri como estava errada em querer fugir do mundo e hoje sei que estava me tornando uma suicida.
Patrcia se admirou. Ser que Slvia havia revelado sua forma de pensar  sua av?
- Nossa, a senhora est falando como uma esprita! - respondeu a neta, surpresa.
- Muita coisa mudou em minha vida. Slvia me fez ver lados de minha personalidade que estavam esquecidos e acabou revelando ser espiritualista. Sei que ela acredita 
em reencarnao e que trabalha num centro. Fiquei chocada a princpio, mas no podia mais ficar sem sua amizade. Nunca conheci uma pessoa to sensata quanto ela. 
Aos poucos fui me interessando pela vida espiritual. Ela me emprestou alguns livros e fiquei deslumbrada. Nunca poderia imaginar que o espiritismo fosse to bonito 
e lgico em seus ensinamentos. Ainda estou presa a algumas convenes de minha religio, mas confesso que no suporto mais aquelas reunies de que participava, nas 
quais no havia profundidade de ensinamentos nem resposta s questes bsicas de nossa vida. Hoje quero ser feliz, descobrir de onde vim e para onde vou melhorar 
meu padro mental. Fiz muitas coisas erradas em minha vida, mas recebi a resposta e estou amadurecendo.
Patrcia abraou a av e beijou seu rosto vrias vezes. Quando terminou o caf, j na sala de estar, Patrcia iniciou:
- Sei que esse no  um momento de muita felicidade. Meu pai est doente e em estado grave, mas mesmo assim me sinto imensamente feliz. Estou grvida!
Dona Augusta abriu a boca e fechou-a novamente, espantada.
- Que felicidade! - falou com alegria. - Parabns, voc merece essa ddiva da vida. - As duas se abraaram mais uma vez e Augusta tornou: - Confesso que no estou 
acostumada a esses tempos modernos. Na minha poca o sexo comeava depois do casamento. Hoje sei que comea junto com o namoro. Ainda acho tudo muito moderno para 
a minha mente, mas Slvia est tentando me atualizar. Sei que voc se casar e ser muito feliz!
- Serei sim, vov. O Fernando me ama e estava disposto ao casamento muito antes de saber de minha gravidez. Ele  o homem de minha vida, perfeito, ntegro, bom carter, 
 tudo que sempre sonhei, alm de lindo.
- Como estou feliz. Lembro-me de quando Flaviana engravidou pela primeira vez. Enjoava muito e tinha desejos difceis de realizar. Gostaria de acompanhar sua gravidez 
como acompanhei a de sua me, mas no ser possvel.
- ... Sei que a senhora no gosta de Isabela e julga que ela tomou o lugar de minha me, mas posso garantir que ela  uma mulher boa, est muito mal com a doena 
de papai. A senhora est equivocada. Faa as pazes com ela e volte a freqentar nossa casa. Sentimos muito a sua falta.
Augusta no podia falar a verdade  neta e preferiu se calar.
- Deixe o tempo correr. De qualquer forma, sei que  minha neta querida e nunca deixar de vir me ver; isso me d um alvio muito grande.
Patrcia emocionou-se.
-  claro que amo a senhora mais que tudo. Da prxima vez que vier aqui trarei Fernando para a senhora conhecer.
- Que tal um jantar especial?
- No precisa tanto. Fernando  um homem muito simples.
- Fao questo. Assim que Humberto sair do hospital, farei um jantar aqui e convidarei todos. Assim mostrarei a voc que posso no apreciar Isabela, mas posso conviver 
com ela normalmente.
Patrcia estava muito feliz. Depois de conversar mais um tempo, tomou um txi e foi para o hospital. J havia passado uma semana e Humberto no melhorava. Todos 
estavam apreensivos e Patrcia, muito chorosa. Naquela tarde Isabela, que havia planejado matar Humberto no quarto da UTI, estava se preparando para o plano. Conseguira 
a custa de muito dinheiro subornar uma enfermeira que trocaria de lugar com ela sem que ningum desconfiasse. Ela, vestida com roupa de enfermeira, desligaria os 
tubos de oxignio e Humberto teria uma parada cardaca fulminante. Depois ligaria os tubos novamente e ningum imaginaria que ela estava por trs. Pensara friamente 
e resolvera no arriscar o plano sem um disfarce, afinal Humberto poderia despertar a qualquer momento e se isso acontecesse, ela no teria salvao. Algum bateu 
na porta do quarto e ela foi atender. Era Eudsia.
- H uma pessoa ao telefone. Diz que  de um hospital da periferia e quer lhe falar com urgncia.
- Quem pode ser?
-  uma recepcionista. Pelo tom de voz est muito ansiosa.
- Tudo bem, eu pego a ligao aqui do quarto mesmo. Isabela atendeu e uma voz de mulher se fez ouvir:
-  a senhora Isabela Costa Aguiar?
- Sim, o que gostaria?
- H uma paciente em nosso hospital em estado terminal que deseja urgentemente falar com voc. Chama-se Morgana.
Isabela no conseguia entender. O que fizera Morgana adoecer to gravemente?
- Diga-lhe para me esquecer, quero mesmo  que ela morra. Certamente quer me pedir dinheiro para pagar a conta do hospital. Se for apenas isso, no me incomode mais.
A mulher insistiu:
- Morgana disse que a senhora agiria assim, por isso pediu que lhe dissesse que tem uma revelao a lhe fazer sobre a morte de seu filho. Disse que jamais poder 
morrer sem lhe contar a verdade.
Isabela sentiu o corao acelerar. O que Morgana sabia sobre a morte de Daniel? O argumento foi forte e ela anotou o endereo do hospital e partiu para l imediatamente. 
S iria colocar seu plano em prtica  tardinha, quando Edwiges fosse dar seu planto. At l teria muito tempo. O hospital era longe e ela demorou a chegar. Na 
recepo, procurou se informar:
- O que aconteceu de to grave para Morgana estar morrendo?
A enfermeira explicou:
- Chegou aqui com uma grave hemorragia interna. Algum a violentou com muita fora e seu tero foi danificado. Fizemos uma cirurgia, mas ela no se recupera; a hemorragia 
volta com intensidade. O doutor Marcelo teme que ela no resista a uma nova cirurgia. Isabela sabia muito bem do que se tratava, mas fingiu espanto:
- Meu Deus! Mas ela contou quem fez isso?
- Nos momentos de lucidez ela apenas chama por seu nome. Quando conseguimos seu telefone, resolvemos ligar. Mas, se ela melhorar, ter de prestar queixa em uma delegacia 
para que o culpado seja punido. Entretanto, infelizmente acreditamos que s um milagre poder salv-la.
Isabela foi conduzida a um quarto onde havia vrias camas. Ela foi procurando uma por uma, at que na ltima estava Morgana com um aspecto de quem h poucos instantes 
deixaria a vida. Em quase nada lembrava a moa bonita e alegre de antes. Isabela a sacudiu, pois percebeu que dormia. Ao abrir os olhos, Morgana respirou fundo, 
ficou mais plida do que j estava e comeou a falar num fio de voz:
- Voc veio... Eu sabia que Deus no me deixaria morrer sem comear a reparar o mal que eu fiz.
Isabela sentia vontade de mat-la ali mesmo, tamanho o dio que sentia, mas queria ouvir o que ela tinha a dizer sobre a morte do filho. Por isso foi direta:
- No quero saber dos seus remorsos; isso pouco me importa. Quero que me diga o que sabe sobre a morte de meu filho que eu no sei. Alis, ficou tudo muito claro. 
Daniel nasceu com problema no intestino e no resistiu. Essa foi  verso do mdico. O que mais pode saber?
Morgana fazia um esforo enorme para falar e sua voz quase no era ouvida. Ainda assim, ela falou:
- Os mdicos no souberam a verdade, a terrvel verdade. Seu filho foi morto por envenenamento.
Isabela sentiu que ia desmaiar. Procurou uma cadeira e sentou-se. Quando se refez do susto, continuou a ouvir.
- Foi isso mesmo. Ele, aquela criana inocente, sorridente e cheia de vida, morreu por minhas mos. A mando de madame Aurlia, todos os dias eu ministrava um veneno, 
que desconheo o nome, na comida que eu mesma dava para ele. O veneno causava perturbaes gstricas e nenhum mdico iria desconfiar do que se tratava, pois geralmente 
nesses casos no existem suspeitas e eles no fazem exame. O certo  que o intestino era corrodo pouco a pouco e a morte era certa. Fiz isso movida por uma vingana, 
mas minha conscincia nunca mais me deixou em paz. Agora sei que pagarei pelo meu crime. Vejo vultos escuros, pessoas babando e sangrando  minha volta, esperando 
que eu morra para me levarem com elas. Espero que esse gesto me ajude e que eu no sofra tanto nessa vida que me espera.
Isabela, num acesso de raiva, sacudiu violentamente Morgana, que agonizava. A enfermeira que chegava correu a socorrer:
- O que  isso? Ela est quase morrendo, saia! - Retirou Isabela, que estava em estado de loucura.
Do canto do quarto, Isabela bradava com muito dio:
- Quero que morra e s tenha o inferno como morada. Sairei daqui e vou  polcia denunci-la. Voc e o monstro que armou toda essa trama infernal. No morra enquanto 
no servir de testemunha para que Aurlia apodrea na cadeia.
Isabela saiu correndo e a enfermeira aplicou um sedativo em Morgana, que estava muito fraca. Na rua, Isabela rumou para a delegacia mais prxima. O delegado a ouviu 
e, devido  urgncia do caso, logo tomou as providncias que terminariam por prender e condenar madame Aurlia.

20 - O BEM  MAIS FORTE

Isabela chegou em casa esbaforida e com muito dio. As emoes que tinha vivido inesperadamente naquela tarde a fizeram entrar em um processo de autodestruio. 
Nunca iria se perdoar por haver colocado uma assassina dentro de sua casa, que acabaria por matar seu prprio filho. O depoimento que dera na delegacia havia tomado 
muito seu tempo, mas ainda teria de ir ao hospital pr fim  vida de Humberto. Tomou um banho rpido e saiu. J no hospital e no horrio combinado, ela entrou pela 
sada de emergncia e logo trocou de roupa com Edwiges. No almoxarifado, enquanto se trocavam, Isabela perguntou um tanto apreensiva:
- Tem certeza de que ningum da famlia est a?
- Tenho sim. Marquei essa hora justamente por no haver visitas na UTI. A filha dele esteve aqui rapidamente com um rapaz e saiu. O caminho est livre.
- Explique-me direito. Tenho medo de mexer no aparelho errado e o plano ir por gua abaixo.
Edwiges procurou detalhar o aparelho no qual Isabela deveria mexer e ela ouviu com muita ateno. Assim Isabela seguiu para o quarto. Doutor Eduardo estava em sua 
sala lendo uma revista. O dia havia sido cheio e ele aproveitava para relaxar. De repente, um pensamento comeou a tomar conta de sua mente. Ele sentia que precisava 
ver o paciente Humberto. Havia acabado de passar na UTI e sabia que ele estava na mesma condio. O quadro havia se tornado estvel e j no havia tanto o que temer; 
era s esperar ele acordar e fazer os exames para a comprovao de seqelas. Procurou desviar o pensamento, mas ele no o deixou. Voc precisa ver o senador Humberto. 
A frase se repetia insistentemente. Ento ele resolveu obedecer e levantou-se. No quarto, Isabela sorria maquiavelicamente. Olhou para Humberto e comeou a dialogar 
como se ele pudesse ouvi-la:
- No adiantou tanta soberba, voc est em minhas mos. Um dia jurei que seria rica e humilharia a todos que encontrasse. Voc foi minha escada; consegui o que queria 
e jamais saberia viver na pobreza novamente. Ou eu, ou voc. Chegou o seu fim, Humberto. 
No instante que Isabela iria mexer no oxignio, doutor Eduardo entrou na sala. Ela ficou nervosa enquanto ele perguntava:
- Quem  voc?
- Edwiges... - falou ela fracamente.
Ele no deu tanta importncia ao fato de ela estar de costas e comeou a examinar mais uma vez o paciente. Isabela, com receio de ser surpreendida saiu sem que o 
mdico percebesse. Rapidamente e de cabea baixa, ela voltou ao local onde Edwiges a esperava.
- E ento? Conseguiu?
- No. Um mdico entrou no momento em que eu ia mexer no aparelho. No foi desta vez, mas temos de tentar novamente.
Edwiges no estava gostando daquilo. Poderia perder o emprego e ser presa como cmplice. Aceitara ajudar Isabela pelo dinheiro que ia receber, mas j estava arrependida. 
Resolveu aconselhar:
- Por que no desiste de cometer esse crime? O Humberto vai acordar e voc vai poder conversar com ele e pedir perdo. Estou achando isso muito arriscado. Hoje  
o doutor Eduardo; amanh poder ser outro.
Isabela irritou-se:
- No foi paga para me dar conselhos, e sim para cumprir ordens. No gaste o dinheiro que lhe dei. Caso algo d errado e eu no consiga fazer o que pretendo, vou 
querer tudo de volta.
Edwiges resolveu se calar. Percebeu que estava muito envolvida na trama e no poderia mais voltar atrs. Isabela se trocou e saiu sorrateira pela mesma porta de 
emergncia pela qual entrara. Doutor Eduardo examinava Humberto quando, de repente, viu sua mo se mexer. Continuou observando e notou que o paciente abria vagarosamente 
os olhos e os fechava de novo, at que acordou de vez. Humberto, com voz fraca e desorientado, perguntou:
- Onde estou?
O mdico feliz por ver seu paciente retornar do coma apenas uma semana depois de haver adoecido, tentou acalm-lo:
- No se preocupe com isso agora, Humberto. O que importa  que voc acordou e est bem. Procure descansar.
Ele continuava confuso:
- Onde est minha filha? Preciso v-la.
- Ela no est no momento, mas vamos comunic-la de que o senhor acordou e em breve ela poder v-lo.
Uma lgrima teimosa comeou a cair no rosto de Humberto. Ele sentia que havia feito uma grande viagem e que tinha renascido. Muito cansado pelo estado que vinha 
mantendo, voltou a adormecer. Doutor Eduardo comunicou a nova situao  equipe mdica e todas as providncias foram tomadas para que o paciente se restabelecesse 
e ficasse bem. Isabela chegou em casa muito nervosa. Passou rapidamente pela sala e foi para o seu quarto. Aquele dia tinha sido muito intenso para ela. Numa mesma 
tarde fora a dois hospitais e a uma delegacia. Ficou feliz em saber que havia denunciado Aurlia e que em breve ela seria presa. Precisava saber se havia dado tempo 
de a polcia tomar o depoimento de Morgana antes que ela morresse. Sem esse depoimento, ela no teria provas e as coisas ficariam na mesma. A esse pensamento, um 
acesso de dio a acometeu. Se Aurlia ficasse livre, ela mesma daria um jeito de mat-la com as prprias mos. Nunca iria perdoar esse crime contra seu filho. Estava 
assim, largada na cama com esses pensamentos, quando a porta do quarto se abriu e Patrcia entrou sorrindo e contando:
- Isabela, um milagre aconteceu. Acabo de falar com doutor Eduardo e ele me disse que papai saiu do coma. Diz que est confuso e que perguntou por mim. Que felicidade!
Isabela ficou branca feito cera. Tentou no demonstrar o nervosismo que ia em seu peito.
- Quando foi isso?
- Agora h pouco. Foi muito rpido, mas ele est bem. A equipe mdica vai fazer alguns exames. Irei agora mesmo ao hospital. No deseja vir comigo?
Isabela se sentiu perdida. Sua vida iria por gua abaixo; certamente Humberto se lembraria de tudo e ela no poderia levar a vida de luxo que tanto sonhara. Precisava 
pensar no que fazer; para isso deu uma desculpa:
- No irei agora. Apesar de estar muito feliz com o restabelecimento da sade de seu pai, acho que esse primeiro momento deve ser entre voc e ele. No se preocupe 
logo depois eu vou.
- Papai vai ficar ressentido sem sua presena...
- V primeiro. Diga que irei em seguida. No estou me sentindo bem e quero estar tima para o reencontro com Humberto.
- Est bem. De qualquer forma, ele ainda permanece na UTI e no podemos nos demorar muito tempo.
Patrcia se retirou, deixando Isabela a ss com seus pensamentos. O quarto comeou a rodar sem parar. Estava perdida. O casamento havia lhe dado alguns direitos 
sobre os bens de Humberto, talvez o suficiente para levar uma vida boa por largo tempo, mas ela estava habituada a sonhar alto; desejava possuir tudo que era do 
marido e poder usufruir ao lado de Fernando. Agora, com Humberto estabelecido, ela certamente seria expulsa da manso, perderia sua posio e longe da casa ficaria 
praticamente impossvel reconquistar Fernando. Como amava aquele homem! Daria qualquer coisa para t-lo somente para si. Isabela continuou refletindo at que chegou 
a uma soluo:
- Vou me ajoelhar aos ps de Humberto pedindo perdo - dizia alto para si mesma. - Vou apelar para o lado sentimental que ele tem e tenho certeza de que serei perdoada. 
Na frente da filha, ele no ter coragem de fazer nenhuma cena. Quando estiver a ss, farei de tudo para que me perdoe. Afinal, que mulher vai querer suportar um 
homem seqelado e impotente?
Com esse pensamento ficou mais calma. Deitou e logo adormeceu profundamente. Na UTI do hospital a emoo tomou conta de Patrcia, que abraava e beijava o pai com 
muito carinho. Lgrimas escorriam pelo rosto de Humberto. Ele apenas conseguiu balbuciar:
- Eu a amo, minha filha. Nunca se esquea disso.
- Eu tambm o amo, papai.
Doutor Eduardo pediu que fosse encerrada a visita, pois o paciente no podia passar por emoes fortes. Patrcia saiu do hospital feliz e nem percebeu que no quarto 
tambm estavam Flaviana, Diana, Alfredo e Marcos. Quando Humberto adormeceu logo seu esprito se desprendeu e foi ter com os amigos.
- Quase morri de verdade; a Isabela por pouco no conseguiu.
- O bem sempre  mais forte. Quando Deus no permite algo, no h nada que o faa acontecer. Voc no necessitava passar por essa experincia, ento Deus, com suas 
leis perfeitas, o protegeu - respondeu Diana sorrindo.
- Tenho medo do que me pode acontecer de agora por diante. Sinto que no posso perdoar Isabela pelo que me fez. No vou conseguir.
Flaviana interveio:
- Lembre-se de que voc a atraiu pela sua forma de ser e a perdoe. O mal s aparece em nossa vida quando damos abertura. Agora que voc aprendeu a lio pode perdo-la.
Humberto disse com rancor:
- Jamais poderei conviver com ela novamente.
- Deus no obriga ningum a conviver com quem no quer. - Era a voz de Diana. - Voc pode perdo-la, mas no viver a seu lado, ainda mais sabendo do mal que ela 
pode lhe causar. Entretanto, no deve ser vingativo. D a ela o que lhe  de direito e permita que siga sua vida. Mostre que aprendeu a ser generoso e que realmente 
mereceu a nova chance que a vida lhe deu.
Alfredo abraou o pai.
- Isso mesmo, pai.  hora de recomear. Ningum pode viver em paz sem perdoar seus desafetos. Alm do mais, voc sabe que a felicidade lhe est reservada ao lado 
de Slvia e na hora exata vocs se entendero. Liberte Isabela para que possa ser feliz.
- Tentarei, mas o Fernando... Esse me paga! Juro que no deixarei que ele destrua a vida de minha filha.
Diana olhou-o firmemente.
- Fernando no  uma pessoa completamente m, apenas est usando o que aprendeu com a educao equivocada que recebeu de Marlia. Mas ele  forte e vai melhorar. 
Nossos irmos maiores garantem que Fernando vai se voltar ao bem e que ama realmente a sua filha. No podemos esquecer que o amor faz milagres. Quando se casar vai 
se tornar um marido fiel e compromissado com o lar que Deus lhe confiou. Se tentar separ-los vai cortar uma programao do destino. Patrcia tinha de se unir a 
Fernando na presente encarnao, no se esquea disso.
Humberto cedeu um pouco a esse argumento e logo voltou a sentir sono.Os amigos aplicaram passes em todo o seu corpo perispiritual e em pouco tempo Humberto estava 
novamente adormecido. Com cuidado, eles o recolocaram no corpo fsico. Terminado o trabalho, Flaviana comentou:
- Fico feliz em v-lo bem, apesar de saber que ainda ter de enfrentar muitos desafios para encontrar a felicidade.
Diana aquiesceu:
- Infelizmente o dio que ele alimenta por Isabela ainda poder lhe trazer muitos fatos desagradveis. Mas Deus est atento e nada acontece sem sua permisso. Vamos 
orar e confiar.
Marcos estava preocupado.
- As formas ovides ainda esto instaladas em seu corpo fsico. Quando meu pai se livrar delas?
- Humberto se comprometeu muito quando usou o sexo de forma desregrada. Mas o amor cura tudo. Quando ele estiver com Slvia e novamente sentir o amor pulsando em 
seu peito, ficar curado. As obsesses so um santo remdio. Cada um precisa tomar de seu prprio veneno para poder crescer e evoluir. A fora do amor  infinita 
e da prxima vez que ele se relacionar sexualmente com algum por amor estar livre dos parasitas.
Flaviana corou; no estava acostumada a ouvir falar de sexo to abertamente. Diana percebeu.
- No precisa se envergonhar, o sexo  uma energia natural que emana da Divindade para todos ns. Ele foi criado para vrias funes e o prazer, a troca magntica 
e a reencarnao so apenas algumas delas. Na verdade, o sexo  um dos alimentos da alma. Mas quem o pratica de forma ilcita, por machismo, por vcio ou por comrcio 
acabar por se conduzir ao vale da dor por meio de obsesses ou doenas fsicas. Infelizmente, muitos ainda no aprenderam a respeitar esse sagrado instituto.
Os outros concordaram. Em seguida se retiraram do quarto deixando apenas dois enfermeiros espirituais velando por Humberto.
 
21 - DE VOLTA PARA CASA

Madame Aurlia foi presa logo aps o depoimento de Morgana. A polcia pressionou e ela acabou confessando o crime, o que tornou o processo mais fcil. A Manso de 
Higienpolis foi interditada, pois logo aps a priso da madame um telefonema misterioso informou que havia prostituio de menores, o que foi facilmente comprovado. 
Sendo assim, madame Aurlia iria ser julgada por crime hediondo de infanticdio e explorao sexual de menores. Os polticos que protegiam a casa, temerosos quanto 
ao escndalo, desapareceram, e muitos deles no conseguiam entender por que a casa que tanto prezava em s trabalhar com mulheres maiores de idade se envolvera numa 
situao daquelas. Eles ignoravam que Luana havia dado a idia  sua patroa. Ela descobrira que o comrcio da pedofilia estava dando mais dinheiro que o do sexo 
comum. Depois de algum tempo de resistncia, madame Aurlia acabou aceitando. Juntas, ela e Luana foram s ruas  procura de garotas que estivessem saindo da infncia 
e que se encontrassem em situao precria. Por fim, acabavam conseguindo at a autorizao dos prprios pais. Rapidamente a casa triplicou em faturamento, at que 
a bomba do assassinato de Daniel estourou. Sem lugar para morar, as moas acabaram indo para outras redes de prostituio, com exceo de Luana, que havia conseguido 
juntar algum dinheiro. Passou a viver de aluguel e independente, voltou a fazer programas no sinal. Se voltarmos no tempo alguns dias, vamos encontrar Isabela nervosa 
em seu quarto na manso. Era o dia que Humberto voltaria para casa. Ela no havia ido ao hospital. Patrcia perguntava e ela respondia com evasivas; por outro lado, 
Humberto apenas perguntava pela esposa para no levantar suspeitas. Sentia-se trado, mas ao saber que Isabela havia retornado para casa no teve coragem de contar 
a verdade ao ver Patrcia bem e feliz. Ainda teria de aturar Fernando, porm ele jurou para si mesmo que iria fazer de tudo para separ-lo da filha. Doutor Eduardo 
e mais outros mdicos o examinaram e felizmente as seqelas do AVC seriam poucas. Humberto teria de andar com uma muleta, pois seu lado esquerdo estava levemente 
esquecido. Todavia, com exerccios constantes e disciplinados ele poderia voltar a ter uma vida normal. Humberto renasceu. O fato de pensar que poderia estar paraltico 
ou morto fez com que uma mudana muito grande se estabelecesse na personalidade dele. J no pensava em se vingar de Isabela; sabia que poderia acus-la de adultrio 
e ela no levaria nada do casamento, mas para fazer isso ele teria de envolver Fernando, e nada nesse mundo era mais importante do que a felicidade da filha. Isabela 
desceu as escadas quando viu o movimento. Humberto adentrou a sala apoiado por Fernando e Patrcia e, ao v-lo, ela fez uma cena. Correu a abra-lo e beij-lo enquanto 
dizia chorando:
- Meu amor, que bom que retornou com sade. Esta casa no  nada sem sua presena. Perdoe-me por no ter ido ao hospital. No queria v-lo naquele sofrimento, em 
um quarto de hospital. Preferia v-lo como agora, firme e com sade.
Humberto precisou ter muita fora para agentar tanto fingimento. Retirou delicadamente as mos da esposa de seu rosto e limitou-se a responder:
- O que importa  que estou com sade e bem. Gostaria que todos soubessem que sou grato pela preocupao que tiveram comigo. Muitos amigos da poltica daqui a pouco 
estaro aqui, mas eu sei que a maioria deles vir aqui por fingimento. Sei que s minha famlia realmente se preocupou comigo, principalmente a minha filha Patrcia.
Os familiares se enterneceram. Patrcia, olhos cheios de gua, disse:
- No diga isso. Apesar de tudo existem amigos polticos que no so to interesseiros assim. O Andrade e o Rodrigo, por exemplo, estavam preocupados de verdade. 
No deixaram de ligar um dia sequer para saber como o senhor estava.
Isabela interrompeu solcita:
- Acho que essa ocasio to feliz merece um brinde. Humberto no pode beber ainda, mas podemos comemorar de outra forma. Mandei a empregada fazer um lanche para 
quando vocs chegassem; vou pedir a Eudsia que traga aqui.
Antes de Isabela chamar, Eudsia j estava na sala anunciando que havia visita para o senador. Todos se admiraram ao ver Slvia chegar com um buqu de rosas vermelhas 
nas mos. Patrcia foi receb-la com muita alegria.
-  um gosto t-la aqui.
- Eu  que me sinto muito feliz em saber que Humberto j se restabeleceu e saiu sem muitas seqelas. - Virando-se para ele, explicou: - Essas flores so para voc. 
Sei que os homens so um tanto machistas, mas no pude deixar de trazer com essas flores energias positivas para sua casa. Aceite-as com carinho.
Os olhos de Humberto brilharam e nesse momento ele percebeu o quanto Slvia era bonita e bem-educada. Seu corao acelerou e sentiu um brando calor envolver-lhe 
o peito.
- Aceito, sim. Sua visita s veio tornar meu dia ainda mais feliz. Sabe o quanto lhe sou grato pelas nossas conversas no centro. Ajudaram-me bastante.
- No centro sempre fazamos vibraes positivas por voc. Deus lhe deu uma segunda chance; saiba aproveit-la da melhor maneira possvel.
Humberto estava srio ao tornar:
- Vou aproveitar sim. De hoje em diante, muitas coisas vo mudar em minha vida. Sei que essa minha doena foi um alerta. A partir de agora, serei outra pessoa.
-  assim que se fala. Se a cada problema parssemos para analisar o que a vida quer nos ensinar, logo estaramos livres dele.
A presena de Slvia alegrou o ambiente e eles ficaram muito  vontade. Todavia, por um mnimo instante, Isabela percebeu que os olhos de Slvia e Humberto se encontraram 
com amor e um grande dio tomou conta de seu ser. Durante o tempo inteiro procurou fingir estar alegre, mas cada vez que percebia a troca de olhares ficava enraivecida. 
Ela pensava em reconquistar o marido e nada nem ningum iria impedir. O lanche terminou e o dia transcorreu com algumas visitas de amigos de Humberto.  noite, quando 
todos se recolheram, ele puxou Isabela com violncia e a fez sentar-se na cama.
- O que pensa que est fazendo ainda em minha casa? Acha que esqueci de tudo? Foi por sua causa que tive esse derrame e quase morri. Quero voc longe daqui.
Ela sentiu-se tremer, mas havia pensado bastante nesse instante e no podia perder o controle. Falou quase chorando:
- Humberto, sei que o que fiz foi muito grave. Mas entenda que o Fernando me seduziu e eu, iludida, ca na tentao. Porm, posso garantir que sempre o amei e estou 
arrependida. Jamais farei isso de novo. Deixe-me ficar; voc foi o que me restou nessa vida. Eu o amo.
- No vou cair mais nas suas armadilhas. Voc nunca me amou, amou apenas o meu dinheiro e a minha posio social. Mas amanh mesmo darei entrada em nossa separao. 
D-se por feliz em no deix-la sem nada. O que  seu de direito voc vai levar, mas no quero v-la nem mais um dia na minha frente.
Alis, amanh ter uma festa aqui com meus amigos polticos, que Patrcia organizou. Como no desejo estar sozinho, nem quero que eles saibam que  uma mulher venal 
e sem escrpulos, quero que me acompanhe amanh nessa recepo. Mas, depois, quero que saia desta casa e, desta vez, para sempre.
Ela se ajoelhou a seus ps e implorou:
- No faa isso comigo. No desejo sair do seu lado nem ser colocada  margem da sociedade. Sei o que  a pobreza, sei o que  ser humilhada pelas pessoas e olhada 
de soslaio pelos ricos. No desejo, no posso nem quero mais viver assim. D-me uma segunda chance. Eu lhe imploro!
Humberto estava irredutvel. Sentia muita raiva daquela mulher falsa, que fora capaz de tra-lo com o namorado de sua filha.
- No se humilhe tanto, pois de nada adiantar. J tomei minha deciso.
Isabela, com muito dio bradou:
- Eu sei, eu sei que a Slvia est por trs disso. Pensa que no percebi seus olhares de amor para ela? Mais saiba que onde estiver eu no deixarei que seja feliz 
com ela. Voc  meu e ningum vai me tirar. Juro que nunca o deixarei para ela, nem que para isso seja preciso matar!
Humberto, mesmo fraco, agarrou os pulsos de Isabela e falou em voz rouca de dio:
- Tente fazer algo contra a Slvia e eu mesmo darei um jeito de acabar com voc. Agora se retire e v dormir no quarto de hspedes. Tenho nojo de voc!
Isabela percebeu que no havia como reconquistar o marido e retirou-se em prantos. No outro quarto, deitada na cama, ela no conseguia organizar os pensamentos. 
Parecia que sua cabea ia explodir a qualquer momento. De repente, lembrou-se que Fernando estava dormindo na manso. Ao pensar nele, um sentimento violento de paixo 
se apoderou dela. Sentia que se no conquistasse esse homem, sua vida no valeria mais a pena. Insone, resolveu andar pela casa. Passou pelas salas e admirou-se 
mais uma vez com o bom gosto com o qual a manso era decorada. Ao pensar que ia perder aquilo e passaria a viver longe e sem chances de ver Fernando, ela teve vontade 
de chorar. A vida tinha lhe tirado tudo: o filho, a riqueza, o status, e, o principal, o amor de Fernando. Foi at o bar, encheu um copo e tomou de uma vez. Quando 
j ia subir percebeu que Fernando ia descendo as escadas vestido com um roupo. Aquela viso deixou Isabela completamente transtornada e fora de si. Ela correu e 
o abraou:
- Voc  quem mais amo neste mundo. Por favor, no me deixe!!
Ela soluava e Fernando no sabia o que fazer. Havia descido para tomar gua e jamais imaginava encontrar Isabela quela hora naquele estado.
- No quero mais nada com voc. Se sabe disso, por que insiste?
- Perdi tudo. Se eu perder o seu amor, no sei o que serei capaz de fazer.
- Faa o certo. V embora daqui; sua presena  indesejvel. Com voc vivendo nesta casa jamais poderia ser feliz com a mulher que eu realmente amo. V embora e 
procure viver com o pouco que lhe restou. Voc  bonita, logo estar com outro amor. Mas, por favor, me deixe em paz!
Ela chorava abraada a ele, sem querer solt-lo. Fernando tinha uma ndole violenta e sem conseguir conter a repulsa, arremessou-a com fora. Isabela caiu.
- Nunca mais se aproxime de mim. Minha futura mulher no merece nem que eu olhe para voc.
Sem mesmo tomar sua gua, Fernando voltou para o quarto. Constatou que Patrcia dormia tranqila e ficou aliviado. Se Isabela continuasse daquela maneira, ele mesmo 
daria um jeito de sumir com ela para sempre. Temia que, mesmo morando distante, ela fosse interferir e acabar com seu relacionamento. Se isso acontecesse, ele no 
titubearia em mat-la. Na sala, Isabela chorou muito. Quando se acalmou e tomou conscincia de que no poderia mais estar com Fernando nem reconquistar Humberto, 
tomou uma deciso. A idia foi tomando forma em sua mente e ela parecia estar serena ao ter resolvido a situao. Disse em voz alta:
- Amanh na hora da festa saberei o que fazer. Ningum vai desconfiar de nada e sei onde Humberto guarda seu revlver. Est tudo planejado. Essa   sada de minha 
vida.
Os vultos deformados de Juvncio, Romrio e seus amigos rodopiavam ao redor dela e sorriam felizes. Um falava em seu ouvido:
- Isso mesmo. Essa  a melhor sada para voc. No hesite, faa exatamente como pensa.
Aps rodopiarem, eles pararam, e Juvncio concluiu feliz:
- Deu trabalho, mas finalmente ela vai fazer o que tanto desejamos. Amanh ser o grande dia.
Romrio alertou:
- Mesmo assim temos de ficar vigilantes. Sinto que os espritos da luz esto nessa casa acompanhando Patrcia e a tonta da Eudsia. Se no ficarmos atentos, eles 
podem colocar tudo a perder. 
Juvncio ria a valer.
- No se preocupe, j magnetizamos Isabela o suficiente para que ela no desista da idia. V essas formas-pensamento que plantamos ao redor de sua cabea? Pois 
, so elas que vo influenci-la de agora por diante.
Romrio estava mais confiante:
- Como  fcil dominar as pessoas da Terra e obrig-las a fazer o que queremos.  como tirar doce de criana.
Juvncio tornou:
- Nem sempre. Lembra aquele curso que tomamos de influenciao? As pessoas positivas, que vem tudo com bons olhos, que no cultivam pensamentos depressivos, que 
fazem o Evangelho no Lar e que cultivam a orao no so influenciadas por ns. Delas nem conseguimos nos aproximar. Mas, felizmente, boa parte das pessoas adora 
falar sobre negatividades, crimes, vida alheia, criticar e julgar... Com estes conseguimos tudo muito facilmente.
-  mesmo. Isabela  uma delas. Pessoas assim so pratos cheios para ns.
Os espritos riram bastante.
- Agora vamos continuar aqui. No desejo perder o espetculo - falou Juvncio.
Isabela, com muita dor de cabea e com certa dificuldade subiu as escadas, foi para o quarto. Quase no conseguiu dormir pensando na soluo que havia tomado. S 
quando o dia clareou foi que ela conseguiu adormecer. Na manh do dia seguinte, a casa estava em animao. Os preparativos estavam sendo concludos com muito carinho 
para comemorar o retorno de Humberto  vida e  sade. Patrcia havia se esmerado e no queria que nada estivesse fora de ordem, desde a decorao at os petiscos 
que encomendara. Isabela participou da organizao com muito entusiasmo. Quem a visse nem de longe imaginaria a terrvel deciso que ela havia tomado no dia anterior. 
 tardinha, quando se arrumava no quarto, Humberto indagou:
- Estou achando voc muito feliz em vista do que aconteceu ontem. O que est tramando?
- Eu? Nada! Apenas me conscientizei de que no posso mais viver aqui com voc. Uma vez que no tenho mais esse direito, no vou ficar me lamentando. Desejo ser a 
esposa perfeita hoje.  meu ltimo dia nesta casa e no quero causar uma m impresso aos seus convidados.
Humberto achou estranho, mas nada comentou. Depois de um tempo calado, tornou:
- No sei se fiz bem em ter feito voc ficar aqui hoje. Nosso casamento se tornou uma farsa e, mais dia, menos dia, os meus companheiros vo saber que me separei. 
Estou me sentindo meio ridculo.
- No se preocupe,  melhor que eu fique hoje. Depois, com o tempo, voc d a explicao que quiser para eles. A impressa vai cobrir o acontecimento e no  bom 
voc estar desacompanhado.
Ele cocou o bigode.
- Tem razo, porm amanh quero voc o mais longe possvel de minha famlia.
Saiu e bateu a porta. Isabela olhou-se no espelho e murmurou boca crispada:
- No sabe o que o aguarda.
A noite estava bonita, contribuindo para deixar a festa mais agradvel. Logo a manso ficou cheia de gente importante da sociedade paulistana. Os amigos cumprimentavam 
Humberto e o felicitavam pelo seu restabelecimento. Isabela tambm recebia os cumprimentos e sorria para todos. A certa altura, Humberto parou a msica e, emocionado, 
agradeceu aos companheiros, falando da importncia de estar vivo e praticamente recuperado. Teceu seus comentrios polticos e at arrancou risadas dos presentes. 
Em seguida, num gesto pouco usual, Isabela pediu a palavra.
- Gostaria de lhes contar uma histria que poucos conhecem, mas que vo gostar de saber. Peo que me deixem ir at o fim em meu discurso e que no me impeam, acontea 
o que acontecer.
Humberto comeou a ficar nervoso. O que ser que ela iria dizer? Isabela continuou:
- Sou de origem muito pobre. Vivi vrios anos de misria em uma favela, fui estuprada e tive um filho. Quando achava que no havia mais sada, convidaram-me a me 
prostituir em um famoso bordel: a Manso de Higienpolis. L conheci o senador Humberto, que sempre quis dar uma de certinho, porm sempre gostou desse tipo de lugar. 
Ele se apaixonou por mim, mesmo casado, e me trouxe para esta casa como enfermeira de sua mulher doente. Ns nos amvamos no quarto ao lado de onde sua mulher estava 
enferma.
As pessoas comearam a falar baixinho umas com outras, mas logo se calaram ao ouvir a voz de Humberto:
- Algum detenha essa mulher!
Ela gritou, tirando um revlver que estava sob sua roupa.
- Ningum se aproxime ou vai morrer. Eu vou at o fim. - Apontou a arma para as pessoas. Fotos comearam a ser tiradas e o reprter que estava cobrindo o evento 
se aproximou vido pelo furo que iria conseguir. Ela prosseguiu, transtornada:
- Quando vi que Flaviana iria demorar a morrer e meu sonho de ser rica seria adiado, resolvi me precipitar e a matei, sufocando-a com o travesseiro. Esto surpresos? 
Foi isso mesmo que ocorreu. Matei Flaviana. Fui eu que tirei aquela vida intil e que me roubava  felicidade. Casei-me com Humberto e realizei meu sonho de ter 
a vida com a qual sempre sonhei e que at ento me fora negada. Mas o destino me fez conhecer Fernando no dia em que me casei. A partir da, me apaixonei perdidamente, 
e ele correspondeu. Vivemos uma louca histria de amor, mesmo ele estando com Patrcia. - Virou-se para Patrcia e falou, rindo alto: - Como pode ver, voc foi enganada 
esse tempo todo. Seu noivo  um pulha. Estava comigo interessado em meu dinheiro, e est com voc s porque  rica e pode oferecer o que ele nunca teve. Humberto 
ficou impotente e est at hoje. No consegue mais manter relaes sexuais com nenhuma mulher, o que para mim foi um alvio, pois no agentava mais que me tocasse. 
Agora que fiz o que pretendia, vou deixar essa festa inesquecvel.
O fato se deu repentinamente. Ela virou o revlver para sua cabea e disparou um tiro, caindo morta no cho. Patrcia desmaiou e Humberto passou mal. Os convidados 
saram um a um, estarrecidos com a situao. A polcia foi informada e quando chegou ao local j no tinha muito que fazer. Ficou claro o ato suicida, e o corpo 
foi removido para o IML. Na mesma noite, em todos os noticirios, o assunto bombstico era a vida ntima de Humberto e a morte trgica de sua mulher....

22 - RENNCIA

 isso mesmo que deseja? J pensou bem? - Era a voz de Diana questionando com firmeza sua interlocutora.
-  isso sim - respondeu Lourdes com segurana. - Sinto que devo seguir meu corao, e ele no me engana. Partirei hoje mesmo para o Vale dos Suicidas.
Diana ponderou:
- Sabe que no vai poder auxili-la como gostaria e correr srios perigos. Aqui est protegida e poder auxili-la muito mais.
- No irei sozinha. Alfredo e Marcos tambm estaro comigo. Estamos unidos pelos laos do amor verdadeiro. Amamos Isabela e queremos a sua felicidade. Infelizmente, 
no pudemos evitar o ato tresloucado do suicdio, mas vamos estar ao seu lado at que se arrependa e se redima. Daniel, o nico ser a quem ela realmente amou, se 
prepara para reencarnar e no poder nos acompanhar nessa jornada.
Flaviana estava reunida com eles.
- No saberia renunciar a um lugar como este para descer ao inferno. Admiro seu ato de coragem, mas no tenho essa fora.
Antes que Marcos e Alfredo falassem, Lourdes continuou:
- O dia que sentir a chama do amor incondicional em seu peito saber que toda renncia  vlida e que os obstculos so facilmente vencidos quando estamos munidos 
com esse sentimento. No tememos o que vamos encontrar naquele lugar, pois estamos sob a proteo do amor divino. Ento, Diana, podemos partir?
- J avisamos que outros caminhos podem levar a resultados melhores. Isabela est dementada e no consegue se livrar de seus algozes. Raros so seus momentos de 
lucidez. Aqui estar protegida e podemos auxiliar sempre que necessrio. Contudo, no podemos interferir no livre-arbtrio de vocs. Quando a renncia  de corao, 
o universo nos protege. Podem partir; nossos maiores concederam permisso.
O momento foi de muita emoo. Lourdes foi abraada por Flaviana, que no deixou de perguntar:
- Voc foi to humilhada pela sua filha! Como ainda consegue se sacrificar a tal ponto?
- O amor de me abre as portas para o amor incondicional. Se fossem Marcos e Alfredo que estivessem l, no faria o mesmo?
- Penso que sim. Mas  difcil saber que meus filhos vo se distanciar de mim para ajudar uma mulher que foi sua me em uma vida longnqua. No consigo entender.
Marcos explicou:
- Aquela encarnao foi muito importante para ns. Trazemos laos de amor que nos unem a Isabela. Mais uma vez, ela fracassou e perdeu a oportunidade de ser feliz, 
mas no que depender de ns um dia ela vai conseguir. Compreenda me, amamos a senhora tanto quanto amamos aquela que um dia tambm nos gerou. O verdadeiro amor no 
pode ser egosta. Aqueles a quem amamos de verdade nem o tempo consegue afastar.
Flaviana sentiu os olhos umedecer. Beijou os filhos e desejou-lhes boa sorte. Ela no conseguia entender o tamanho daquela renncia. Abandonar um lugar como aquela 
colnia maravilhosa para sofrer os tormentos do vale tenebroso. Ainda bem que reencontrara Aurlio, um esprito amigo que a estava auxiliando bastante e, dessa maneira, 
no iria se sentir to s enquanto os filhos estivessem distantes. Aps as bnos de outros amigos da colnia, eles partiram. Em questo de segundos estavam em 
um lugar escuro, cheio de lama e nvoa. Pessoas gemiam e se contorciam, as rvores eram secas e no havia vegetao rasteira. Lourdes comeou a sentir dificuldades 
em respirar; Marcos e Alfredo tambm. Ento ela lembrou:
- Vamos orar mais uma vez e pedir proteo a Deus. Assim como ns, muitos outros esto aqui para socorrer e ajudar. Trouxemos todos os apetrechos que vamos utilizar 
para amenizar o sofrimento de Isabela, mas sabemos que no vai ser fcil. Ela est em estado de loucura e no reconhece ningum.
Eles fizeram uma sentida prece a Deus pedindo proteo. Ao terminar, Marcos indagou:
- Ser que todos os que se suicidam ficam assim? Conosco aconteceu o mesmo.
- Pelo que pude estudar cada caso  um caso. Existem suicidas que no vm para esse vale; ficam presos ao local do crime durante anos revivendo a cena que os levou 
 morte. Outros ficam presos no corpo e sentem o horror dos vermes destruindo seu envoltrio fsico; h tambm aqueles que mesmo aqui no vale logo recobram a lucidez 
e sofrem muito por descobrirem que continuam vivos e que os problemas esto maiores. O suicdio sempre ser a falta mais grave que o ser humano comete para com as 
leis divinas. Isabela, em esprito, foi conduzida para esse vale inconscientemente pelos espritos que a acompanhavam no dia-a-dia. Ao acordar e se dar conta da 
situao, desesperou-se, gritou muito e desmaiou vrias vezes. Sempre que acordava, via Juvncio, Morgana e outros espritos que foram suas vtimas desde outras 
reencarnaes. Esses espritos acabaram por enlouquec-la e ela no sabe mais nem onde est nem quem . 
Alfredo estava preocupado:
- Comeo a acreditar que erramos em ter vindo para c. Esses espritos no vo permitir nossa aproximao e podem nos fazer mal.
- No pense assim. Estamos vibrando numa sintonia diferente e por isso eles no podero nos ver. Nossa tarefa principal  enviar pulsos magnticos a seu perisprito 
para que ele no se deforme e vire uma massa disforme ou um ovide.
Alfredo se lembrou:
- Ovides so aqueles seres que esto presos ao meu pai?
- Sim. No tempo que aqui estou procurei aprender e entendi muitas coisas. Ovides so espritos que perderam toda a forma humana devido a sentimentos negativos, 
e se transformaram em massas arredondadas portadoras de muitas energias destrutivas. No desejo que minha filha fique assim. Agora vamos em frente que a tarefa nos 
espera.
Eles andaram sobre corpos dilacerados de pessoas que gritavam desesperadamente. Depois de um tempo, encontraram Isabela sozinha deitada sobre uma poa de lama. Aproximaram-se 
e comearam a aplicar passes em seu perisprito. Aos poucos ela foi se acalmando. Mas, em questo de segundos, o grupo de Juvncio chegou e comeou a rodopiar ao 
seu redor, rindo dela e a violentando como podiam. Ento ela voltava a chorar e a gritar. Dez anos depois, Lourdes e o restante do grupo finalmente conseguiram sua 
libertao. Ela passou por um breve tratamento, mas no conseguia recobrar a lucidez. Os mentores se reuniram e perceberam que a nica chance de ela melhorar seria 
uma nova reencarnao. Lourdes participou ativamente de tudo at o dia em que sua filha amada mais uma vez regressou ao palco da Terra. As revelaes que Isabela 
fizera durante a festa, como era de esperar, tinham provocado muita revolta em Patrcia, que passou a odiar Fernando com todas as foras de seu corao. Humberto 
tambm sentiu-se envergonhado porque suas intimidades foram ditas com requintes de crueldade, e passou a no sair mais de casa. Seu estado de sade voltou a piorar 
e ele no conseguia recuperar os movimentos perdidos. Naquela tarde, a manso se encontrava em estado sombrio. Humberto estava na sala e Patrcia, em seu quarto, 
reclusa. A campainha soou e Eudsia foi abrir. Era Slvia. Humberto s conseguia se sentir bem quando ela aparecia. Quando ficaram a ss, ela explicou:
- Vim para conversar com a Patrcia. Sei que ela no quer ver ningum porque est se sentindo trada, mas no posso deixar que cometa a maior bobagem de sua vida 
por orgulho. Posso subir?
- Pode, sim. Mas quando vou ter sua companhia? Sabe o quanto gosto de voc e o quanto tem me ajudado.
Slvia corou. Havia muito tempo descobrira que amava Humberto, mas sentia receio de no ser correspondida. Limitou-se a dizer:
- No se preocupe, teremos muito tempo para conversar. -Subiu em direo ao quarto, bateu levemente e entrou. Patrcia chorava abraada aos travesseiros. Sua barriga 
estava grande, pois contava com seis meses de gestao. Ao perceber de quem se tratava, limpou os olhos e sentou-se na cama.
Slvia foi direto ao assunto:
- Vim porque sou sua amiga e no posso deixar que cometa um erro que vai faz-la infeliz pelo resto da vida. Sei que est assim por orgulho. Sentiu-se enganada e 
a imagem perfeita que fez do Fernando desmoronou, mas  hora do perdo. S ser feliz se perdoar.
Ela respondeu com revolta:
- Diz isso porque no est na minha pele. Fui enganada todo esse tempo. O homem que imaginei perfeito para mim  leviano, infiel e interesseiro. No posso perdoar 
a quem me fez tanto mal.
- A desiluso di, mas ela  melhor do que qualquer mentira. Voc descobriu que na Terra ningum  perfeito, por mais que parea ser. A verdade foi dura, mas necessria. 
Agora voc sabe que Fernando  s um homem com defeitos e qualidades, e, mesmo que no queira, ainda ama esse homem. Na vida h sempre caminhos para escolher, mas, 
feita a escolha, teremos de arcar com as conseqncias. Voc pode escolher perdo-lo agora e viver feliz ou continuar mimada e orgulhosa, e ser infeliz para sempre. 
A escolha  sua.
Patrcia falou com voz chorosa:
- Como posso perdoar algum que me traa sem nenhum remorso? Como posso querer perto de mim uma pessoa que est interessada apenas em meu patrimnio? J escolhi, 
vou viver sozinha e me dedicar s a este filho que est para nascer.
Slvia no se deu por vencida:
- Voc est escolhendo a infelicidade. Fernando se modificou muito nesses seis meses que est longe de voc. Passou a freqentar o centro e tem desabafado comigo. 
Ele se sente culpado pela morte de Isabela e sente-se infeliz por v-la sofrer. Acredite, ele a ama de verdade. Pode ter se aproximado de voc por interesse, mas 
est mudado e disposto a se regenerar.
Ademais, ningum encontra ningum pela primeira vez aqui na Terra. H entre vocs laos fortes de vidas passadas que no podem se romper por egosmo. Pense que seu 
filho precisa de um pai e de uma famlia para que cresa em segurana e se firme, mas antes de tudo pense em voc mesma. Se o ama, passe por cima do orgulho e volte 
para ele. A vida s vale a pena quando vivida com felicidade. Slvia falava de maneira decidida e olhava dentro dos olhos de Patrcia.
- Confesso que estou melhor com sua presena. No momento estou muito confusa para tomar uma deciso, mas me sinto muito infeliz desde que me separei do Fernando.
- Voc foi radical e no deixou que ele se explicasse. No acha que chegou a hora?
- Penso que sim. No suporto mais ficar neste quarto chorando.
- Ningum agenta a infelicidade por muito tempo. O estado natural do ser humano  a alegria; ser infeliz  lutar contra a natureza, que nos fez para o amor e a 
abundncia.
Patrcia a abraou fortemente. Ao descer as escadas, j com um sorriso nos lbios, ouviu Humberto comentar:
- Realmente, Slvia, voc faz milagres.

EPLOGO

Dez anos se passaram. Patrcia ainda demorou bastante para perdoar Fernando, o que aconteceu quando o primeiro filho deles veio ao mundo. Ele chorou sentidamente, 
pediu perdo, ajoelhou-se aos seus ps e declarou seu amor. Ela, auxiliada por Slvia e por amigos espirituais, venceu o orgulho e admitiu que o amava profundamente. 
Foram dias felizes para eles. Planejando terminar sua faculdade de Psicologia, ela no teve mais filhos durante largo tempo. Casou-se com Fernando no mesmo dia em 
que seu pai casava-se com Slvia. Foi uma cerimnia muito bonita, mas simples, totalmente diferente do luxo que Marlia esperava. Mas ela se sentia feliz. Agora 
seu filho amado pertencia a mais alta sociedade. Pressionado pelos seus sentimentos, Humberto se declarou a Slvia e ela, apaixonada, tambm revelou que o amava 
desde que se encontraram pela primeira vez no centro esprita. Quando se amaram pela primeira vez, Humberto livrou-se da impotncia e sentiu-se um novo homem. Pensou 
em abandonar a poltica. Agora que havia conhecido a espiritualidade, percebeu a gravidade dos erros que havia cometido com as corrupes junto ao governo e as outras 
que o beneficiaram particularmente. Acreditou que se afastando estaria imune s tentaes, todavia Slvia o fez pensar diferente, mostrando que agora ele poderia 
agir com honestidade, reparando assim seus antigos erros. Disse-lhe que na poltica Deus une os homens em reajustes do passado longnquo e que quando cada homem 
amar seu semelhante como ama a si mesmo a corrupo deixar de existir. Humberto sentiu-se seguro para continuar e dessa vez trilhou um caminho reto e pautado pela 
tica. Sendo assim, deu um grande passo rumo  prpria evoluo. A manso voltou a ser um lar feliz com Fernando, Patrcia, o pequeno Lucas, Slvia e Humberto. Ningum 
mais falava de Isabela. s vezes, Eudsia se lembrava de sua amiga e fazia-lhe preces. Slvia tambm, sempre que ia ao centro, enviava-lhe vibraes de amor. Mas 
os outros ainda sentiam mgoa pelo que haviam passado e no conseguiam perdoar. No entanto, a vida no deixa nenhuma situao inacabada e eis que depois de quase 
dez anos Patrcia novamente engravida. Foi uma alegria geral, mas que durou pouco tempo. O obstetra percebeu que o feto estava com malformao no crebro, e que 
a criana poderia nascer e viver com muitas limitaes. Foi um choque geral. Augusta, agora j desencarnada e em equilbrio, passou a ajudar a neta com energias 
positivas naqueles nove meses de gestao complicada. O nascimento da criana, no entanto, provocou em todos um sentimento de compaixo, e cada um deles passou a 
amar a pequena Andressa com muita intensidade. Os primeiros anos foram difceis. A criana no caminhava nem entendia o que as pessoas falavam, mas demonstrava estranho 
brilho no olhar sempre que Fernando se aproximava. s vezes se agitava e emitia pequenos sons, como h dizer que muito sofria, e s se acalmava quando o pai a acalentava 
ou a colocava no colo. Um dia, um mdium foi procurar a famlia. Havia uma carta que havia sido psicografada no centro durante uma sesso ntima que se endereava 
a eles. A famlia se reuniu para ler e cada palavra que Humberto pronunciava causava muita emoo: "Queridos amigos e familiares que deixei na Terra: hoje, com a 
permisso de Deus e dos espritos superiores, posso vir revelar alguns fatos que se ocultam por trs da matria. Quando parti deixando meu corpo de carne doente, 
no entendi o que se passava comigo e me revoltei. Humberto, o homem que mais amei, havia me trado e me trocado por uma mulher que mais tarde viria a tirar minha 
vida. Oh! Eu no sabia que Deus sempre faz tudo certo e resolvi cobrar a vingana. Cedo descobri que esse caminho s me trouxe infelicidade e, com ajuda de amigos, 
consegui acabar com minhas iluses e olhar a vida como ela . Como a aceitao nos faz bem! Percebi que Humberto  apenas um ser humano e, como tal, errou e ainda 
vai errar outras vezes para crescer. Aprendi que o erro  uma condio natural para a evoluo e parei de me culpar pelo que fiz da minha prpria vida. Quando casei, 
enterrei minha juventude em nome dos papis sociais, achando que assim seria feliz. Coloquei toda a minha alegria em meu marido sem perceber que no so os outros 
que fazem nossa felicidade, que ela s pode vir de ns mesmos. Resultado: atra a rejeio e a doena. Hoje sei que tudo que nos acontece vem de nossas prprias 
atitudes e estou disposta a mudar, ser feliz! Quero dizer que todos vocs deram um passo muito grande na senda da evoluo. Mame venceu os preconceitos e aprendeu 
que ningum  melhor que ningum, que riqueza e poder s valem mesmo quando estamos caminhando com a verdade. Humberto se tornou um novo homem e est no caminho 
da espiritualidade, preparando-se inconscientemente para uma grande tarefa que ter no futuro, que Deus o abenoe. Patrcia e Fernando se reencontraram aps muitas 
vidas de desentendimentos, paixes e sofrimentos; agora podem finalmente encontrar a paz. Principalmente porque venceram a prova importante do orgulho, souberam 
renunciar em nome do amor. Andressa precisava dessa oportunidade. Abenoada seja a maternidade, que conduziu at o seio dessa famlia um esprito muito ligado a 
vocs por laos que se perdem no tempo. Aprendam a am-la verdadeiramente. Esse estgio de Andressa na Terra ser curto, apenas para que se cure dos problemas que 
carrega e possa obter de todos vocs o perdo sincero e efetivo. Ningum pode seguir para Deus deixando em seu caminho resqucios de dio, revolta, violncias e 
crenas no mal. Todos ns sofremos muito para entender que nada  para sempre, que a vida pode a qualquer momento modificar todas as situaes ao nosso redor sem 
que possamos prever.
Finalizo pedindo a todos que continuem os estudos sobre a vida espiritual. Sabemos aqui no plano astral que esto surgindo novas revelaes da verdade; elas viro 
para implantar de vez a Nova Era nesse mundo ainda to conturbado. Aproveitem o que a espiritualidade pode oferecer praticando todos os seus ensinamentos, pois o 
conhecimento de nada adianta sem a prtica. As novas revelaes vo desafiar alguns, confundir a outros, mexer com orgulhos e vaidades, mas quem estiver firme no 
bem vai se beneficiar e mais rpido encontrar a felicidade e a harmonia interior. Que o Mestre de amor possa estar com todos vocs, abenoando-os sempre... Flaviana". 
Humberto e a famlia leram e releram muitas vezes a carta, agradecendo a Deus a bno maravilhosa da mediunidade e a chance que Ele dera a Flaviana de se manifestar. 
Renovados por aquelas simples palavras, entenderam um pouco mais a infinita bondade do Criador e a sabedoria de suas leis. No fundo do corao de cada um ficou a 
certeza de que no corpinho deformado de Andressa estava o esprito que um dia se chamou Isabela, e de que a reencarnao  a nica porta que conduz ao amor incondicional.



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